Bio Quem

Agostinho André Mendes de Carvalho - Uanhenga Xitu

Instante poético:

(...) - Toma atenção, Kahima no que te vou dizer, porque basta trocar a ordem de um mando para tudo se gorar... Esta noite levas pós para espalhá-los, um poucochinho de cada vez, em todos os cruzamentos do caminho onde passarão os jogadores e a assistência. Vais benzer todas as encruzilhadas!...

Em todos os trajecto, tanto na ida como na volta, não deixes que alguém te passe à esquerda. Evita!... Depois daquela nascente de Kibulukutu, em direcção à primeira choça que encontrares, isto é, antes da baixa de Malombe, enterras esta dibunda. Pega, fecha a mão!... Muita atenção, ouviste?... Quando cantar o primeiro galo, tens de estar no campo da bola. E no centro, no lugar da coroa onde se assenta a bola, enterras isso. Pega, fecha a mão!... Depois de enterrares, alisa o lugar, de uma maneira para ninguém desconfiar... Depois desta operação, dá oito voltas ao campo; na nona, passas com este embrulho. Pega, fecha a mão! Nove vezes entre as pernas. Regressas... Por volta das onze horas da manhã, portanto, amanhã dia do jogo trazes-me todos os jogadores que farão parte do desafio (...).

 

 In: Mestre Tamoda, 2001, p. 56, 57.

 

Biografia e atuação:

 

Romancista. Uanhenga Xitu é o nome Kinbundu de Agostinho André Mendes de Carvalho. Fez curso de enfermagem, profissão que exerceu durante muitos anos. Como enfermeiro, deslocou-se por todo o país. Também cursou Ciências Políticas na Alemanha. Em 1959, foi preso e considerado participante no “Processo dos 50”. Enviado para o Tarrafal, Uanhenga XITU lá permaneceu, de 1962 a 1970. Após a independência, foi membro do Conselho da Revolução, Comissário (Governador) da Província de Luanda, Ministro da Saúde de Angola e Embaixador de Angola na República da Polónia. Foi deputado na Assembleia Nacional, pela bancada do MPLA, partido do qual faz parte, tendo sido, inclusive, membro do seu Comité Central até 1998.

 

Percurso Literário: época e geração

 

É considerado um Poeta da Geração 70, a Geração do Silêncio. Foi na cadeia, em companhia de António Cardoso e de António Jacinto, que Uanhenga XITU começou a escrever os seus primeiros contos. É membro da União dos Escritores Angolanos, que recentemente o homenageou, pela sua inquestionável importância dentro do cenário literário angolano.

 

Obra Poética: cronologia e publicações

 

  • 1974 – Meu Discurso.
  • 1974 – Mestre Tamoda.
  • 1974 – Bola Com Feitiço.
  • 1974 – Manana.
  • 1976 – Vozes na SanzalaKahitu.
  • 1980 – Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem.
  • 1984 – Os Discursos de Mestre Tamoda.
  • 1989 – O Ministro.
  • 1997 – Cultos Especiais.
  • 2002 – Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem. (reedição)

 

Crítica Literária:

 

Os Discursos de Mestre Tamoda é, talvez, a sua obra mais importante e a mais reeditada. A respeito deste livro, o próprio autor nos diz:

 

A obra publicada de Mestre Tamoda, como algumas vezes expliquei aos leitores, foi escrita na cadeia, onde a vigilância e busca dos guardas e da parte de outras entidades prisionais era constante. Eu e outros companheiros vimos confiscados, além da correspondência familiar e documentos, trabalhos literários de grande valor que nunca mais recuperámos e, para voltar a reproduzi-los tal e qual, será difícil. (XITU apud UEA)

                                                                                                                                 

Ainda sobre a referida obra, Luís Kandjimbo, um dos mais importantes críticos literários angolanos, escreveu:

 

Tamoda, simbolizando, o mimetismo cabotino, é uma personagem típica do mundo que através da exibição de maneirismos expõe à hilaridade o uso da língua portuguesa perante uma audiência de jovens e crianças, transformando-se em modelo, no que diz respeito ao emprego e manipulação de vocabulários portugueses... Na qualidade de escritor com um envolvimento directo na actividade política, pois é deputado à Assembleia Nacional, na sua bibliografia destacam – se ‘O Ministro’ e ‘Cultos Especiais” duas obras consagradas à crítica social, ao culto à personalidade e a outros comportamentos dos políticos. (KANDJIMBO apud UEA)

 

O professor Fernando Mourão aponta que Uanhenga Xitu, em Mestre Tamoda,  “põe em evidência o conflito, através de uma linguagem plena de humor, retratando uma situação ao mesmo tempo trágica e cómica” (MOURÃO, 1985, p. 124)

 

Salvato Trigo também tece alguns comentários sobre o renomado escritor:

Em síntese, estamos, portanto, em face de um escritor, que, no dizer avisado de Russell Hamilton, é inequivocamente um dos principais modernizadores da literatura angolana. Sem querermos contrariar minimamente a opinião daquele crítico, talvez nós preferíssemos dizer que U. Xitu é inequivocamente um dos maiores “africanizadores” da literatura angolana [...]. Uanhenga Xitu vai continuar a escrever [...] polifonicamente, como o tem feito até aqui, dando à literatura angolana cada vez mais o sabor da oratura. Só assim o texto viverá, uma vez que se alicerça numa expressão vivificante, qual é a do griotismo literário, que continuará a ser o traço distintivo das literaturas africanas modernas. “Da oratura à literatura” – há-de continuar a ser o trajecto e o objectivo da escrita de Uanhenga Xitu que se recusa ser, literariamente, Agostinho Mendes de Carvalho. (TRIGO apud UEA)

 

Sobre as personagens que recria nas suas obras, é o próprio Uanhenga Xitu quem diz:

As personagens do meu mundo ficcional, a princípio apenas imaginadas, vão-se autocriando, ganham rosto próprio e, mesmo quando lhes dou mais atenção, tornam-se tão autónomas no interior da minha narrativa, e nem sempre o destino que lhes traçara acabará por se cumprir. Nunca soube, antecipadamente, o fim que cada uma teria. O Kahitu, que era tão dócil na redacção das suas cartas, não conseguira convencer... Nunca o tive como modelo acabado. (XITU apud UEA)

 

Referências Bibliográficas:

 

KANDJIMBO, Luis. BioQuem. Disponível em www: <URL: http://www.uea-angola.org/bioquem.cfm?ID=80

 

MOURÃO, Fernando. O Problema da Autonomia e da Denominação da Literatura Angolana. Paris: Fondation Calouste Gulbenkian/Centre Culturel Portugais, 1985.

 

TRIGO, Salvato. Uanhenga Xitu. Da oratura à literatura. Cadernos de Literatura, 12, 1982.

 

___________ BioQuem. Disponível em www: <URL: http://www.uea-angola.org/bioquem.cfm?ID=80

 

XITU, Uanhenga. BioQuem. Disponível em www: <URL: http://www.uea-angola.org/bioquem.cfm?ID=80

Informação Adicional

  • Nascido em: 29/08/1924
  • Naturalidade: Calomboloca, Icolo e Bengo, Angola
  • Gênero literário: Prosa

Contacto

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