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Os mais velhos perderam a força de o desmentir e também os cristãos. Preferiram estar com ele na igreja a cantar e implorar a Deus, quando bem sabiam o que estavam a cometer diante do Criador. Era o tempo do medo que faz, muitas vezes, as pessoas deixaram de ser elas próprias. Com o medo de morrer ou de perder as regalias da vida. Sabiam todos que aquele acto nunca fez parte da tradição. Finalmente os batuques foram fabricados.
   O dia chegara. Mas o azar também vinha espreitando. Choveu tanto que o povo não conseguiu sair das cubatas....Excerto da pág.29

Este livro foi prefaciado pelo jornalista Ladislau Silva que dispõe um panorama sobre o que é a obra de Carlos Ferreira "é uma compilação de algumas letras já musicadas e outras por musicar, que deveriam ser lançadas no disco"Cacimbos II". Neste livro ou disco impresso (a melodia fica por conta de cada um que ler) o Cassé fala de diversas coisas da vida. Boas e más. Fala de sonhos. Dos seus sonhos. Dos nossos sonhos. Muitos por concretizar mas com a certeza de que "se esses sonhos não mudarem ainda veremos o amanhecer" e "novas rotas em alto mar virão".


Fala de amores conseguidos e de amores perdidos. Ao ler, revemo-nos na cena, no palco da vida. Quem nunca perdeu? Mas quantas vezes ganhamos?
Fala de um tempo novo, tornado velho, pelas armadilhas e cobiças e intrigas e esquemas e tudo o mais quanto é... (Kapuete Kamundanda).


Fala dele também. Das suas raízes. Da miscigenação. Das influências. Das realidades vividas. Dos ídolos e dos lugares de memória da sua (nossa) terra. E fala, canta, muitas outras coisas que têm de ser lidas. Com atenção. A crítica na língua, depois dos olhos piscarem para o cérebro.

O BOLETIM CULTURA E A SOCIEDADE CULTURAL DE ANGOLA
RECOLHA E PESQUISA
IRENE GURRA MARQUES & CARLOS FERREIRA
Colecção «Praxis» da UEA

Irene Guerra Marques e Carlos Ferreira explicam os objectivos da publicação deste tão valioso trabalho de recolha daquilo que foi e é o Boletim Cultura: "Mantendo a convicção de que é essencial para a consolidação de um processo contínuo de consci~encia nacional, o conhecimento da história, deste caminho longo, aberto por várias gerações que hoje, infelizmente, parecem remetidas ao esquecimento, entendemos de enorme utilidade publicar, não apenas os numeros do boletim da Sociedade Cultural de angola, como também o processo de que foi alvo ao longo de anos por parte da PIDE, até a sua extinção." O Boletim cultura e a Sociedade Cultural de Angola, 2013 pág.9
No prefácio acompanhamos um breve mas detalhado historial feito pelo escritor Henrique Guerra antigo colaborador do boletim cultura que expões as várias fases porque passaram. "Criadaem 1942, a Sociedade Cultural de Angola teve "vida normal", no dizer da PIDE, até 1947, altura em que o seu vice-presidente, Eugénio Ferreir, assume a direcção do jornal "Cultura" e anuncia que o jornal "vai entrar numa nova fase de crescimento". O jornal desaparece e reaparece momentaneamente e reaparece em 1957, tendo sido publicados 12 números até 1960, altura em que é proibido e encerrado pela PIDE. A SociedadeCultural de angola é extinta em 1965, por Portaria de 5 de Março do então Governador Geral, e a ordem de expulsão do Dr. Eugénio Ferreira é assinada mas não posta em prática, talvez por temerem que tal facto pudesse provocar agitação e alarme entre a população portuguesa."
Portanto este trabalho de Irene Guerra Marques e Carlos Ferreira, trata-se da reedição dos 12 números da revista "Cultura"

O livro foi editado pela União dos Escritores Angolanos em 2013 e é um retrato social, com uma história de amor no fundo, que atravessa as últimas quatro décadas. A trama começa em Luanda nos primeiros anos da Angola independente, quando o motorista funerário Man'Toy perde emprego, por se ver tentado a consolar uma jovem viúva em pleno cortejo, gesto interpretado como assédio pela sogra desta. Mais tarde, na viagem de Luanda para o Bié, o autocarro em que seguiam acciona uma mina terrestre, resultando disso a amputação de uma perna ao personagem principal e o desaparecimento da namorada. O ano de 2002 e o fim do conflito armado vêm reforçar as esperanças de reencontro, entretanto dificultado por desconhecer o sobrenome da pessoa que procura. Entre vários aspectos, a narrativa questiona a imaturidade social que se seguiu aos primeiros anos da Angola independente, a busca da realização material através de atalhos como negócios escusos, recurso à feitiçaria, bem como as virtudes e os defeitos do papel das Organizações Não Governamentais no contexto de emergência. Pelo autor em 25 de Março de 2014.
«(...) Inusitado, porém, era o impulso com que o visitante se sentava diante do televisor, a seguir ao telejornal, para acompanhar o programa Nação Coragem.

Milhares de pessoas engrossavam diariamente as filas orientadas pela produção do programa, em Luanda, cada com a foto do familiar desaparecido e uma tocante mensagem. Vinha gente do norte, do centro, do sul, enfim, de subúrbios inimagináveis, vinham também esperanças da diáspora. Resistiam à fome e ao cansaço das horas que antecediam a gravação do Ponto de Encontro. Umas vezes, Veremos explodia de alegria diante da tela, contagiado por mais uma reunificação familiar. No entanto, também se davam desencontros ou, na mesma proporção, infelizes certezas de que A ou B já não está em vida, depoimentos de cortar o coração! E ele não resistia, derretia-se em lágrimas.

E enquanto assistiam...
— Mano Veremos, eu admiro bué o teu amor por esta miúda, a sério! É de dar varizes no coração... E se ela aparecesse, já esposa de outro homem?
— Amigo Perdido, estou em crer que as pessoas têm o direito de reaver, com a chegada da paz, o que a guerra lhes roubou.
— Acho que não me satisfez a resposta...
— Espero ter de volta a mulher. Acho que a paz é isso. Senão, um gajo acaba por se sentir um veterano da ironia do próprio Deus. Seria demais... É isso...
— Ya, estou a ver. No fundo, o que move as pessoas não é tanto dos actos infelizes, mas a sua própria impotência perante estes(...)»

In «Não Tem Pernas o Tempo», Pág 101-102, União dos Escritores Angolanos 2013

PRÉMIO SONANGOL DE LITERATURA/ REVELAÇÃO 2013

É uma obra de curta ficção, composta por quatro contos, que passaremos a apresenta-los através de excertos retirados da mesma: 1º conto «O Menino do Huambo», "o raio de claridade que escapavam por entre as folhas das árvores daquela mata cerrada davam a sensação aflitiva de estar dentro de uma estufa. Respirar era um triunfo. A chuva farfalhava sonoramente nos arbustos e a lama impedia o avanço esguio da água da enxurrada.
Mário apreciava cada som, cada gota de chuva que caía ao seu redor. A água era doce. Sorriu ao olhar para o pouco céu que conseguia ver do seu esconderijo.
Aquele segundo de sensibilidade era o primeiro que sentia desde a sua fuga do Huambo a 5 de Março de 1993.
Iniciara a sua fuga com mais sete ou oito mil pessoas que fugiam da entrada da UNITA na cidade. A pé. Todos sabiam que estavam a ser perseguidos." Pág. 11
«A Breve Vida de Tomás Kaputo», "Tomás sabia que seria o seu último entardecer.
Ao chegar a casa, a velha mãe olhou para ele e soube o mesmo.
Chamou-o com os olhos e assentiu.
- Nada temas, meu filho, andas a adiar há tempo demais.
Tomas abriu a porta do quarto e começou a olhar para as fotografias penduradas junto ao espelho, perto do seu crucifixo de sempre.
Entre dentes, murmurou: "todos mortos, camaradas. Todos mortos."
«O Dia em que uma Mulher Caiu do Céu», "Qual sucedido, pá? Ó Lopes, você está a dar-me cabo dos nervos... - gritou o chefe de posto. – Chefe, oiça com atenção, sem querer faltar com o respeito, o chefe tem de vir já! – Aonde, homem, aonde? – Junto do posto médico. – Mas o quê que é, pá? – Chefe, com o devido respeito, uma mulher caiu do céu!
O quintal da tia Antónia ficou em silêncio por um segundo, tentando todos confirmar com os olhos aquilo que os ouvidos acabaram de escutar." Pág.30
«Os Diamantes do Quitexe» "A verdade é que nunca mais voltamos. Ficaram lá os diamantes, emparedados durante 30 anos e nós aqui com tantas dificuldades. Pág.54

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