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«Ainda Não Encontrámos Rumo Para Dar às Nossas Crianças»

Escrito por  Dario Melo

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Na azáfama do pós independência, enquanto a literatura colonial e os escritos de cárcere eram publicados, verificou-se que as crianças não tinham nada para ler. Nenhum livro de autores angolanos havia sido publicado para preencher esta lacuna. Neste processo, Dario de Melo destacou-se, de entre um grupo de escritores. Autor de mais de 18 livros e perto de 100 estórias, Dario já foi professor e inspector primário, numa vida que ainda lhe ofereceu o cargo de director do Jornal de Angola, o único diário angolano.

 

 

 

No final da conversa, mantida na sua casa, onde nos falou da sua vida e obra, ficamos com a impressão que Dario carrega o sentimento que muitos escritores enfrentavam nos primeiros anos do pós independência: aguarda apenas uma editora para publicar os manuscritos que estão na gaveta.

P - A primeira questão de um escritor infantil pode ser o regresso à infância. Fale-nos de Benguela, sua terra natal?

R - Nasci em Benguela, a 2 de Dezembro de 1935. A minha vivência em Benguela é relativamente curta, porque aos 12 anos eu segui para Portugal já que os meus pais resolveram ausentar-se para lá. Portanto, é muito pouca coisa de que eu me recordo de Benguela a não ser da escola primária onde estudei, do colégio Nuno Álvares, onde fiz o primeiro ano, e de meia dúzia de amigos que, suponho, infelizmente, já morreram todos.

P - Tem voltado a Benguela?...

R - Sempre que posso volto a Benguela, revejo Benguela e, digamos, cada vez que vou a Benguela, me sinto mais «exilado» aqui em Luanda. Porque, para mim, todo o meu desejo é ir para Benguela, ficar lá e continuar a viver lá.

P - Quais sãos os locais de que mais se recorda na sua terra natal, que lhe terá, quiçá, influenciado nalgum dos seus livros?

R - Em Benguela, como qualquer terra, não são os locais que importam, mas as pessoas. São as pessoas que fazem uma terra. Eu vivi durante muitos anos no Bié. Quando me recordo do Bié, eu sinto-me, também, na minha terra. Mas agora, se eu for ao Bié, já não seria a mesma coisa, porque as pessoas que estão lá, já não sei quem são. Eu não tenho muitas recordações de locais que me possam ter influenciado, porque o que realmente influencia são as pessoas.

P - O percurso literário de um escritor começa por um gosto pela literatura, que se vai desenvolvendo pelo gosto pela leitura. Que livros leu, nessa altura?

R - Eu li muitos livros. Comecei logo a ler em Benguela, porque o meu pai era barbeiro e não tinha assim muito dinheiro para a gente lhe sacar um livro. Tinha que dizer que o professor é que mandou. Li uns livros que havia de um escritor, salvo o erro norte-americano, Mardem, que dava conselhos, «querer é poder»; conselhos à juventude. Foram estes livros que eu li. Gostava muito de ler porque tinha sempre historiazinhas, biografias para ilustrar aquilo que o homem dizia. Depois é interessante, porque quando cheguei a Portugal, parti para os livros de juventude, aqueles que havia mais na moda, e só muito mais tarde é que eu comecei a ler literatura infantil.

P - Foi influenciado ou sentiu natural inclinação para a literatura?

R - Eu comecei graças a um padre. Quando cheguei a Portugal fui para o Porto, para o Grande Colégio Universal que, suponho, ainda exista no Porto. Naturalmente que eu estava desacostumado a tudo, era um péssimo aluno. Aquilo era um colégio de padres ou de pessoas ligadas à Igreja. Havia um padre que me incentivava a escrever e foi a partir daí que eu comecei a gostar de escrever. Entretanto, quando regressaria a Angola, não seria fácil, pelo menos uma pessoa que vive numa província como eu vivia, entrar num jornal. Era extremamente difícil e muito menos escrever um livro. Havia uma ou outra pessoa que, de quando em quando, botava um livro cá fora, porque tinha de ser edição do autor, porque não havia editoras aqui. Um dia comecei a colaborar com o Notícia do João Charula de Azevedo, que era uma revista semanal que teve uma grande importância em Angola, naquele tempo. E teve importância não só em Angola, como noutros territórios, como Portugal continental, que se viu obrigado a melhorar a edição das suas revistas para competir com as revistas que vinham de Angola. Comecei a colaborar esporadicamente no Notícias, depois havia numa página diária no Huambo do A Província de Angola, que é hoje o Jornal de Angola, onde eu escrevi para lá meia dúzia de coisas. E foi assim que eu comecei a escrever, e a interessar-me em escrever e em ver as coisas publicadas.

P - Como se dá a sua afirmação como escritor infantil?

R - Eu nunca pensei em escrever para crianças. Aliás, ainda no tempo colonial, pediram-me para escrever. Havia livros escolares, eu era inspector e pediram-me para escrever para estes livros, mas eu não sabia realmente, ou tinha medo de escrever. A minha entrada na literatura infantil deu-se em 1979, que foi, salvo o erro, o ano internacional da literatura infantil. E a gente tinha que fazer alguma coisa. Muito timidamente eu fiz, suponho que o camarada Boaventura Cardoso, que já era escritor, escreveu uma ou duas coisas para as crianças, e talvez a Dra. Irene Guerra Marques. Já numa outra fase do INALD, trabalhava eu, a Gabriela Antunes e o Octaviano. E um dia aconteceu que a Gabriela Antunes foi ao Jornal de Angola e, em conversa com o director do jornal, que naquela altura era o Zequinha Cardoso, disse-lhe que a página infantil estava muito má. O director do Jornal parece que ficou um bocado aborrecido e respondeu «se sabes fazer melhor, então faz». E a Gabriela, com a sua impulsividade «olha, eu acabo de vir do Jornal, assumi este compromisso, vamos fazer a página infantil do Jornal de Angola. Isto não custa nada». Era uma estória todos os meses. Portanto, calhava uma estória a cada um. Havia também, e isso é que é importante referir, nesse conjunto de pessoas que trabalhavam no INALD, a Rosalina Pombal, uma miúda ainda, mas escrevia muito bem. E deixou, salvo o erro, uma ou duas estórias unicamente, porque ela dizia que não era propriamente para a literatura infantil que estava vocacionada. Era mais para a crítica. Gostava de ler as coisas dos outros e criticar. E era ela até a quem nós, mais velhos, dávamos, para ela ler, aquilo que escrevíamos. E assim fomos escrevendo estórias para o Jornal de Angola, numa certa competição interna. Hoje escrevo eu, vou tentar escrever melhor que tu. Pegámos algumas destas histórias e fizemos uma colecção ilustrada pelo camarada António Domingos, um grande pintor português que estava por aqui, filho de um são-tomense; e fizemos uma pequena colecção, a «Colecção Piô-Piô», com algumas das nossas estórias, e assim se deu o começo a uma carreira em que apareci eu, a Gabriela, a Rosalina e mesmo o Octaviano Correia, que era o único que já tinha uma certa experiência de escrever para crianças. Já veio com esta experiência do Lubango, mas também não tinha publicado nenhum livro.

P - Neste conjunto, há alguma estória que o tenha marcado particularmente?

R - Não, suponho que não. São tantas estórias... depois, eu fiquei a fazer o suplemento infantil, e foram tantas as estórias que eu tive que escrever... aí umas 60. Não tenho nenhuma que me tenha marcado, embora nos livros que eu publiquei depois tenha ido buscar algumas das estórias que tinha escrito no Jornal de Angola.

P - Fala-se de Dario de Melo como escritor e como jornalista. Mas fala-se pouco do Dario como professor, actividade cuja carga pedagógica é notória no que escreve. Fale-nos um pouco desta sua experiência como inspector e dos anos que trabalhou na área da educação?

R - Eu suponho que trabalhei 22 anos na área da educação. A minha experiência é a experiência normal de um professor, que, mais adiante, depois de muitos anos de espera, consegue ser sub-inspector escolar, embora fazendo lugar de Inspector escolar no Bié; mas que foi uma experiência muito rica, porque foi aí que eu conheci as dificuldades que os professores tinham no interior do país, e especialmente os monitores escolares, que eram pessoas sem grande preparação. Porque não só tinham que leccionar os seus alunos porque o número de alunos era muito grande, tendo um mínimo de 80 como tinham que ensinar as cinco classes. Neste mínimo de 80 alunos, eu recordo-me, um dia, um local em que eu encontrei um professor com 385 alunos. E, ao mesmo tempo, para além de sofrerem as nossas inspecções normais, de dois em dois anos, de três em três; ainda sofriam a «inspecção» do Chefe de Posto. Fundamentalmente, acontecia que normalmente o Chefe de Posto entendia que aquilo que o professor estava a ensinar estava tudo errado e mandava ensinar de outra maneira. E o professor, tendo consciência de que não estava a cumprir com o programa, não tinha outro remédio senão ensinar. Foi aí que eu conheci esta enorme dificuldade nestes sítios que pareciam abandonados à sua sorte.

P - Conjugando a sua experiência como professor e inspector, terá notado as dificuldades que os alunos, principalmente, tinham para aprender. Isto será motivo para se dizer que a literatura infantil surge como uma segunda via de ensino?

R - Naturalmente que a literatura infantil até deveria ser a primeira via. Porque não se educam crianças sem literatura. Eu tento sempre, posso não conseguir, não ensinar explicitamente às crianças qualquer coisa. Naturalmente que os livros têm sempre um carácter pedagógico, porque senão não eram livros para crianças. Por vezes até, para os adultos, os romances têm um carácter pedagógico, na medida em que questionam o leitor. Porque põem em relevo determinado problema para levar o leitor a pensar. O livro é sempre uma situação que obriga as pessoas a questionar qualquer coisa. Como o livro é infantil, vai obrigar o aluno, a criança, a aprender alguma coisa. Mas não deve ser explícito. Aqueles livros e estórias que são explícitas, que acabam com uma coisa muito melada, a dizer «os meninos não devem fazer isso, devem fazer aquilo», não são boas estórias. A estória é que realmente deve inculcar alguma coisa na criança, de que ele se lembra, ou que ele se lembre amanhã, e que está sempre a iluminar a sua actuação em termos do futuro.

P - Falemos agora um pouco mais sobre a sua Obra. Quer nos livros de Dario de Melo quer nos de Gabriela Antunes ou Octaviano Correia foram surgindo estórias tradicionais que, baseadas no costume, eram recriadas para a literatura. No seu caso, esta característica é notória no livro Quem vai buscar o futuro...

R - No início, nós tínhamos uma preocupação: nós tínhamos chegado à independência com um certo complexo. Os portugueses é que tinham cultura, os portugueses é que eram civilizados. E aquilo que nós aprendíamos na escola era tudo na matriz portuguesa. Quando chegámos à independência, a gente queria arranjar uma maneira de dizer «olha que nós somos civilizados como qualquer outro!». Nós achámos que a única maneira de dar às crianças, de forma não explícita, quer noções de cultura, quer noção de unidade nacional, era agarrarmo-nos às estórias tradicionais. Havia aí muitas publicações e ainda haverá publicações que traziam estórias tradicionais. E a gente começou numa tentativa de adaptação de estórias para as crianças.

P- Que livros eram esses onde iam buscar estórias tradicionais?

R - Havia muitas publicações. Havia os 50 contos kiocos, havia dezenas de publicações de antropólogos e era ali que a gente ia buscar. E, quando começámos a tentar ver como se adaptaria, cada um ia tentando da sua maneira. Esta história a que se que se referiu, Quem vai buscar o futuro, é uma estória nitidamente política. É a adaptação de um conto tradicional feita de tal maneira que, hoje, eu não sei qual foi o conto onde eu fui buscar aquilo. Não foi mais uma adaptação, foi mais uma inspiração. Comecei pela primeira adaptação, que a Gabriela dizia que estava muito melhor que o Quem vai buscar o futuro. Depois fui modificando, modificando, até que acabou por ser aquela estória verdadeiramente política. Nunca consegui passar ao lado da política. Era, na altura, aquilo que tínhamos. Portanto, começámos a pegar nos livros. Nós tínhamos dezenas de livros e por vezes era difícil uma pessoa pegar numa estória e depois adaptá-la para as crianças. Às vezes com algumas variações ligeiras porque, como sabe, as nossas estórias tradicionais estão ditas para uma população rural que, por vezes, tem nuances menos próprias para as crianças. Então, a pessoa tem que arredondar a estória. E foi assim que nós conseguimos, dois ou três anos depois. A Gabriela Antunes é que tinha esta estatística, teríamos mais de 150 estórias angolanas. Nós, os angolanos, gostamos de dizer mal uns dos outros. Achamos que nada na nossa terra está em condições. E houve uma altura em que diziam que nós só escrevíamos estórias europeias. O que não era verdade. Então, nós fizemos um relatório destas estórias e encontrámos 150 estórias, que os vários escritores tinham escrito para dois órgãos de informação, que foram particularmente importantes na activação da literatura infantil, o Jornal de Angola e a Rádio Nacional de Angola, com o programa que ainda hoje existe, que é o «Rádio Piô».

P - Outro momento da sua carreira vem com o livro O Grilo e as Makas, considerado como dos poucos na época, de banda desenhada, a que o nome de Henrique Abranches é sempre associado

R - Naquele livro, eu não fiz mais do que a estória. Porque é uma estória tradicional. Houve um indivíduo que vinha cá com muita frequência, cujo nome não recordo-me, pegou na estória que eu tinha escrito e resolveu levá-la para o Brasil e fazer uma banda desenhada. O Henrique Abranches nada teve a ver. Ele fez lá, como muito bem entendeu, e mandou para cá para ver se nós estávamos interessados em publicar O Grilo e as Makas. Esta estória, mais adiante, foi passada para o cinema pelo ÉFE e com música de Felipe Zau, que, de quando em quando, a rádio Piô passa. Portanto, foi uma estória que teve mais relevo, mas nem por isso significa que fosse a melhor estória, ou que seja a melhor história. Teve a sorte de aparecer aí alguém que a levou e fez a banda desenhada.

P - Podemos encarar, apesar disso, a banda desenhada como uma outra forma de escrever...

R- Sim, e a verdade é essa. Não podemos esquecer a grande influência que o Henrique Abranches teve com uma série de jovens que ainda hoje estão aí, que são grandes banda desenhistas. E a ele se deve, com estes jovens, a fundação da banda desenhada angolana. Dos «mankikos» e esta coisa toda, que foram pessoas muito importantes. E o Henrique Abranches tinha um traquejo muito grande, porque já tinha feito os mesmos trabalhos na Argélia. Suponho que a primeira banda desenhada argelina terá sido desenhada por ele... Estou agora a lembrar-me de uma coisa interessante... O Henrique Abranches nunca escreveu para crianças. Um homem com uma versatilidade muito grande, indiscutivelmente o escritor com maior imaginação das letras angolanas. O homem da ficção científica da literatura angolana, é interessante como é que ele nunca escreveu para crianças.

P - Arnado Santos, por exemplo, só agora publicou o seu primeiro livro infantil (Histórias de Kuxixima)...

R - Já agora que você fala deste livro, este é realmente o livro mais bem conseguido da literatura infantil angolana. Enquanto que nós, de quando em quando, utilizamos o léxico angolano, naturalmente nas falas dos nossos personagens, ele utiliza-o e muitíssimo bem em todo o livro. Ao ler As Estórias de Kuxixima fiquei realmente pasmado. É mesmo um grande livro. Também como acontece quase e sempre aqui em Angola, os livros infantis são livros que se publicam um bocado para os escritores se recriarem uns aos outros. Se a gente vai a uma livraria, os livros não chegam às crianças. Mas isso é outra história.

P - No início da década de 80, havia a sala de leitura Mirui, que foi um centro de Cultura, onde era possível ler-se «à vontade» literatura angolana. Porquê que já não existem espaços como aquele?

R - Com todos os defeitos do outro tempo, não havia uma coisa que faz progredir a sociedade, mas também a enfraquece. Não havia comércio. Portanto, a gente podia dar-se o luxo de abrir uma Mirui, isso no tempo do hoje ministro [da Cultura] Boaventura Cardoso. Fui eu que recebi esta livraria, quando ela foi abandonada pelos donos, e o Boaventura Cardoso resolveu fazer ali uma sala de leitura para as crianças. De tal maneira que a criança, se tinha dinheiro para comprar, o livro estava cá em baixo. Em cima o livro estava de graça. Para além disso, a Hermínia, que dirigia também nesta altura a sala de leitura, fazia aos sábados animação com as crianças. Ainda bem que você falou disso, porque esteve cá uma escritora brasileira, Ana Maria Machado, a convite da escritora Gabriela Antunes. Essa escritora mandou-nos depois, para o Jardim do Livro Infantil que nós tínhamos, onde se vendiam livros; uns bonecos de teatro infantil, umas marionetes para a gente fazer o Capuchinho Vermelho. Isso obrigou-nos a adaptar o Capuchinho Vermelho à realidade de Angola. Eu fiz a adaptação e o Capuchinho Vermelho foi muito mais importante que O Grilo e as Makas, porque teve uma adaptação para o teatro, teve uma adaptação para a rádio e teve uma adaptação para marionetes. Ou seja, há bocado perguntou qual foi a estória que escrevi que mais me marcou. Não foi nenhuma estória. Foi realmente este Capuchinho Vermelho. Porque, se a Ana Maria mandou aquilo, a gente só tinha que aproveitar e fazer uma adaptação, em que não havia nenhum caçador que matava o lobo. O caçador ia para o sul, aguentar a nossa independência; o lobo acabava por ir a uma creche entreter as crianças, a avó empregava-se numa padaria a fazer bolos e a capuchinho ia para a escola como cumpria.

P - Dizia, acerca da sala de leitura, que os tempos mudaram...

R - Agora o problema é comércio. As pessoas têm uma livraria, não se podem dar ao luxo de ter uma sala de leitura que vá «roubar», o interesse de quem deve comprar. Aquilo não é biblioteca nenhuma. Quer dizer, ainda não encontrámos rumo para dar às nossas crianças, aquilo que elas merecem. Nesta altura, nesse tempo do INALD, do Boaventura, da Gabriela, quase chegamos a dar às crianças aquilo que elas mereciam.

P - Se já falámos de Dario de Melo a recriar estórias tradicionais, a escrever estórias com carga política e mais tarde a estrear-se na banda desenhada, ainda nos resta apontar da sua larga bibliografia, por exemplo, o Inaldino, uma estória policial...

R - O Inaldino surge quando eu falei dessa revista que, no tempo do Boaventura [Cardoso], se tentou fazer. Como vê, foi um tempo muito movimentado, em que a gente fazia muita coisa. Tentou fazer-se a revista. Suponho que se chamava «Mirui» também. E da minha parte eu escrevi a primeira estória do Inaldino. A revista nunca mais foi para a frente, e eu recuperei este Inaldino e fiz mais quatro histórias para sair o Inaldino que as pessoas conhecem. Que teve um êxito extraordinário, até por várias circunstâncias que não têm nada a ver com o livro. O livro era Inaldino o inspector Mirui, penso que era assim. E começou a ser muito comprado pelos indivíduos que se candidatavam à Polícia, porque julgavam que aquilo era um livro que os iria ajudar na sua profissão. Não sei se caiu nas mãos de algum jovem, mas pelo menos teve um certo êxito. Fizeram-se, salvo o erro, 15 mil exemplares. Hoje para se fazerem 15 mil exemplares, são precisos 15 livros. Mas foi interessante, foi uma experiência interessante. Mas tem piada, porque muita gente que me conhecia por causa do Inaldino e me perguntam «porquê que você não continua com o Inaldino?». Porque... porque eu suponho que esgotei ali tudo. Quer dizer, fazer um outro livro do Inaldino tinha de ser de outra maneira e eu nunca tive coragem de iniciar desta maneira.

P - Falemos de outro título seu, O Comandante Sem Arma, que também representa uma outra faceta do escritor. Este livro é encarado como uma estória de guerra. Era necessário que se escrevesse um livro assim...

R - Eu suponho que sim, que era necessário. Nós estávamos mesmo em guerra. Não foi uma guerra a brincar. Foi uma guerra que tocou as crianças. E muito embora estas minhas estórias não chegassem às crianças que sofriam a guerra, era preciso criar um espírito de solidariedade das crianças que não sofriam a guerra, que eram aquelas que eventualmente leriam aquilo que se escrevia. Portanto, O Comandante Sem Arma teve uma série de edições e depois vai desembocar num outro livro que eu tenho, que é o Quitubo. É, também, um livro que trata da criança no quadro de um conflito. Eu considero que não é propriamente uma estória de guerra, mas uma estória de paz. É também baseado numa estória tradicional, salvo o erro kikongo, que diz que as crianças que não têm pais, que os pais morreram, se chegarem ao princípio do Arco-íris, lá encontram uma sanzala chamada Quitubo, e ali vão lhes dar os pais novos. É toda a trajectória de uma criança órfã à procura do Arco-íris. E há um dia que chega a encontrar mesmo o princípio do Arco-íris...

P - Por todo este seu percurso, recortei uma afirmação que Gabriela Antunes fez a seu respeito. Dizia a escritora que «é um crime falar-se sobre literatura infantil angolana sem se fazer um destaque especial a Dario de Melo, o mais difícil de lidar, o mais exigente consigo próprio, mas o mais versátil, o mais poético, o melhor de todos os que até agora se esforçam por dar às nossas crianças um pouco de fantasia e recreação». Que lhe apetece comentar?

R - É um bocado difícil uma pessoa, com tão pouca gente a escrever para crianças, dizer que este é melhor que o outro. O que talvez tenha acontecido comigo é que eu fui aquele que, talvez por obrigação, no Jornal de Angola e na Rádio Piô, tinha que escrever. Naturalmente que sobressai o meu nome, sobressai o nome do Octaviano, porque naturalmente os outros indivíduos não tinham obrigações semanais de escrever alguma coisa. Portanto, é um comentário que me agrada profundamente, mas é preciso dar-lhe este desconto. A Gabriela tinha múltiplos afazeres, nunca teve a oportunidade de escrever como eu. E a Cremilda Lima também tem os seus afazeres, não teve essa oportunidade. Eu fui obrigado a escrever. De 100 ou de 60 e tais estórias, é possível que 20 ou 30 sejam boas, mas não porque eu seja um escritor mais especial que os outros. Simplesmente eu sou o sapateiro que fez mais sapatos.

P - As homenagens que recebeu, em 1995 e 1999, da União dos Escritores Angolanos e do Ministério da Cultura, respectivamente, neste a propósito do prémio PALOP de literatura infantil, foram momentos que lhe marcaram certamente como escritor...

R - A primeira homenagem, que eu já nem me recordava que foi em 1995, eu suponho que foi no tempo do consulado de João Melo na União dos Escritores Angolanos. Foi uma homenagem que eu não sei bem porquê, mas que eu aceitei com viva satisfação. A outra foi uma homenagem que a Gabriela Antunes resolveu dinamizar com a anuência do ministro Burity da Silva para me homenagear, por eu ter ganho este prémio de literatura infantil, com As Sete Vidas de Um Gato. Que posso dizer que senti?! É uma sensação agradável quando a pessoa é homenageada. Eu tenho é que ter consciência de que muita outra gente que não foi homenageada, possivelmente, merecia muito mais do que eu. Se as pessoas me querem homenagear, eu tenho que aceitar.

P - Fiz propositadamente esta questão, porque estas homenagens podem significar, também, o apreço e respeito que os escritores e a sociedade têm pela sua obra e o trabalho que vem desenvolvendo. A questão que fecha esta entrevista é esta: com este reconhecimento que lhe é prestado, porque não escreve mais estórias para crianças?

R - Para já, eu ficava satisfeito de poder escrever estórias para crianças. Eu pego numa estória, faço uma estória e faço o quê dela? Publico num livro de mil exemplares? Sabe que os livros infantis são caros e os editores não estão muito dispostos nem disponíveis a publicar livros infantis. O que é que eu vou fazer? Eu já me sentiria muito satisfeito se tivesse tempo e paciência para corrigir, para dar forma definitiva às estórias todas que eu tenho. Eu suponho que tenho à volta de 18 livros infantis. A média de 5 estórias por cada livro dá 90 estórias. Só aí tenho, tal como disse, à volta de 60 estórias que estão todas no computador, porque não estão corrigidas. Eu já ficaria muito feliz se pudesse ter tempo e paciência, como disse, para corrigir e dar forma definitiva às melhores estórias que eu tenho lá, porque há muitas que estão lá só por recordação porque não prestam. Era aquela obrigação de todas as semanas escrever uma estória. E eu já ficaria muito feliz por isso. Dá-me a impressão que, sem garimpar a memória destas estórias, eu não tenho muito apetite para escrever outras estórias novas. Porque são estórias que marcam um momento de muita agitação, e de muita competição também com os meus colegas escritores. Uma boa e sã competição. E eu não encontro momento agora para voltar atrás e começar a escrever. Sempre com a mesma estória: escrever para quem e para onde?! O Jornal de Angola deixou de ter o suplemento infantil, a «Radio Piô» e o «Kaluanda Piô» raramente passam estórias. Vou escrever para quê? Para a gaveta? Se você for ali ver, eu tenho estórias e estórias e estórias que nunca vão sair da gaveta. Escrever mais duas ou três estórias para a gaveta?

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