Bio Quem

Cristóvão Neto

Às vezes
um homem senta-se no chão
braços cruzados sobre a encruzilhada do destino
a terra ensopada de lágrimas a lamber-lhe a esperança.

Às vezes
atira-se à loucura carnavalesca da cidade
escamoteando um que outro incauto viandante
na vã e derradeira tentativa de escapar
ao abraço antropofágico da escada do suicídio.

Às vezes
lamenta em pranto
porque não há pão para o filho
este botão de rosa que quer desabrochar
na madrugada vazia que cruelmente se avizinha.

Às vezes
chora desesperadamente
ignorando a fatalidade do seu botão de rosa
que tão logo murchou
a alegre brisa levou.

Excerto do poema A escada do Suicídio, in Sinos D'alma.

Cristóvão Neto nasceu a 30 de Dezembro de 1964, em Malanje (Angola). Licenciou-se em Engenharia na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Escreve desde tenra idade. Em Angola, ainda bastante jovem, publicou alguns textos através das revistas Terceiro Mundo e Ngangula. Na ex-URSS, colaborou activamente nos trabalhos editados pelo núcleo local da Brigada Jovem de Literatura de Angola. Traduziu e publicou em russo vários poemas seus na imprensa da cidade de Minsk. Tem cinco livros de poesia publicados: Sinos D'Alma (menção honrosa do Prémio Sonangol de Literatura/1994), Pausa (menção honrosa do Prémio Sonangol de Literatura/1998), Anoiteço (2005), Catarse (2005) e Delirium, Marcha Lenta...(2005). Um outro volume de poemas foi agraciado com a Menção Honrosa do Prémio Cidade de Luanda/1997,mas até agora não foi publicado. Está representado em várias antologias nacionais e estrangeiras. Tem colaboração dispersa em vários jornais e revistas. Nos últimos anos tem também se dedicado à crítica literária. É membro da União dos Escritores Angolanos (U.E.A).

O poeta e ensaísta, Conceição Cristóvão, seu irmão, no prefácio do seu livro de estreia, escreve o seguinte: " (...) é [o autor], para nossa grande alegria, um "teimoso" operário da palavra (...) o livro que é objecto das nossas reflexões, longe de constituir o corolário do seu esforço e escrita permanentes, é antes o doloroso início de uma longa caminhada no terreno movediço, que é a literatura, e é, outrossim, o sinal primeiro dum sério compromisso com o leitor".

A propósito do seu segundo livro de poemas, o poeta e crítico literário Lopito Feijoó escreve: " (...) que dizer-vos desta Pausa de cerca de 50 textos em 5 anos, constituindo sobriamente um único momento de poesia, cuja apresentação é feita em três? A saber: Palavras Sem Sol. Poemas Quase de Amor. E (Entre Parêntesis).

Lopito Feijoó acrescenta: "trata-se de um livro cujo cerne poético residirá em Palavras Sem Sol através das quais exprime o autor todo o desencanto do (in)vulgar cidadão que no universo dos seus devaneios simplesmente cruza com a liberdade no âmbito da expressão poética, não fosse a vontade de querer viver só para a poesia. E é certamente o aparente, mas só aparente pessimismo de quem cultivando-a quer ser só ela mesmo. A poesia."

Minha pequenina
Aqui tens o meu poema
Uma saudade eterna
Um fardo que carrego ao ermo
Nos braços do desassossego!

Minha pequenina
Aqui tens o meu poema
Um cartão a dizer adeus
Uma centelha de mim nos céus
Para levares ao teu retiro
Para matares assim a saudade
- há mesmo saudades lá no céu?

Excerto do poema Nunca mais esqueci!, in Pausa.

O crítico literário sublinha que o livro contém "uma série de proféticas equações que só Cristóvão Neto poderá solucionar pela prática da sua perspectiva filosofal, acentuadamente metafísica, onde o espírito se sobrepõe à matéria como em toda a grande poética, enquanto acto de libertação."

Na miséria medram lágrimas
Lâminas alvas recolhem-nas
À convulsão da blasfémia
Só o meu corpo mia!
Na riqueza a fé fede à farsa?
- Pode a fé ser falsa? –
A aura dos seus odores
Morre-me no corpo de dores!

Excerto do poema Congruência, in Pausa.

O crítico faz referência que " Se, por um lado, é notório e até mesmo notável o harmonioso enquadramento dos lexemas em toda a Pausa, convém que se atenda ao constante rol de interrogações/exclamações, que fazem do longo conjunto uma longa, autêntica e excelente interrogação/exclamação.

Lopito Feijoó constata ainda que " (...) para além de todo o telurismo implícito, as guerras e querelas do nosso tempo (entre nós abundantes!) são também objecto de reflexão de Cristóvão Neto." E conclui afirmando que trata-se " (...) de uma poética que ainda dará, certamente, que falar, pois o seu cultor vai fazendo estrada, (in)consciente da sua auto-narratividade."

Informação Adicional

  • Nascido em: 30-12-1964
  • Naturalidade: Malange
  • Gênero literário: Poesia
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