O cenário em que nasceram estas e outras personagens de Uanhenga Xitu foi o campo de concentração da ditadura colonial portuguesa de nome Tarrafal. Foi aí que se fundiram num só o activista político e o escritor. Nas suas palavras:
"Escrever é de certo modo uma forma de estar só consigo mesmo. Quando o desespero te aperta, foge dos outros e escreve para todos. Foi assim que do Mendes de Carvalho que sou, nasceu o escritor Uanhenga Xitu que vos fala agora. É por isso que eu vos digo e afirmo que todas as minhas histórias se escrevem com Agá" (Xitu, 1998: 21).
O realismo das suas histórias com agá tem sido destacado por académicos que publicaram sobre Uanhenga Xitu. Entre tantos possíveis temas, dele se tem destacado o testemunho para as gerações seguintes (Venâncio, 1992: 94), o "ambaquismo literário", o logotetismo, a invenção de uma língua nova (Trigo, s.d.: 158) ou as "várias referências a velhos sábios, arquivos vivos da história de Angola, conhecedores de práticas ancestrais, mediadores em disputas territoriais, conciliadores respeitados por ambas as partes em contendas" (Ramos, 2011: 135). Para Ana Lúcia Sá (2012), o seu processo de descolonização literária e política faz-se pelo enraizamento na comunidade, na terra que o viu nascer e à qual voltava sempre. Terra que evocava a identidade e permitia a procura dos valores de libertação da injustiça, da exploração, do racismo, do colonialismo e da fragmentação.
O seu primeiro poema, nas paredes da cela do Tarrafal, onde esteve de 1961 a 1970, na sequência do famoso "Processo dos 50", foi um grito: "Não!". A resistência ao regime colonial seguia e seguiu-se. A sua actividade de enfermeiro permitiu-lhe fazer campanha pela libertação no posto de atendimento a doentes. O político que sempre foi Uanhenga Xitu viveu independência do seu país, fez parte dela, militou no Movimento Popular de Libertação de Angola e representou a população no Ministério da Saúde e na Assembleia Nacional. O político e o escritor estiveram na formação da União dos Escritores Angolanos, a primeira instituição criada após a independência de Angola.
Lutador incansável contra o que considerava injusto, fica na história de Angola como um homem que não calou. Foi voz crítica de muitos processos associados à independência e à forma como se foi fazendo o país. Sem medo. Aliás, em Cultos Especiais escreveu: "na minha idade já não se deve alimentar o medo, é na idade de quem se deve ter medo" (1997: 86).
Dele não nos ficam apenas os livros. Ficam-nos os seus exemplos e a recordação de uma personalidade conciliadora e lutadora.
Referências:
Ramos, Marilúcia Mendes, 2011, "História e homenagens nas dedicatórias do escritor e mais-velho Uanhenga Xitu", in Mwewa, Christian Muleka, Sá, Ana Lúcia e Vaz, Alexandre Fernandez (Ed.), Teoria Crítica e Literatura, São Leopoldo: Editora Nova Harmonia: 135-152
Sá, Ana Lúcia, 2012, A Ruralidade na Narrativa Angolana do Século XX – Elemento de Construção da Nação, Luanda: Kilombelombe
Trigo, Salvato, s.d., Ensaios de Literatura Comparada Afro-Luso Brasileira, Lisboa: Vega
Venâncio, José Carlos, 1992, Literatura e Poder na África Lusófona, Lisboa: Ministério da Educação / Instituto de Cultura e Língua Portuguesa
Xitu, Uanhenga, 1997, Cultos Especiais, Luanda: Ponto Um / Intergráfica
Xitu, Uanhenga, 1998, "Histórias de mais velho", in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XVIII, n.º 726: 21
