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“Olhe lá, menina toda produzida. Não lhe vale de nada andar por aí aos choros. Ah, não tem quinhentas folhas verdes que possa recompensar o servicinho de troca de boa maca em prejuízo de um doente terminal, pelo corpo ainda cheio de vida de sua mãe?”, propôs sem qualquer hesitação ou ética. “Tenho… deixa ver”, puxou a bolsa pendurada no seu ombro esquerdo e vasculhou, remexeu os seus fundos. “Sim, só tenho duzentos dólares, essas folhas verdes chegam para a mudança?”, disse com voz pouco animada.

“Você não dá nenhum valor pelo seu doente. Ah, Ah, nem parece que se trata de sua própria mãe. Filha, olha que não é fácil no mundo substituirmos quem nos pôs no mundo”, explicou a empregada de limpeza com o queixo apoiado nas duas mãos que mantinham o peso da cabeça sobre o cabo da vassoura. “Mas não tenho onde roubar o resto, tenha compaixão, criatura de Deus”, pediu quase ajoelhada. “Porra, só tem gente pobre e mal cheirosa nesse corredor. Vou aguardar por alguém que possa ser mais generoso no bolso. Tenha melhor sorte. Saiba que Deus nunca abandona os que sofrem, vai ver que não me enganarei quando a sua sorte mudar”, e saiu quase dançando. A vassoura servia de instrumento que criava parte do ritmo que se espalhava pelo corredor enquanto caminhava dando costas ao sofrimento da filha da senhora que se contorcia de dores.

“As minhas colegas estão melhor, nas salas de clínicas privadas. Os que chegam com os doentes esticam logo as notas verdes assegurando à cabeça o bom trato. Isso é que é gente”, murmurou entre dentes cerrados a mulher da limpeza.

A senhora morte, e é, sem favor, uma bela figura de mulher, depois de deixar o médico divertido com os telemóveis da Unitel e da Movicel, apoiado em bons saldos de utts, na verdade assediado por muitas razões de saias e cirurgias, não teria como atender a todas as chamadas em lista de espera sem que abandonasse essas “pobres almas”. Voltou novamente à sala de urgências para averiguar o estado de atendimento. Desta vez, levou colado ao peito um relógio próprio para as estações de comboio devido a sua grande dimensão. O ponteiro dos minutos pintado de vermelho foi girando de forma inclemente já que em cada passagem completa roubava mais vidas, “De quem é esse morto?”, gritam os enfermeiros num ritmo estonteante.

 A senhora morte é muito aplicada. Vê-se no resultado do número de vítimas que sucumbiam nas macas ou à entrada do Banco de urgências, que aumentava a lista de infelizes. “Boa safra”, classificou usando o dicionário da agricultura. Resultado, só uma senhora e mais uma criança de oito anos ainda davam sinais de vida, e essa resistência não a deixava de todo feliz, parecia que eram mantidos por dois fios de vida muito resistentes.

 A senhora morte peidou, “Porra, que cheiro”. Gases fétidos cobrem todos os corredores do hospital, pairam nas casas de banho sem água corrente, nas salas de urgências, pior na pediatria e estão entranhados nos lençóis coloridos do Congo. “Encardiu os poucos lençóis brancos”, resmungou um doente...Excerto da Crónica «senhora morte»

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Carmo Neto (n. em 1962 – Malanje), contista e cronista angolano, cuja obra permanece, até então, desconhecida do público-leitor brasileiro das literaturas africanas de língua portuguesa, é detentor dum percurso literário modesto, sendo ele ressurgente da chamada “Geração de 80”.
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Na antologia de textos de Carmen Lúcia Tindó Secco que comporta dez ensaios sobre literatura infantil, o segundo ensaio é de Mônica Fares, intitulado: "Diálogos transoceânicos". Numa breve nota a professora Carmen considera que «a autora compara o universo das míticas narrativas orais amazónicas com estórias tradicionais recolhidas pelo angolano Óscar Ribas. Muitas são as semelhanças e as diferenças».
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O termo barroco, em virtude do momento em que foi criado, traz embutido, em si, o vezo da complexidade e da extravagância. De início, tais aspectos foram utilizados como ancoradouro de sua rejeição, mas, em tempos porvindouros, seriam o marco distintivo de uma outra forma de ser e estar na história, sob a qual vários grupos reivindicariam o direito de poder representar o diverso, sem alusões negativas.
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Embalado pela palavra, o artista ia lavrando,

na tampa da panela, um primeiro esboço de uma

escrita iluminada, a gravação dos sons da alma

< em tom de confissão

Ana Paula Tavares

 

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Em A Geração da Utopia, o escritor angolano Pepetela, traça, a partir de quatro movimentos temporais, a trajetória histórica da última metade de século XX em Angola.
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Uma espécie de consenso quanto ao processo mnemônico, é o que apontam os estudos pontuais de Maurice Halbwachs1, pois detectaram que a memória individual se constrói a partir de uma memória coletiva.
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No fim do século XIX e início do XX, indivíduos pertencentes a "grupos minoritários" vítimas de pressupostos raciais excludentes viram-se de fora do projeto de nação ideal.
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A morte é um assunto recorrente em diversas literaturas. Entretanto, ela é abordada de forma peculiar em cada lugar, conservando, desse modo, os traços da cultura à qual a literatura se refere.
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1 - O currículo e a cultura africana

A escola é um local em que a diversidade cultural deve ser assegurada para que todos tenham garantido o direito de aprender e ampliar conhecimentos, sem serem obrigados a negar a si mesmo, ao grupo étnico/racial a que pertençam e adotar costumes, idéias e comportamentos que lhes são adversos.

 

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