Bio Quem

Antonio Cardoso

António Dias Cardoso nasceu em Luanda a 8 de Abril de 1933/2006, fazendo nessa cidade os seus estudos até ao 5º ano. Foi empregado bancário e comercial, trabalhou na Secretaria da Associação dos Naturais de Angola-ANANGOLA, em 1961.

Esteve preso por duas vezes em 1959 e em 1961, sendo libertado em 1974. Foi presidente do Directório do Movimento Democrático de Angola-MDA em 1974, integrando-se em 1975 no MPLA, onde teve intensa actividade política. Depois de ter saído da cadeia, exerceu a actividade de jornalista da imprensa escrita, chefiou os Serviços de Informação da ex-Emissora Oficial de Angola. Dirigiu a página literária intitulada «Resistência» do extinto Diário de Luanda e trabalhou na extinta Secretaria de Estado da Cultura. Sempre participou em actividades políticas, culturais e sociais. Antes da sua morte, em 2006, 26 de Julho, encontrava-se a viver em Portugal por razões de saúde.

Exílio

Eu vivo na minha terra

Mas estou exilado.

Quem vive nela não sou eu

Mas outro que em mim vive.

A minha terra está por vir

E o meu outro ser vive, vive...

...vive à espera desse porvir

in Poemas de Circunstância (2003)

Teve a sua estreia literária no boletim dos estudantes do liceu Salvador Correia (hoje Mutu Ya Kevela), além de ter colaborado em diversas outras revistas. Tem trabalhos seus publicados em várias revistas de Angola, Brasil, Argentina, Portugal, Moçambique, nomeadamente, em Angola na revista Mensagem e Cultura II no Jornal de Angola. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos e exerceu as funções de Secretário Geral.

"...Sô'bílio era dono de muitas cubatas, quase todas a cair mesmo, umas de adobe e zinco, rebocadas, caiadas, outras, só pau-a-pique e capim, chovia em todas, no entanto, tinha no peito dele uma pedra... Da nossa cor mesmo, nunca que perdoava... Usava sempre fato escuro, chapéu, bengala, falava parecia padre, muito doce, mas ninguém lhe convencia... Assim rico, habitava uma casa podre: seu orgulho mesmo, era aquele filho que estava em Lisboa no estudo, quase engenheiro mesmo... Volta meia volta. Se desculpava: não posso mana, um filho gasta muito dinheiro, livros, comida, você julga Lisboa é Luanda..." Extracto do conto "Lavadeira da Baixa", In: António Cardoso, do livro Baixa & Musseques, União dos Escritores Angolanos, 1980, 1ª ed.

As suas obras editadas são: São Paulo, poema, Caderno Colectivo da Colecção Imbondeiro, Sá da Bandeira (actual Lubango), 1960, Poemas de Circunstância (1961), Caderno da Casa dos Estudantes do Império (CEI), Lisboa, Panfleto (1979), 21 Poemas da Cadeia (1979), Economia Política (Poética), (1979), A Fortuna-Novela de amor, INALD 1979, Baixa & Muceques, UEA, 1980, A Casa de Mãezinha-Cinco Histórias Incompletas de Mulheres, (novela) INALD, 1980, Lição de Coisas (poesia), INALD, 1980, Nunca é Velha a Esperança,(poesia) INALD, 1980, Chão de Exílio (1980) e Poemas de Circunstâncias, (poemas de 1949-1960), Editorial Nzila, Luanda, 2003.

O poeta Mário António fez o seguinte comentário sobre os poemas de António Cardoso dizendo que os poemas: "continuam a inspiração revelada em Mensagem, nº 2. Poesia inquieta, perscrutadora dos dramas do mundo, sempre dolorosa do grand écart entre o sonho e a vida, mas que revela, em dez anos de existência, uma quase incapacidade de realizar o auto-domínio, a atenção crítica, a construção literária sem os quais os poetas não podem fazer poemas. Constitui esta poesia, contudo, um testemunho de determinada posição do homem em África e isso lhe confere um valor além de literário", In: Mário António Fernandes de Oliveira. Reler África. Apresentação, revisão e nota bibliográfica de Heitor Gomes Teixeira. Coimbra, Instituto de Antropologia/Universidade de Coimbra, 1990, p.187.

Há Momentos

Há momentos na vida de um Homem

Em que sabe que acordou diferente

E que já não é o mesmo para ele,

Mesmo que o seja para toda a gente...

Há momentos na vida de um Homem

Onde só pode entrar uma Mulher

Aquela que lhe trouxer

A flor do sexo

Desenhada a vermelho no ventre

E nada lhe perguntar...

Há momentos na vida de um Homem

Onde só pode entrar uma mulher

Aquela que lhe trouxer,

Num abraço total,

A ilusão da vida inteira...

E, depois, partir

Com a esperança de vida que ele semeou...

Há momentos na vida de um Homem

Onde só pode entrar uma Mulher

Para todo o Mundo se resumir

À flor vermelha

Como um bocado de sol

Que desponta numa telha!

21-2-55

"A paixão e agudeza com que António Cardoso trata, por outro lado, suas personagens femininas - predominantes na ficção - reflectem a opção sensível pelos segredos das relações humanas, independente do período e do maniqueísmo colonizador-colonizado. Como tema coerente da obra poética ou da prosa aflora sempre a luta do amor para vencer o ódio. Ou, como ele próprio diz, mete-se com as pessoas (personagens) para ver se as mete em um lugar onde fiquem melhores." In: Auto-retrato, in C.A. Medina. Sonha Mamã África, p.260, citado por Aldónio Gomes, Fernanda Cavacas. Dicionário de Autores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Lisboa, Editorial Caminho, 1997, p.50.

É Inútil Chorar

É inútil chorar:

«Se choramos aceitamos. É preciso não aceitar.»

Por todos os que tombam pela verdade

Ou que julgam tombar.

O importante neles é já sentir a vontade

De lutar por ela,

Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas

Dessem pão,

Já não haveria fome.

Ao menos se o desespero vazio

Das nossas vidas

Desse campos de trigo.

Mas o que importa

É não chorar:

«Se choramos aceitamos. É preciso não aceitar.»

Mesmo quando já não se sinta calor

É bom pensar que há fogueiras

E que a dor também ilumina.

Que cada um de nós

Lance a lenha que tiver,

Mas que não chore

Embora tenha frio:

«Se choramos aceitamos. É preciso não aceitar.»

21-2-55

O jornalista Mário Dionísio, também ensaísta, nas linhas que assina sobre os poemas do último livro intitulado «Poemas de Circunstâncias», escreve que os poemas de AC são "deveres de palavras difíceis, tal qual as que levámos como trabalho de casa nos tempos de escola. E dou comigo a interrogar-me sobre o que é que quer dizer?, onde quer chegar?, da razão de tanto enigma. AC não complica o que de singelo tem a poesia: pão é pão, amor é festa, ou dor, aí está, claramente dito. Sem artifícios outros que não os da escrita e inevitável sensibilidade, chão onde levanta a sua casa de poemas. Homem de esquerda que se lhe vê no texto, sem vergonha de o ser; AC é um rebelde. Inconformado com o statu quo, como com a resignada comodidade a que se remeteram muitos dos seus companheiros de percurso, AC não é dos que lançam agora na conta de um já distante entusiasmo juvenil os sonhos revolucionários de uma nova estética, social pela política, pessoal pela poética. E mais adianta que "Cardoso segue vivendo uma visão romântica do mundo com aqueles que partilham a utopia. E contudo marcando ponto. Com 70 anos na pele, a sua poesia é saborosamente caligráfica e sorte de clássico tinteiro onde ainda podemos mergulhar o aparo da sensibilidade, meio séc. passado sem risco de borrar a escrita com o frenetismo rebuscado que faz moda, ou mesmo escola. Onde triunfa uma exibição desenfreada de oca intelectualidade. Em Ac encontramos o sossego bendito das coisas apetecidas" e já no fim do seu texto conclui que "é sua arte desvendar a poesia onde outros não a suspeitam"

Informação Adicional

  • Nascido em: 1933-04-08
  • Naturalidade: Luanda
  • Gênero literário: Poesia

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

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