Bio Quem

António Francisco Luís do CARMO NETO

“Era a primeira hora dum domingo esplêndido. Num komba, os ouvidos de alguns presentes sentiram o ressoar de uma voz chalada e familiar a berrar. O som fez recuar muitas luas no tempo do antigamente.

Trouxe a imagem de um velho que fumava cachimbo e fazia fumaça esbranquiçada em argolas umas vezes, outras pareciam bolinhas de sabão e quando se abrisse em sorrisos alargados mostrava dentes acastanhados”.

In: Mahézu

Biografia e atuação:

 

Nasceu a 16 de outubro de 1962, em Malanje. Advogado e jornalista, é membro da Ordem dos Advogados de Angola e da União dos Jornalistas Angolanos. Contista de eleição, é membro da União dos Escritores Angolanos, e atualmente o seu secretário-geral.Exerceu a função de director da Revista Militar das Forças Armadas Angolanas,durante os anos 80, tendo sido primeiro por eleição e depois por nomeaçãoÉ membro fundador do Jornal Desportivo Militar.Concluiu o curso de Direito em 1988/89, o que lhe conferiu a possibilidade de exercer advocacia, num escritório próprio. Publicou A Forja (1985), Meu Réu de Colarinho Branco (1988), Mahézu (2000), Joana Maluca (2004) e Degravata (2007).Tem neste momento duas obras por publicar,sendo uma de contos e outra,uma novela. 

Seus contos integram diversas antologias publicadas em Angola e fora do país,estando assim traduzido em inglês,francês,árabe e espanhol.

Percurso Literário: época e geração

 

Romancista, contista e cronista, Carmo Neto pertence à Geração de 80. Segundo o autor, conciliar as atividades da advocacia e do jornalismo, enfim, das funções públicas, não foi uma tarefa simples, mas foi desse encontro que emergiu o escritor, “o ser vivente”. 

o  escritor é um ser vivente, que vive intensamente a vida. Absorve intensamente os factos e só daí consegue a sensibilidade que tem para descrevê-la. A partilha de funções, desde que compatíveis, é fácil. Porque o advogado não está muito distanciado do jornalista. São coisas que se associam completamente.(NETO, in: UEA)

 

Carmo Neto vive intensamente a sua vida de escritor, seja como cronista ou como contista. Ligou-se às Letras de forma definitiva e é isso que o distingue dos outros profissionais liberais. Acredita expiar a sua frustração sobre o teclado do computador. É dessa forma que, segundo ele, surgem igualmente o jornalista e o militar, enfim, o funcionário público. Assim, pretende também chegar à velhice, apenas escrevendo, “como uma obsessão activa ou uma forma de sacerdócio”. 

 

 

Obra Poética: cronologia e publicações

 

  • 1985 – A Forja.
  • 1988 – Meu Réu de Colarinho Branco.
  • 2000 – Mahézu.
  • 2004 – Joana Maluca.
  • 2007 – Degravata.

 

Crítica Literária:

 

Carmo Neto confere um valor enorme à infância – fonte da escrita, do sonho e do desejo de resgate de um mundo fantástico que, como afirma o próprio escritor, “fica impregnado na nossa mente”:

 

Quem lê o que tenho escrito identifica, inclusive, o meu local de nascimento. Em regra, a infância é um mundo fantástico. É aquilo que fica impregnado na nossa mente e no nosso imaginário. E é o nosso primeiro laboratório para todo o nosso universo literário, depois de mais adultos. Porque o mundo verdadeiro é um mundo da perfeição, da justiça, da igualdade, onde tudo se partilha e, diríamos, da ingenuidade, em que tudo é cor-de-rosa. E deixa muitas saudades porque quando começamos a engatinhar, aprendemos a cair, aprendemos a desconfiar quando adultos, o que não aprendemos na infância. A infância existe sempre quando escrevemos porque o escritor, por essência, idealiza um mundo melhor, um mundo de partilha igualitária. (NETO, in: UEA)

 

Carmo Neto teve muito contacto com a língua kimbundu, privilégio possibilitado por sua avó, que também dominava bem o português. Nos horários de serão, era ela quem lhe contava as várias estórias. Sua grande assimilação foi, portanto, via oral, muito embora o pai, nessa época cultor de literatura, não cansasse de incentivar o filho a ler. Foi quando Carmo Neto descobriu, por exemplo, Jorge Macedo. 

 

O escritor teve, desde cedo, muito contacto com a história de seu país. Vivenciou o período colonial, a independência, o multipartidarismo, a guerra civil e, finalmente, a paz. E, acerca desta vasta experiência emocional, diz:

 

Há vários momentos que acho que vão ficar para sempre marcos. Primeiro desde ouvir os contos bonitos da minha avó, de como era o cenário do exercício do sobado pelo meu avô. Por causa da guerra, ele desapareceu em 1971 sem conhecermos o cemitério. Ele foi morto pelos colonialistas em função da sua intervenção política. Eu ainda não era nascido, mas as histórias são marcantes. Também marcou-me a fase de independência, quando vi o meu pai desaparecido. Mas momento de delírio, de ressurreição patriótica, penso que foi o de 1991, 1992, períodos em que os angolanos começam a reconhecer os erros cometidos e, finalmente, em 2002, com o adeus, no sentido bélico propriamente dito. Portanto são três marcos importantes na minha vida, e que são coisas que, às vezes, os leitores, quando tomarem contacto com as obras que tenho em gavetão, vão descobrir isso. Claro que no sentido literário, porque a literatura, embora não seja realidade, há elementos que nos permitem identificar algo que nos tenha feito sonhar mais, ou chorar menos, mas sempre na perspectiva positiva. (NETO, in:UEA)

            

Para Carmo Neto, escrever é uma coisa mais séria do que se imagina. É preciso, segundo ele, “lavrar bem a escrita”, numa atividade de dedicação semelhante à militar, que, por sinal, possibilitou ao escritor, e desde cedo, o contacto com as várias culturas, alimentando-se do amor à pátria e do nacionalismo para viver; na escrita, o sonho de ver a pátria unida e liberta. Carmo Neto entende, pois, a escrita como um processo que vai, aos poucos, definindo o seu estilo próprio. Diz que, no seu caso, esse estilo ainda encontra-se inacabado. 

 

Sou uma pessoa bastante jovem na escrita para definir o meu estilo como acabado. A realização literária é um exercício de liberdade. E esta liberdade é ilimitada nos termos das regras literárias e acredito que ela pode ainda assim escalar outros rumos estilísticos desde que melhores que os anteriores escalados. Porque qualquer artista sonha sempre mais, fazendo o maior uso dos mecanismos artísticos. Usando melhor, por exemplo, as figuras de estilo e também reinventando textos. A corporização da ficção pode ser feita de diferentes formas. Por exemplo, nós ainda não temos um caso de prosa poética propriamente dita. É uma proposta por explorar. Há vários experimentalismos que já vou notando nas pessoas. Há o realismo mágico. Há outros caminhos como o estilo de romance inglês que os outros começam já a explorar, sem nunca menosprezar o valor literário da obra. (NETO, in: UEA)

            

Ao prefaciar a obra Degravata, a mais recente produção literária de Carmo Neto, José Luís Mendonça chama a atenção para:

Uma pena bem aparada para este combate das palavras pelo esmero da frase e obstinadamente molhado no tinteiro de um estilo original em fase de auto construção. O fluir das crónicas ou pequenas estórias decorre através de uma escrita estruturada sobre a base da metáfora arrojada, a rica adjectivação, a obliteração do predicado e a transposição da linguagem popular. Confere cor local a estas crónicas a feliz, nacional e adequada inserção de nomes da terra, alguns caricatos, outros eruditos, outros ainda tradicionais, casos das personagens mil ideais, Kota Ismo, família Quiquêrra, Matemático, Verniz, Kangoto, Portanto, Quisa, Espalha Brasa, Bofetada, Utópico, e Ximinha. [...] Tudo isto para dizer que, no caso de Carmo Neto, ele  sempre foi e é um dos que aceita a crítica com humildade e procura saber qual o trabalho de depuração que encerra o produto literário final. (MENDONÇA in: CARMO NETO, 2007, prefácio).

 

Referências Bibliográficas:

 

MENDONÇA, José Luís. Prefácio. In: Degravata. Luanda: UEA, 2007.

 

NETO, Carmo. Entrevista concedida a Agnaldo Cristóvão. Disponível em URL http://www.uea-angola.org/destaque_entrevistas1.cfm?ID=732

 

________. BioQuem. Disponível na www: <URL: http://www.uea-angola.org/bioquem.cfm?ID=112

Informação Adicional

  • Nascido em: 16/10/1962
  • Naturalidade: Malanje, Angola
  • Gênero literário: Prosa

Contacto

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