Bio Quem

António Agostinho Neto

Poesia Africana

 

Lá no horizonte

o fogo

e as silhuetas escuras dos imbondeiros

de braços erguidos

No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

 

Poesia africana

Na estrada

a fila de carregadores bailundos

gemendo sob o peso da crueira

No quarto

a mulatinha dos olhos meigos

retocando o rosto com rouge e pó de arroz

A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas

Na cama

o homem insone pensando

em comprar garfos e facas para comer à mesa

 

No céu o reflexo

do fogo

e as silhuetas dos negros batucando

de braços erguidos

No ar a melodia quente das marimbas

 

Poesia africana

 

E na estrada os carregadores

no quarto a mulatinha

na cama o homem insone

 

Os braseiros consumindo

consumindo

a terra quente dos horizontes em fogo.

 

                                      In: Poemas, 1961

 

 

Biografia e atuação:

 

António Agostinho Neto trabalhou nos Serviços de Saúde de Luanda até 1947, quando seguiu para Portugal. Estudou Medicina em Coimbra e, depois, em Lisboa, onde se licenciou, em 1958. Durante a sua permanência em Portugal, Agostinho Neto participou e esteve estreitamente ligado às atividades sociais, políticas e culturais, sobretudo as da Casa dos Estudantes do Império. Fundou em Lisboa, juntamente com outros estudantes africanos, como Marcelino dos Santos e Mário Pinto de Andrade, o Centro de Estudos Africanos e o Clube Marítimo Africano, assegurando, assim, o elo entre os angolanos que viviam em Angola e Portugal. O poeta sempre esteve envolvido com atividades políticas, o que resultou, por diversas vezes, na sua prisão. Foi detido pela primeira vez em 1951. Em 1957, estando ainda na cadeia, foi eleito o “Prisioneiro Político do Ano”, pela Anistia Internacional. Em 1959, regressou a Angola e abriu um consultório médico. Manteve, contudo, as suas atividades políticas, e de uma forma bastante efectiva. Voltou a ser preso e foi deportado para Cabo Verde. Devido às pressões internacionais, foi transferido para Lisboa, permanecendo em residência vigiada. Em 1962, conseguiu evadir-se de Portugal com a família, indo para Léopoldville, República do Congo, local onde estava sediado o Movimento Popular de Libertação de Angola - MPLA. Neste mesmo ano, foi eleito presidente do partido.

Como presidente do MPLA, António Agostinho Neto passou a liderar a luta armada contra o colonialismo, em favor da libertação nacional. Aos 11 de novembro de 1975, proclamou a independência de Angola, tornando-se, assim, o primeiro Presidente da Nação, função que exerceu até a sua morte.

 

Percurso Literário: época e geração

 

Poeta da Geração Mensagem, Agostinho Neto emergiu como escritor na década de 50, durante o período político-cultural angolano, conhecido como “Vamos Descobrir Angola”.  Ao longo de toda a sua vida de homem público, a escrita revelou-se uma atividade fundamental. Participou, como colaborador, em várias publicações periódicas de Angola, de Portugal e do Brasil. Seus textos foram publicados em diversos jornais e revistas, como: Mensagem, Cultura, Itinerário e Notícias de Bloqueio. As suas primeiras colaborações escritas datam do período compreendido entre 1942 e 1944 e foram publicadas no jornal O Estandarte. Além das obras mencionadas, encontram-se também publicados alguns dos seus discursos e reflexões sobre a cultura angolana, tais como: Introdução a um colóquio sobre a poesia angolana, de 1959; Sobre a União dos Escritores Angolanos, de 1975; Sobre a Literatura, de 1977; Sobre a Cultura Nacional, Sobre as Artes Plásticas e Sobre a Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, de 1979; ...Ainda o Meu Sonho...e  Discursos sobre a Cultura Nacional, de 1985.

Agostinho Neto é considerado um dos grandes autores de expressão portuguesa no mundo. O poeta é comparado muitas vezes a Léopold Sédar Senghor, senegalês de expressão francesa e um dos fundadores da Négritude- movimento que, nos anos 30 do século passado, lutava em favor da restituição dos valores e da dignidade negra. Agostinho Neto ultrapassou, sem dúvida, o que se podia esperar de um homem de grande cultura. Utilizava a sua inteligência e conhecimento para reagir contra a opressão, na denúncia da injusta situação colonial. Com implacável vigor, o poeta também buscou construir um futuro de liberdade e igualdade para todos. Foram-lhe atribuídos diversos prémios políticos e literários, dentre os quais: o Prémio LOTUS, em 1970, e o Prémio Nacional de Literatura, em 1975. Sagrada Esperança, de 1974, é a sua obra mais publicada. Foi traduzida para diversas línguas e serve de base para muitos estudos, sobretudo na área das Ciências Sociais e Humanas.

 

Obra Poética: cronologia e publicações

 

  • 1952 – Náusea. In: Revista Mensagem.
  • 1957 – Quatro Poemas de Agostinho Neto.
  • 1961 – Poemas. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império.
  • 1963 – Com os olhos secos.
  • 1963 – Con occhi asciutti.
  • 1974 – Sagrada Esperança.
  • 1982 – A Renúncia Impossível – negação. In: A renúncia impossível – poemas inéditos. (edição póstuma).
  • 1998 – Agostinho Neto: Poesia. In: Colecção Kiamba (edição póstuma).

 

Crítica Literária:

Os Discursos de Mestre Tamoda é, talvez, a sua obra mais importante e a mais reeditada. A respeito deste livro, o próprio autor nos diz:

A obra publicada de Mestre Tamoda, como algumas vezes expliquei aos leitores, foi escrita na cadeia, onde a vigilância e busca dos guardas e da parte de outras entidades prisionais era constante. Eu e outros companheiros vimos confiscados, além da correspondência familiar e documentos, trabalhos literários de grande valor que nunca mais recuperámos e, para voltar a reproduzi-los tal e qual, será difícil. (XITU apud UEA)

 Ainda sobre a referida obra, Luís Kandjimbo, um dos mais importantes críticos literários angolanos, escreveu:

Tamoda, simbolizando, o mimetismo cabotino, é uma personagem típica do mundo que através da exibição de maneirismos expõe à hilaridade o uso da língua portuguesa perante uma audiência de jovens e crianças, transformando-se em modelo, no que diz respeito ao emprego e manipulação de vocabulários portugueses... Na qualidade de escritor com um envolvimento directo na actividade política, pois é deputado à Assembleia Nacional, na sua bibliografia destacam – se ‘O Ministro’ e ‘Cultos Especiais” duas obras consagradas à crítica social, ao culto à personalidade e a outros comportamentos dos políticos. (KANDJIMBO apud UEA)

 

O professor Fernando Mourão aponta que Uanhenga Xitu, em Mestre Tamoda,  “põe em evidência o conflito, através de uma linguagem plena de humor, retratando uma situação ao mesmo tempo trágica e cómica” (MOURÃO, 1985, p. 124)

 

Salvato Trigo também tece alguns comentários sobre o renomado escritor:

Em síntese, estamos, portanto, em face de um escritor, que, no dizer avisado de Russell Hamilton, é inequivocamente um dos principais modernizadores da literatura angolana. Sem querermos contrariar minimamente a opinião daquele crítico, talvez nós preferíssemos dizer que U. Xitu é inequivocamente um dos maiores “africanizadores” da literatura angolana [...]. Uanhenga Xitu vai continuar a escrever [...] polifonicamente, como o tem feito até aqui, dando à literatura angolana cada vez mais o sabor da oratura. Só assim o texto viverá, uma vez que se alicerça numa expressão vivificante, qual é a do griotismo literário, que continuará a ser o traço distintivo das literaturas africanas modernas. “Da oratura à literatura” – há-de continuar a ser o trajecto e o objectivo da escrita de Uanhenga Xitu que se recusa ser, literariamente, Agostinho Mendes de Carvalho. (TRIGO apud UEA)

 

Sobre as personagens que recria nas suas obras, é o próprio Uanhenga Xitu quem diz:

As personagens do meu mundo ficcional, a princípio apenas imaginadas, vão-se autocriando, ganham rosto próprio e, mesmo quando lhes dou mais atenção, tornam-se tão autónomas no interior da minha narrativa, e nem sempre o destino que lhes traçara acabará por se cumprir. Nunca soube, antecipadamente, o fim que cada uma teria. O Kahitu, que era tão dócil na redacção das suas cartas, não conseguira convencer... Nunca o tive como modelo acabado. (XITU apud UEA)

 

Referências Bibliográficas:

 

AGOSTINHO NETO, António. ... Ainda o Meu Sonho... Discursos sobre a Cultura Nacional. 2ª.ed. Luanda: UEA, 1980/1985.

____________. Poesia. In: Colecção Kiamba. v. II. Luanda: INALD, 1998.

 

____________. Disponível na www: <URL: http://www.uea-angola.org/artigo>

 

EVERDOSA, Carlos. Roteiro da Literatura Angola. Luanda: Edição da Sociedade Cultural de Angola, 1974, p. 82.

 

KANDJIMBO, Luis. Disponível em: URL <http://www.nexus.ao/kandjimbo>

 

MATA, Inocência. Sob o signo de uma nostalgia projetiva: a poesia angolana nacionalista e a poesia pós-colonial. In: SCRIPTA, v. 10, nº. 19, p. 25-42, 2º sem. Belo Horizonte: CESPUC-MG, 2006.

 

MPLA. A voz igual: Ensaios sobre Agostinho Neto. Luanda: 1996.

 

NETO, Alexandra. Prefácio de A renúncia impossível de AGOSTINHO NETO. In: COLECÇÃO KIANDA, 1998.

Informação Adicional

  • Nascido em: 17/09/1922 – 10/09/1979
  • Naturalidade: Kaxikane, província do Icolo e Bengo, Angola
  • Gênero literário: Poesia

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