Bio Quem

Samuel de Sousa

Escrevo este poema com grãos de sol de sexo de milho

Incendiando os teus seios submersos nas searas

choveu

e nas folhas das bananeiras

onde os lagartos piscam os olhos para as mulheres infecundas

escrevem nos corpos das virgens

Choveu

e no painel os elefantes

Farejam os homens

triturados pelas estrelas do mar

II

mudemos as horas dos relógios

espetados nas margens dos sons

nas tuas mãos as minhocas

com os olhos de uanga dos deuses que sem o diamba

põem o sémen mongandu

repetindo em voz de barro

sangi katotuele bu azala

utotola makolombolo

Excerto do “Poema do amanhecer depois da chuva”, In antologia “Poesia de Angola”, organizada pelo MEC em 1976

Alberto Samuel de Sousa, de seu nome completo, nasceu a 27 de Abril de 1927, no Ambriz, actual província do Bengo.

Segundo o seu próprio testemunho, “logo que nasci fui levado com um colar de ervas, para a praia, próximo do farol, onde há uma construção que cobre uma nascente de água doce e depois seguiu para uma mole de pedras de Mariana, a uns 500 metros a Sul da nascente; grandes pedras que não se sabe como ali caíram e mais adiante, outras na Cacimba da Nação”.

O escritor testemunha ainda que o topónimo Mariana, no caso vertente, “é a aglutinação de Matadi Ma rya Na, que significa pedras da Mãe grande, pedras da progenitora”.

O poeta viveu durante algum tempo no Bembe, Lukunga, Nambuangongo, Mavoyo(Kibokolo, Makela do Zombo), Lukala e Malanje (andou por todo o território da província de Malanje), onde se fixou aos 18 anos, e aí dirigiu vários círculos de animação cultural de orientação nacionalista. Em Malanje esteve em Pungu Ya Ndongo, nas quedas de Kalandula, nas quedas dos Bem Casados, no Kwanza, nos Mbângalas, Kassanje, na área dos Songos. Na cidade de Malanje - testemunha ainda o poeta do sol - em todos os bairros a sua popularidade levou-o a ser chamado o Samuel, o famoso.”

Na sua peregrinação pelo país viveu, igualmente, no Huimbi, Kibala, Huambo, Benguela e Luanda. Tem estudos sobre a província de Malange nas mais variadas vertentes do conhecimento, desde os seus aspectos económicos, geográficos, administrativo, histórico, incluindo a colonização e do domínio cultural. Foi durante mais de dez anos delegado provincial do Ministério da Cultura em Malanje.

Publicou um livro intitulado “Poemas - 1972”, na colecção “Lavra & oficina” da União dos Escritores Angolanos (UEA). Os seus poemas constam da antologia “Poesia de Angola”, em 1976, elaborada por especialistas do Ministério da Educação e Cultura para fins didácticos. Tem colaboração literária em vários jornais, designadamente, “Ecos do Norte”, “Jornal de Angola”, “Angolense”, “A província de Angola” e “Cultura”. É membro fundador da UEA.

A propósito da sua produção literária lê-se na orelha da contra-capa do seu livro “Poesia - 1972”: “Estes poemas de uma força contida, prestes a explodir. Poemas de um tempo(1972) de boca cerrada. Não só para a eficácia da luta clandestina urbana ou de guerrilha da mata. Em poesia também, boca cerrada. Para que as imagens, os vocábulos se encham dessa terrível energia do tempo da violência: a legítima violência dos signos e símbolos da nossa cultura rasgando o tecido apodrecido de uma linguagem prostituída pelo uso colonial-fascista.”

pela primeira vez senhor

a manhã é outra vez tu perdem-se as pedras das estátuas

infiguradas nos mahamba

calmamente aproveitamos o momento

os sinais do nosso tempo

nas carnes de desejo

música sorte de quissanje

O ensaísta e crítico literário Luís Kandjimbo sustenta em “Apologia de Kalitangi”(1998) tratar-se de “um poeta bissexto: feito de alguma poesia, efémeras experiências literárias(...) o poeta apresenta a dicção condensada num discurso lírico que se sustenta na frequência da elipse, da aliteração e da anáfora com as conexões intermitentes da metáfora, associados a um simbolismo assente na evocação do sol, do sexo e da mulher. Nessa linguagem esquiva, a mulher é representada por vocábulos como sexo e corpo, que numa alusão metafórica colacionam a fertilidade da terra enquanto pátria em cuja órbita desfila uma memória colectiva e uma paisagem natural aonde os quadros que os poemas proporcionam parecem desenhar-se a partir daí. O sol assume a função genésica e doadora da vida”.

Luís Kandjimbo acrescenta ainda que “Samuel de Sousa, poeta que tem suscitado pouca atenção da crítica, situa-se seguramente naquela falange de poetas angolanos cuja parca produção textual não merece a tirania do silêncio que sobre ele se abate, numa deliberada recusa que sagra a debilidade estética e literária do seu discurso. É com efeito um poeta de recursos peculiares, satisfazendo-se em última análise com a perquirição de um equilíbrio que a historicidade postula.”

Por sua vez, o ensaísta e crítico literário Jimmy Rufino recorda que “No transcurso da luta e do sonho pela liberdade do povo, uma epopeia de emoções pariu uma plêiade de intelectuais, que virtuosamente encarnando os mais efectivos anseios da vida e do homem, mediatizaram o contagiante cântico da senda libertária. E, nessa marcha patriótica, através da sua pena poética, Samuel de Sousa inscreveu o seu nome”.

Jimmy Rufino sublinha que “O poeta Samuel de Sousa (...)descreve o percurso litúrgico de um homem desde muito jovem, activamente comprometido com o desígnio patriótico nacional. A testemunhá-lo eis a sua poesia grávida de tensão, multifacetando-se imagens coloridas, tórridas, luminosas e apologistas do futuro. Uma poética que se descobre prenhe de silêncios verbais que ninguém entende, mesmo sunguilando na copa dos rios em revoltadas calemas patrióticas. Nas nascentes metafóricas dos cacimbos fluídos da luta que se romantiza e se infesta de luz grandiosa.” O ensaísta e crítico literário acrescenta também que “É essa paisagem púbere e ausente, que a contida e apaixonada poesia de S. de Sousa – prestes a explodir, fecunda, na desencontrada ausência dos heróis e dos órgãos, acorrentados, sem brinquedos adolescentes nem velhas fotografias, apavoradas com a pluralidade temerária das sombras madrugadoras, desde 1972 adubadas em sexos imaginários, cujos relógios de geografia perfuram as malhas do amor anunciado por lancinantes gritos de dor, no genocídio – de homens encarcerados.”

Finalmente, Jimmy Rufino frisa que “Poesia - 1972” revela-se um profícuo areal poético tatuado por lancinantes e vibrantes estilhaços de dores, refugiando-se nas queimadas de árvores violentadas – enquanto amores em fuga com flores murcham, cristalizam-se no cantar do galo que corpos freneticamente entrelaçados durante a alvorada do amor- sorriem na secreta madrugada da sanzala que se faz sol, filho e sol, profeta, sob apóstolo de um destino, que é pai e mãe, dia e noite, pão e água(...) Tornar os seus sonhos mais sagrados uma realidade acabada. Essa é a preocupação fundamental da poesia de Samuel de Sousa, que constitui uma minúscula semente na vitória dos combatentes pela liberdade.”

Informação Adicional

  • Naturalidade: Ambriz
  • Gênero literário: Poesia

Contacto

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