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Ruy Duarte de Carvalho

Ruy Alberto Duarte Gomes de Carvalho é angolano por opção, tendo nascido em Santarém, Portugal a 22 de Abril de 1941. Passou parte da sua infância na cidade de Moçamedes, actual Namibe. Viveu em Moçambique e Inglaterra, voltando para Angola em 1963. Fez o curso de regente agrícola, de realizador de televisão. Trabalhou na Televisão Popular de Angola (TPA) como realizador. É doutorado em antropologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Como cineasta empenhou-se no cinema etnográfico.
É artista plástico, poeta e ficcionista, com várias colaborações em jornais, revistas como a Província de Angola e Prisma, participações em exposições de artes plásticas em Luanda. Tem contribuído como antropólogo para o conhecimento do imaginário social e mítico de Angola tendo publicado alguns estudos antropológicos.

“Toda a conversa sobre poesia resulta absurda se não se tiver em conta que o próprio da poesia é a sua energia e que esta resulta da organização particular dada à palavra. E podem ser absolutamente, e quase sempre são dez palavras, por exemplo, que toda a gente conhece, que fazem parte do arsenal da língua comum. Só que nunca tinham sido propostas daquela maneira – de forma que o que exprimem nunca tinha sido formulado antes, nunca tido sido dito, criado, em suma.” Extractos da entrevista dada a Michel Laban. In: Michel Laban. Angola. Encontro com Escritores. Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1991, p.705.

Sua obra publicada inclui poesia, ficção, argumentos para filmes, ensaios e literatura de viagem. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos. Foi galardoado com o Prémio Nacional de Literatura em 1989. As suas obras figuram em: Presença de Idealeda (1973) Antologia da Poesia Pré-Angolana (1976), Monangola. A Jovem Poesia Angolana (1976), Poesia de Angola (1976), No Reino de Caliban. Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa II (1976), Poemas para Pioneiros (1979), No Ritmo de Tantãs (1991).

Silêncio mas porquê e não apenas vento
até que a pedra se arredonde enfim
e a água se expanda
ralada no verde?

Um sono que se estenda obliquamente
entre a murada construção da idade
e as veredas ordenadas pelo passado

Uma memória a ter-se
mas não aquela que o futuro impeça

Poema “Abertura”. In: Ruy Duarte de Carvalho. Hábito da Terra. Poesia. Luanda, União dos escritores Angolanos, 1988, p.41.

Suas obras publicadas são: Chão de Oferta (1972), A Decisão da Idade (1976), Como se o Mundo não Tivesse Leste (1977), Exercícios de Crueldade (1978), Sinais Misteriosos... Já se vê... (1979), Ondula Savana Branca (1982), O Camarada e a Câmara (1984), Nelisita (1985), Lavra Paralela (1987), Hábito da Terra (1988), Ana a Manda. Os filhos da Rede. Identidade colectiva, criatividade social e produção da diferença cultural: um caso muxiluanda (1989), Memória de Tanta Guerra (1992), Ordem de Esquecimento (1997), A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita... Fitas, textos e Palestras (1997), Aviso à Navegação. Olhar sucinto e preliminar sobre os pastores kuvale da província do Namibe, com um relance sobre as outras sociedades agropastoris do Sudoeste de Angola (1997), Observação Directa (2000), Vou lá visitar Pastores. Exploração epistolar de um percurso angolano em território kuvale, 1992-1997 (1999), Lavra Reiterada (2000), Os Papéis do Inglês (2000).

Francisco Soares escreveu: “na narrativa e em alguma lírica de Ruy Duarte de Carvalho intuímos uma outra via de acesso àquilo que podemos provisoriamente chamar de intercurso... Nas três «estórias» incluídas em «Como se o Mundo não tivesse Leste», é o trabalho sobre a focalização dos narradores que vai transformando uma visão europeizada, ou europeia, para a levar a aceder à que seria tradicional entre os povos do Sul. Não se dá, portanto, a incorporação de técnicas narrativas tradicionais. Nestas peças o que há é a disponibilização das regras compositivas típicas da personalidade narrativa europeia em favor da aproximação a uma cosmologia diferente, a que o leitor acede pela substituição do ponto de vista de um narrador (o europeu ou o conotável) pelo outro (o africano). Nos títulos menos intrinsecamente narrativos, seja em «Ondula, Savana Branca», ou em «Sinais Misteriosos... Já se vê», as versões lavradas ora traduzem uma técnica e uma fonte banto, ora contrapõem-na a uam interpretação típica do autor à procura de modelarmente se representar a deseuropeização. Dificilmente encontramos nesses livros mais do que Lavras Paralelas. O seu texto joga entre a tese e a antítese, sem nos propor a síntese. E joga-se todo ele, por isso, na representação das ideações conflituantes, na geometria das percepções antropológicas opostas, sem propriamente criar uma técnica mista de composição.” In: Francisco Soares. Notícia da Literatura Angolana. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001. Colecção Escritores dos Países de Língua Portuguesa, n.º 22, p.233.

O sol o sul o sal
as mãos de alguém ao sol
o sal do sul ao sol
o sol em mãos do sul
e mãos de sal ao sol

O sal do sul em mãos de sol
e mãos de sul ao sol

um sol de sal ao sul
o sol ao sul
o sal ao sol
o sal o sol
e mãos de sul sem sol nem sal

Para quando enfim amor
no sul ao sol
uma mão cheia de sal?

Poema “O Sul”. In: Ruy Duarte de Carvalho. A Decisão da Idade. Luanda, União dos escritores Angolanos, 1976, p.5.

Informação Adicional

  • Nascido em: 1941-04-22
  • Naturalidade: Santarém, Portugal
  • Gênero literário: Prosa, Poesia, Ensaio