Bio Quem

António de Assis Júnior

“Estava longe de suspeitar que viria um dia a figurar na tal fita da sonhada conspiração, e passaria privações sem conta, que jamais esquecerei: Em 2 de Agosto, quinta-feira, passava pela estação da Funda, de que eu era o chefe, um comboio ordinário, levando uma carruagem de 3ª classe com presos. Por uns zunzuns, sabia já que os brancos de Dala - Tando e Lucala queriam comer carne de preto... Como estava determinado, nela entrei sem oposição das sentinelas, para efectuar a revisão que havia feito em todas as outras. Já dentro dela fui pelos soldados, perfeitos selvagens que jamais vi iguais, violentamente agredido (e o comboio em marcha), descalçado, rasgada a roupa e o boné do uniforme e imediatamente amarrado. E isto feito em menos tempo que o necessário para o contar. O condutor, porém, após 3 quilómetros de percurso da estação, fez parar o comboio e ali aparecera a declinar a minha identidade, sendo então desamarrado e solto; mas muito maltratado e contuso. (...) No noite do dia 5- domingo-, estando de serviço na estação do Bundo, apareceram 2 sargentos - um dos quis reconheci ser o Felizardo- que confidencialmente falaram ao chefe Armendia, que, depois, me impediu que os acompanhasse à polícia. Estranhei o facto, mas eles procuraram sossegar-me: -Não tenha receio; é apenas para prestar declarações sobre a sua agressão na Funda. Como os presos que assistiram ao caso vão ser deportados esta noite, não poderão depois testemunhá-lo. O interesse, pois, é seu... -Decidi-me a ir, pois se eu nada havia feito... Chegado à polícia fui, logo recolhido na prisão n.º 4 - segredo - ; dois dias depois fui presente ao comandante e aí relatei o caso, sendo recolhido de novo à prisão. Uma semana depois fui presente ao administrador, Viana Frazão, e acompanhado por este, por dois sargentos (Carvalho e Gonçalves), escrivão Freitas e 2 polícias, fomos todos à minha casa, onde procederam a uma busca e apreensão de toda a minha correspondência e algum dinheiro que encontraram na mala - uma parte do qual me foi entregue na polícia mediante recibo. A correspondência e parte do dinheiro até hoje não sei deles.”

In “Relato dos acontecimentos de Dalatando e Lucala”

António de Assis Júnior, de seu nome completo, nasceu em 1887, na vila do Golungo Alto, província do Kwanza Norte. Publicou a novela “Relato dos acontecimentos de Ndalatando e Lucala” e "Segredo da morta" (1935), para além de um dicionário de kimbundu português, na senda do exemplo do filólogo Cordeiro de Mata. Como advogado destacou-se na defesa intransigente dos direitos dos camponeses espoliados das suas terras pelos colonos. Nacionalista assumido e convicto foi co - fundador da Liga Nacional Africana. Devido a sua forte postura cívica a favor dos nativos, foi desterrado para Lisboa, onde viria a falecer em 1961, amargurado, fora da terra - mãe que muito amava.

O professor Manuel Ferreira enfatizava: “Vão ser necessárias algumas décadas, tal como na poesia, para reencontrarmos o veio da ficção angolana iniciada no século XIX. E deve-se a Assis Júnior(...) o primeiro texto ficcional do século XX. Com efeito, O segredo da morta se não desfruta do apuramento literário de um Alfredo Trony, cuida pelo menos de abandonar a visão colonialista, furtando-se à influência poderosa do romance colonial da época, com propostas de criação de personagens e ambientes propiciadores da atmosfera literária representativa das condições sociais angolanas.”

O prof. Manuel Ferreira sublinha ainda que “ O papel factual que o colono desempenha ainda se percute, mas como parente pobre na economia da narrativa, vários são os narradores que ao longo do texto vão tecendo uma espessa e às vezes extremamente enriquecida intriga cheia de acontecimentos em que o lastro africano, em todos os aspectos, dá à narrativa uma especificidade própria, já que a carga da oratura e o universo mítico ejecta na ficção muito da força textual de O segredo da morta”, observando que “Curioso testemunho da sociedade angolana na transição do século XIX para o XX, a lenta criatividade linguística cresce aqui com a utilização de diálogos e certas expressões em quimbundu, larga e intermitentemente distribuídos, no discurso do narrador, ou antes dos narradores.”

O professor norte-americano Russel Hamilton ressalta que “cabia, porém, a António Assis Júnior, outro filho da terra, levar à consciência política e cultural, entre assimilados e mestiços, a novas alturas. Um dos fundadores da Liga Africana, advogado e jornalista, Assis Júnior, sem denunciar por completo o seu patriotismo lusitano, desempenhava um papel activo e importante a favor de reformas sociais, económicas e políticas, durante o governo de Norton de Matos. Tal como José de Fontes Pereira fizera num período anterior, Assis Júnior levantou a sua voz em protesto contra o trabalho forçado e outros abusos perpetrados pela administração colonial.”

Russel Hamilton destaca que “Assis Júnior era “purista” e a sua denúncia dum crioulo de base portuguesa em Angola tem implicações importantes com respeito à questão linguística na Angola independente(...) O que interessa salientar, quanto às equivalências linguísticas e culturais, é que Assis Júnior , ao rejeitar o crioulismo, revelava-se como cronista suma sociedade crioulizada.”

Referindo-se a “O segredo da morta”, o professor Hamilton sublinha que “é um romance curioso por causa do seu hibridismo, que mistura o estilo narrativo de um Victor Hugo ou Anatole France com adágios e provérbios do kimbundu, e que justapõe uma história melodramática a um compêndio de costumes em que prevalecem as tradições africanas e crioulas da região de Luanda, Sengue e Dondo. O título e o subtítulo do romance, assim como o enredo e a apresentação de usos e costumes, parecem nada ter a ver um com o outro.”

O crítico norte-americano reforça que “Ao tentar efectuar uma dualidade cultural e manter a integridade das equivalências - com toda uma série de ambivalências relacionadas com o “primitivismo do nativo tribal” e as normas positivistas da “civilização” - , Assis Júnior produziu uma verdadeira miscelânea literária cuja falta de organização espelha a confusão ideológica do intelectual “assimilado”, observando que “tanto Assis Júnior como Cordeiro da Mata tinham pelo menos a certeza de que eram angolanos e não portugueses pretos. Aliás, Assis Júnior foi um dos primeiros intelectuais “assimilados” a formular um conceito angolana.(....) Um dos primeiros a levar a reivindicação cultural ao nível da contestação política. E ao longo das décadas desde o aparecimento da chamada Geração de 1880, esta ideia de reivindicação ganharia ímpeto e expressão numa literatura aculturada.”

Por sua vez, a professora universitária brasileira Rita Chaves no seu estudo sobre “A formação do romance angolano” informa que esse género foi "iniciada nos domínios da actividade jornalística, a palavra literária foi aos poucos ganhando sua autonomia (...) no terreno da ficção, o grande marco se dá em 1935, quando António Assis Júnior consegue publicar “O segredo da morta” (Romance de costumes angolenses), escrito 20 anos antes. Apesar de todo o empenho da geração do final do século XIX, é nesse texto que se pode verificar a presença de uma atmosfera de facto angolana, que, mesmo insuficiente para que se exorcizem os valores portugueses, permite que a obra seja vista como o ponto inaugural da trajectória do romance em Angola.”

Continua: "A narrativa de Assis Jr., seguindo as trilhas da novela de Alfredo Trony, publicada em forma de folhetim no final do século XIX, aprofunda o olhar da literatura naquilo que já se define como o universo angolano: um mundo de relações marcado pela mistura, pelo contacto, às vezes conflitante, outras vezes pacífico, entre duas culturas inicialmente assentadas em diferentes maneiras de estar, em diferentes cosmovisões. No conjunto dos "costumes angolenses", de que o autor nos traça um rico painel, pode-se perceber a força de uma dinâmica que, mobilizada pela contradição, não deixa de propor aproximações e sugerir sínteses".

Rita Chaves sublinha que “A narrativa de Assis Jr., de facto, pode ser examinada como um resultado desse processo em que se entrecruzam os valores introduzidos pela modernização e aqueles enraizados num outro sistema de vida fadado a sofrer os efeitos da transformação, àquela altura inevitável. Tanto do ponto de vista dos episódios que enfoca quanto de sua constituição como um texto literário, “O segredo da morta”(romance de costumes angolenses) incorpora marcas desse momento em que o desenvolvimento sócio - económico provoca fortes mudanças culturais, mexendo no quotidiano daquelas populações fixadas em torno de Luanda e das localidades próximas, situadas nas actuais províncias de Icolo e Bengo, Malanje e Kwanza Norte.”

Sobre o ponto nuclear do enredo, Rita Chaves, professora de literatura africana, diz que "o fulcro está no tal segredo que a morta guardava, no desenrolar das acções vão se tecendo as redes que levam a compreender as bases de sustentação daquele mundo em que as mudanças estão ocorrendo de modo acelerado e irreversível. Articulando o jogo das acções - no qual se verifica a participação de um número assinalável de personagens com as minuciosas descrições da ambiência, o texto beneficia-se fortemente dos recursos do género ao combinar o timbre da historicidade com a fábula imaginativa de que a literatura se alimenta.", e em relação aos elementos telúricos presentes, Rita Chaves diz que "o aspecto documental se faz presente possibilitando um maior conhecimento da realidade sócio - histórica, fato relevante quando inexistiam estudos dessa natureza no território".

Informação Adicional

  • Nascido em: 1889
  • Naturalidade: Golungo Alto, Kwanza Norte
  • Gênero literário: Romancista

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