Bio Quem

Raul David

“Felizes os que souberam

conservar as suas tradições

deixadas pelos ancestrais.

Felizes os que se não iludiram

Com o pregão insidioso

Dos que se diziam portadores

Da mais humana civilização.

A realidade provou-nos dolorosamente

Excerto de um poema, In “Crónicas de ontem para ouvir e contar”

Rau David nasceu em 1918, na Ganda, província de Benguela. Depois de estudar na escola primária da vila, prosegui os estudos no seminário menor do Galangue, de onde saiu habilitado com o grau escolar do 6ºano, em 1938. Exerceu, profissionalmente, vários cargos na administração civil no Bocoio e Luanda. Trabalhou na Companhia do Caminho de Ferro de Benguela (CFB) e no Comércio.

Nas vésperas da independência nacional, em 1974, publicou a sua primeira obra literária “Colonizados e colonizadores”, que vai agora na sua 3ªedição. Seguiram-se os títulos: “Poemas”(1977), “Narrativas ao acaso”(1981), “Cantares do nosso povo”(1987), “Contos tradicionais da nossa terra- I”(1979), “Brado patriótico”, “Crónicas de ontem para ouvir e contar”, “Contra lei e pela grei”(1988), “Do julgamento tradicional dos umbundus”,(1997) “Benguela no tempo e no espaço”(no prelo), agraciado com o prémio Menção Honrosa pelo Instituto Camões, e “História da velha coruja”.

Nos finais dos anos 80, foi adido cultural da Embaixada de Angola na Zâmbia. Actualmente, reside em Benguela, onde exerce as funções de assessor da Direcção provincial da Cultura e na TPA/provincial.

“(...)Certa manhã, às seis horas aproximadamente, com o cacimbo a cobrir palmares na planura extensa e margens do rio Catumbela, pela “porta do cavalo”, e dirigindo-se à sanzala do Namano. Já na rua mandaram-no parar três brancos dentre os quais este “Catoto”. Arvorado em chefe de fila, foi ele quem deu uns abanões fortes no pobre homem que já de si tremebundo, ficou sem fala. Tirou-lhe das mãos o embrulho que continha um prato de ferro esmaltado, uma enxada de bico, duas caixas de fósforos, um punhado de sal envolvido num pequeno embrulho que Catoto deitou ao chão aos pontapés e um cobertor barato. Os três fiscais ad-hoc e voluntários grevistas que assim podem ser designados, sujeitaram o homem a perguntas para saberem quem lhe vendera os artigos agora apreendidos e, depois de informados esbofetearam-no não sendo preciso darem-lhe mais do que pôde aproveitar a primeira aberta para dar às pernas, morro acima, até se perder de vista. Em poucos instantes Catoto arranjou, não se sabe onde, um martelo e pregou á parede dum muro, com frente para a via pública, a manta, o preto e a enxada. Em letras garrafais, bem visíveis, pôs esta inscrição na manta: “TRAIDORES”

In “colonizados e colonizadores”

Na contra-capa da 3ª edição de “Colonizados e colonizadores” pode ler-se:

“ O autor (Raul David) na condição de antigo colonizado, é testemunha de um passado ainda recente, sofreu com outros o peso dos deserdados sociais, assistiu ao jogo desleal dos fortes contra os fracos; sentiu a marginalização na sua própria terra perante o fosso intransponível entre o oprimido e o opressor. Os textos deste livro - refere ainda a nota- espelham imagens dos que souberam resistir a um regime indesejável mas dominante. As figuras de Karitoko, Catanha, Chitata, Natchingolo e tantas outras, embora apresentadas com singeleza, não deixam de revelar aspectos da dureza colonial no país promissor que alcançou a Independência Nacional em 11 de Novembro de 1975.”

Na mesma esteira das auto apresentações, na contra-capa de “Cantares do nosso povo”, o escritor explica que o seu estilo: “tal como o título indica, é a expressão do sentir popular. Logo, procurou-se reproduzir, dentro do possível, o sentido expressado por cada personagem em caso concreto, isentando-nos da preocupação de apuramento estético-literário, porque seria retirar aos autores anónimos o sabor da originalidade.”

A mesma nota, sobre os problemas da grafia, destaca ainda que “No versejar em Língua Nacional Umbundu utilizou-se sempre que possível, a nova grafia oficial. Impossibilidades de ordem tipográfica (falta de sinais adequados) obrigaram-nos, nalguns casos, a recorrer á grafia que anteriormente se utilizava.”

A respeito das “Crónicas de Ontem para ouvir e contar” testemunha o ancião: “são episódios vividos durante uma longa vivência e convivência com seres de diversos padrões sociais. Vividos uns e escutados outros, foram transladados para escrito a modo de contos. Dos leitores que tiverem oportunidade de os ler, muitos foram espectadores dalguns quadros aqui apresentados. Para estes, será relembrança de um passado. Para os novos, será a reposição de imagens que não conheceram mas que se lhes expõe para conhecimento dos trilhos, bons e maus, agradáveis, que as gerações que os antecederam atravessaram.”

“Nos primeiros amores a moça vive com intensidade o afecto que lhe é demonstrado pelo namorado. Através de cantigas, manifesta às amigas o seu contentamento por ser correspondida. Quando desfeiteada, a sua dor é expressa num cantar doido ao ver-se alvo de piadas das outras que se divertem com a sua infelicidade.”

Excerto do conto Trovas de namorado, In “Cantares do nosso povo”

Sobre a sua trajectória artística escreve o poeta e crítico literário David Mestre: “Raul David passou uma vida de arrabalde e terra pequena, bateu mundos e fundos por esta Angola fora, galgou barrancos de coragem e salvou o manuscrito na memória: ele aqui está em “Crónicas de Ontem Para Ouvir e Contar” com a camisa lavada de pretensões. Para trás ficam anos de muita maré pela proa, nadador de longo curso e largo recurso, com fôlego para mangas”.

David Mestre sublinha que: “Assimilado cássico, transmigrante de culturas, lusófono sem desprimor das referências umbundu pela sínteses das interpretações, dá neste novo livro continuidade ao projecto da sua prosa desde “Colonizados e colonizadores”. O crítico observa que “(tio) Raul expõe como quem anda, pára para um detalhe e volta a caminhar de braço dado com o leitor. Seu propósito corre entre a narrativa e os factos: a emenda moral deixa não raro aos juizes, conforme a hora e o local onde se encontrem. Essa característica - insiste o poeta na pele de crítico - se assim lhe podemos chamar, de andar e ver para relatar depois, antiga como os velhos impérios do continente, atravessa o texto numa oratória diagonal determinada pelo vulto da acultura, em que se confrontam e experimentam impulsos de vária e diversa ordem num retrato sem retoque, de nitidez irregular à vista desarmada, que instala o autor – sem que talvez tenha sido essa a sua intenção inicial - como pioneiro de um género que, sendo de grande relevo hoje em dia, não encontrou ainda, entre nós, estatura própria: o testemunho..”

Ainda a propósito de “Crónicas de Ontem...” refere o poeta e crítico literário: “Aqui está o que se oferece dizer do presente livro deste escritor de luminosa crina branca e gesto afável, que comeu o pão que o diabo amassou como recorda doutras personagens que por certo muito terão de autobiográficas, nesse vendaval de patifes e troca tintas que o colonialismo arrastava na sua inércia”, reforçando que “Raul David arreda as cortinas do tempo e revela-nos(a espátula) o percurso”

Por seu turno, o jurista, poeta e crítico literário E. Bonavena sustenta que o conjunto das suas obras são “testemunhos de um tempo que se fez e desfaz de tempos maiores e menores, de vida curtas a alongar o estar e ser angolano na existência, mundividência dum colonialismo brutal e incapaz de se resignar.”

Informação Adicional

  • Nascido em: 1918-04-23
  • Naturalidade: Ganda (Benguela)
  • Gênero literário: Prosa

Contacto

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