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Uanhenga Xitu : O Que Me Preocupa é a Situação Social do Povo

Escrito por  Uanhenga Xitu

Entrevista de: Ana Lopes de Sá

O meu primeiro contacto com o criador de Tamoda e Kahitu resultou não só nesta conversa, mas principalmente numa Amizade que se prolongou para além dele. Ao longo desta entrevista, sente-se o escritor, o homem de Estado e o mais-velho pronto a partilhar as suas personagens e as suas concretizações de vida, com incursões nos seus textos, em práticas ditas tradicionais ou na sua própria biografia.

 

O meu primeiro contacto com o criador de Tamoda e Kahitu resultou não só nesta conversa, mas principalmente numa Amizade que se prolongou para além dele. Ao longo desta entrevista, sente-se o escritor, o homem de Estado e o mais-velho pronto a partilhar as suas personagens e as suas concretizações de vida, com incursões nos seus textos, em práticas ditas tradicionais ou na sua própria biografia.

P: Senhor Deputado Mendes de Carvalho, gostaria de saber, em primeiro lugar, de que maneira a formação que recebeu, a educação feita em moldes tradicionais, ou chamados tradicionais, e a educação recebida na Missão Metodista, influenciou a sua Obra.

R: A minha formação, dado que nasci na sanzala ou aldeia, e na nossa situação, em que o analfabetismo era o mais lógico, foi feita no meio rural e com uma grande dificuldade. Para fazer os estudos, a gente tinha de andar 10 ou mais Km. por dia e, dentro desta situação, encontram-se muitas, muitas dificuldades, como também para depois ir à cidade, que é a capital, Luanda, fazer os exames (exame do 1.º grau, que era o da 3.ª classe, do 2.º grau, que é a 4.ª classe) e dali para o liceu. Tinha de vencer-se muitas barreiras; por exemplo, tinha de ter Bilhete de Identidade, ser filho de um assimilado também com Bilhete de Identidade, não viver na sanzala com seus irmãos pretos e declarar ter abandonado os usos e costumes dos indígenas. Sem isso, para o liceu, estava vedada a entrada. Esta foi a minha formação, mais virada para o povo, sempre. Comecei a aprender o português quando tinha 5, 6 ou 7 anos. De resto, era tudo a língua materna, o kimbundu.

P: De que forma a sua educação influencia a sua maneira de escrever, a forma como concebe as personagens, ...

R: Ah! Em primeiro lugar, eu, às vezes, escolho o título; depois, procuro ver o que é que eu pretendo com este título. Ora, nesta fase, começo a escrever o texto, às vezes mudo duas ou três vezes de título, e só no fim é que decido o título definitivo. Ora, o que me preocupa é a situação social do povo. Isto influenciou-me muito e, além disso, eu também tenho dito sempre que não sou escritor, eu apenas sou um apontador de episódios, de casos, e, enfim, como também sou um grande leitor, leio, li os grandes escritores portugueses, brasileiros, e isso influenciou-me muito para poder fazer alguma coisa. Primeiro, foi a vontade de querer escrever. Isto influenciou-me muito...Mas como não tinha capacidade, nem tinha para poder elaborar um texto digno de ser lido, fazia os meus rabiscos, apontava como história e guardava. Até que um dia, na cadeia, onde estive cerca de doze anos, conheci o Luandino Vieira, o António Jacinto e outros mais que me ajudaram. Quando lhes mostrei o caderno, ficaram admirados: «Ah! Isto é bom!». E começaram a aconselhar-me a corrigir determinadas frases, mas eu queria que eles o fizessem. Disseram-me «Não, assim não dá. Burila tu mesmo. Podes guardar e daqui a um ano voltas novamente». De facto, foi essa a ajuda que eles me deram, porque, quando voltava a reler, encontrava as falhas, as faltas.

P: E essa experiência que passou no Tarrafal, na cadeia, influenciou, também, a maneira como escreve a sua preocupação social, a preocupação em escrever os problemas do povo?

R: Para mim, o Tarrafal já não influenciou nada, porque a única ajuda que o Tarrafal me deu, eu estar na cadeia, num lugar sossegado, fora também dos outros problemas que me podiam afectar, era estar quietinho na cela. Então, para me desprender de mim mesmo, do que se passava fora da cadeia, comecei a lembrar a minha passagem como aluno e o convívio da sanzala que tive entre colegas, quando ia à caça de pássaros, à pesca, etc., e, ali, escrevia, escrevia, escrevia, lembrando-me como passatempo. Porque, quando começava a escrever, fazia-o de manhã até à noite e nem me lembrava que estava na cadeia. É o único agradecimento que eu posso fazer ao Tarrafal, lugar da prisão, porque era uma forma de esquecer muitos problemas que me podiam afectar. Creio que foi essa a razão que me deu a resistência para voltar e não ter ficado lá morto.

P: E essa preocupação com os problemas do povo liga-se de forma mais directa ao período colonial. Noto que, no conjunto da sua Obra, só há uma que se refere ao período da pós-independência e todas as outras remetem para épocas mesmo anteriores ao início da luta de libertação. Gostaria de saber porquê.

R: Porque era preciso fazer uma denúncia, que já fizeram outros escritores, o Assis Júnior e vários outros, que foram os antepassados, lá por volta de 1912, 1920, 1930, que começaram a escrever porque não havia uma outra forma de se apontar os erros do sofrimento de um povo. Isso através desses apontamentos que amanhã podia deixar e haver talvez um seguidor ou, não digo um seguidor, alguém que se lembrasse desses apontamentos e ir averiguar para a história, nos arquivos, o que havia no passado em relação a isso. As minhas obras remetem-se para a vida da sanzala, onde cresci, onde vi o sofrimento dos meus contemporâneos, os mais sofredores. É dentro deste espírito que eu dedico mais os livros à vida social de um determinado povo, porque hoje, se verificar, a maior parte que escreve raramente o faz sobre a situação de uma sanzala ou de uma aldeia. Dedicam-se a seguir a poesia de Camões, Aquilino Ribeiro, Júlio Dinis e outros. Para mim não. Eu entendi que o meu modelo é este, escuso de ir correr ali aonde não posso chegar. Encontrei a forma mais simples, a de descrever o sofrimento de um povo, de descrever as danças, os usos e costumes, as suas tradições. Acho que quem, como eu, cresceu na aldeia, numa sanzala... Os meus apontamentos são muito ricos, porque eu vivi a circuncisão, os ritos, aprendi... Penso que pouca gente se dedica a isso. Fui às danças, compartilhei toda a vida de um povo agarrado às suas tradições. Eu participei e, quando me desprendi dessa situação para uma outra vida, uma outra visão, então comecei a descrever e a deixar ficar para não se perder, à posteridade.

P: Poderia, então, descrever-me um rito tradicional, na voz da primeira pessoa?

R: Um ritual?... São tantos, tantos... Pedido assim de choque leva tempo. Por exemplo, resumindo, o da circuncisão. Lá na área, todo o homem, todo o miúdo ou rapaz que não for circuncidado é considerado um «traz azar», no meio, quer dizer, não faz parte do clã, nem da tribo, nem pode casar. Sofre sempre chacota, é um desprezado. Na circuncisão, quando aparecem os ngangas, os cirurgiões para fazer esse trabalho, eles vêm com paramentos e vestuário próprio do ritual. Primeiro, os pais das crianças convidam o nganga, que é o cirurgião (nganga é o nome mais vulgar dedicado a outras figuras de destaque; nganga é ‘mestre’, mas, neste caso, é o cirurgião). Paramenta-se, os miúdos ficam todos alinhados, nus, ao lado de um mais-velho, o acompanhante, pois cada menino tem de ter alguém que o acompanha. Portanto, os miúdos estão alinhados, nus, virados para o outro lado, dando costas ao nganga, e o nganga, pintado de encarnado e de pó branco, mascarado, com um chapéu com penas de aves de rapina, com guizos na cintura, com um machadinho pequenininho e a sua faca (bisturi). Vem com os seus ajudantes, um deles pega no miúdo, fá-lo sentar numa pedra mágica, mas antes desenha com o indicador uma linha horizontal na testa com um pó, depois, passa-lhe na cintura outro pó, fá-lo comer um outro pó e deita uma outra pitada na língua. A operação demora uns segundos. A faca que corta dez ou trinta garotos é a mesma e nunca infecta. Aí não se pode gritar pela «Ai, minha mãe!», só pode gritar pelo «Ai, pai!». Eles ensinam-nos antes como é que se deve portar durante a operação, que se faz debaixo de pífaros (que a gente chama jimbendu) para abafar o choro dos meninos operados. As mulheres não podem visitar aquele lugar. Mesmo quando é para levar a comida, por exemplo, elas chamam pelo acompanhante. O alpendre (enfermaria) é construído fora de casa, fora da sanzala, fora da aldeia, num descampado, onde se faz uma casitazinha e onde se realizam os ritos. Aprende-se a cantar, aprende-se a disciplina da área, aprendem-se alguns ritos do futuro, como se pode ser homem, e aprende-se a razão porque houve a circuncisão. É o que me lembrei desta vez. Para completar isso, leva tempo, porque isto é um rito muito sagrado e secreto, complicado, místico, ...

P: É um rito muito importante de iniciação social? É só a partir daí que os meninos passam a ser considerados socialmente?

R: Só, só. Até aí eram desprezados. As meninas, uma vez que não foste circuncidado, dizem «Você não é homem, não é nada», correm contigo. Quer dizer, o indivíduo não é nada. É obrigatório naquele meio social, naquela área.

P: Tendo vivido numa aldeia, pode dizer-me se fazia sentir-se a influência de Luanda? Havia dois mundos à parte, o mundo da cidade e o mundo rural? Eram muito afastados?

R: O mundo urbano e o mundo rural... Para já, o mundo urbano era visto como não sendo o nosso próprio mundo. Por exemplo, os filhos que nasciam na sanzala e fossem para a cidade traziam outros usos e costumes que iam chocar com os usos e costumes daquela área. E depois, o mundo rural já tem alguma interferência do mundo urbano lá na área.

P: É muito próximo de Luanda?

R: Sim, eu nasci a 80 Km. de Luanda. Mas a visão de quase toda a gente que viveu no mundo rural era ir e ser absorvido na grande cidade. Eles só viviam das lavras, ou das pescas, ou fazer tecidos, fazer fechaduras de madeira. Quem viesse do mundo da cidade, de Luanda, ia com determinados comportamentos que eram considerados vícios da cidade, que podem contaminar a área social da sanzala. Eu penso que havia sempre uma luta, sobretudo com os velhos, que estavam agarrados à sua tradição. As relações não eram muito boas quando os filhos voltavam. Mesmo os próprios pais, que nos mandaram estudar lá, já não podiam ter determinadas conversas connosco. Vêem-nos como se fôssemos já uns alterados; chegou a esse ponto, às vezes. Quando temos alguma coisa para perguntar, quando queremos saber de algo que se passou naquela época, e dizemos, «Olha, como se passou isso no tempo tal?», o velho começa a contar, mas quando pegas no papel, ele fala «Alto!». São coisas do passado, não se escrevem. Mas depois foram-se habituando. Hoje, ainda vamos encontrar essa mesma dificuldade de entrosamento entre o filho que cresceu na sanzala e aquele filho que vem da cidade. Nós até nem podíamos casar com as raparigas da cidade, porque, por vezes, é difícil, é muito difícil que a rapariga da cidade vá submeter-se aos hábitos da sanzala, não está habituada, não está educada. Para ela é um retrocesso. Perante esta situação, as mães viam a nora como se fosse superior aos próprios sogros. Evitava-se. O filho traz a mulher, vem e volta, mas não fica na área.

P: É uma dificuldade de entrosamento semelhante à do «Mestre» Tamoda?

R: O «Mestre» Tamoda foi a Luanda, como viu na história, volta e começou a perturbar logo a sanzala, apesar de no tempo dele, naquela sanzala ter havido já luzes e o comportamento ser diferente. Mesmo assim, o «Mestre» Tamoda comportou-se para revolucionar uma determinada camada de miúdos e deu aquela «barraca», como se chama, deu a «barraca» que deu.

P: O «Mestre» Tamoda existiu realmente?

R: Existiu, mas não tão elaborado. Ele existiu e eu consegui valorizá-lo e colocar no devido lugar de que eu pensava que ele estava a pensar assim. Eu fiz parte dos discípulos do “Mestre” Tamoda, há episódios que eu conto que são verdadeiros.

P: Fiz-lhe a pergunta porque, ao ler os seus livros, fico com a sensação de que todas as personagens existem mesmo realmente, que não são apenas personagens, mas também pessoas.

R: Nem todas. «Mestre» Tamoda existiu mesmo, mas eu dei um jeito para criar situações de ficção. Agora, por exemplo, Manana, sendo o livro onde mais personagens arranjei, não existiu. Parece que agora vai haver uma peça teatral de Manana...

P: E José das Quintas, é o próprio Senhor Deputado Mendes de Carvalho?

R: R [Risos] Este não existiu. Sou e não sou. Mas estava-se numa sociedade em que as autoridades administrativas eram reis; podiam mandar matar, ninguém os castigava, criticava. Eram senhores absolutos, com dinheiro, poder e força. Era uma situação muito humilhante e era preciso fazer uma denúncia, dizer qualquer coisa. Mas como é que eu o podia dizer? Tinha de ser eu vestir-me de sujeito branco, nascido em Portugal, para não ser de segunda classe, porque o branco natural de África é branco de segunda classe. Para uma pessoa poder discutir com o chefe de Posto, com o administrador, com os comerciantes e todos os outros de influência colonial na área, era necessário buscar alguém, mas alguém que tinha uma costela de um rei e era respeitado, para ter determinada influência e poder falar. É esta a ideia por que eu arranjei o José das Quintas. De resto, eu não conhecia ainda Portugal quando escrevi o livro, nem sabia onde ficava o Porto. Às vezes, por conversas que alguns colegas contavam, ia ouvindo, ouvindo, criava uma ideia e escrevia para passar o tempo. José das Quintas não existiu «de carne e osso», mas, na imaginação, deu o das Quintas vivo.

P: Essa forma de denúncia do passado colonial visa fazer um balanço?

R: É balanço...

P: E, como mais-velho, como li num texto seu «contar é um dever que a tradição obriga a qualquer mais-velho» [in «Histórias de Mais Velho», JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 726, 12 de Agosto de 1998: 21], que testemunho quer deixar para as gerações que não viveram esse período do passado colonial português?

R: Talvez o ditado seja português, que «quando morre um velho, morre uma biblioteca». Não sei se o ditado é português ou é africano.

P: Penso que é africano, de Hampaté Bâ.

R: Porque eu agora estava a precisar de alguns dados que já não posso ter. E arrependo-me, pois, quando saí da cadeia, encontrei alguns velhos vivos e podia obter determinadas informações, mas não consegui e hoje, quando verifico que tenho de ir consultar os velhos, não os encontro e, se restam alguns, são amnésicos. Já tenho setenta e oito anos e a maior parte que estou encontrando são jovens. Preciso de um dado de um tempo passado, de algumas coisas passadas e não encontro! É por isso que convém agora, e é isso que tenho aconselhado a todos, escrever aqueles episódios que sabem do passado e que um dia vão complementar a história do passado. Convém escrever, ainda que penses que não presta, mas temos de continuar isso. Depois, haverá um técnico para traçar e dar um tratamento especial. Portanto, os velhos, para mim, merecem um destaque especial. Conheci um velhote, dois, já morreram os dois velhos, que me inspiraram muito, contaram-me uma quantidade de histórias. E vêm-me às vezes episódios antigos e dados de determinadas famílias, que eu conhecia as suas relações familiares e as suas relações de amizade, que alguns pormenores são tão ricos que nunca os tinha lido ou ouvido falar em parte alguma.

P: Quais são as fontes que utiliza para a composição da sua obra literária? São esses testemunhos dos mais-velhos?

R: Testemunhos dos mais-velhos, alguns livros só para complementar. Mas, como vê, eu encontrei e encontro uma dificuldade, a escrita. A minha linguagem não é literária. Eu reconheço isso, mas tenho a minha forma de escrever e, como dizia o António Jacinto, «Não, eu, se corrigir o seu livro, você não vai ser identificado. Segue sempre este ritmo, eu não posso interferir». Então, pronto, e comecei a seguir o ritmo-rumo aconselhado. E bilinguismo, também utilizo muito, e quimbundualizar algumas palavras, aportuguesar algumas palavras, isto é o meu forte. A minha escrita foi muito influenciada quer pelos acompanhantes e quer pelo meu estar dentro de uma sociedade. Nasci na sanzala, vim para o meio urbano e depois comecei a subir, estudando, lendo, mas nunca esqueci a raiz. Não esqueci, não esqueço.

P: Ainda em relação às personagens dos seus livros, eu noto que todas elas acabam por ter um lado cómico e, ao mesmo tempo, um lado trágico. Por exemplo, o desenlace de algumas personagens, de Kahitu ou mesmo do «Mestre» Tamoda, é trágico. Porquê essa opção?

R: Nunca dei conta disso. Nos filmes europeus, geralmente, os principais actores da cena não morrem, senão acaba a peça. Nos contos à moda africana, os grandes artistas morrem quase sempre antes do fim do episódio para dar lugar à «sucessão» e à criatividade. É um enigma mágico. O que é bom dura pouco, o que muito atrai muito cansa. O drama de Kahitu faz parte das histórias que eles contavam no antigamente, para enaltecer uma divindade, porque o meio em que se vive é aquele. E também para contrapor determinadas imposições das igrejas. Eles lutaram para isso, lutaram contra a igreja por destronarem aquelas divindades que já tinham dos antepassados. O pendor para os imbanda, os feiticeiros, é para saber de onde nós viemos antes da igreja e da luta entre a igreja e a nossa população. Embora as civilizações e a cultura não sejam estáticas, pois cada um passa ao outro e assim sucessivamente, eu às vezes penso, se nos tivéssemos mantido assim, sem as influências das outras igrejas, das outras doutrinas religiosas, como poderiam viver aqueles povos? Não sei. Pode responder-me a isso?

P: Não... Então, na sua Obra, há a preocupação com a questão de uma identidade...

R: Identidade cultural.

P: Mas de toda Angola? Será que pode falar-se de uma identidade cultural angolana?

R: Eu queria que assim fosse, de toda Angola. A minha tendência é escrever sobre a vida social e os meus livros, geralmente, têm muita audiência, porque é ali que outros escritores e, ultimamente, a nova juventude vão buscar a identidade cultural. A identidade cultural, o que desapareceu! Como cada nome que eu tenho ou todos nós tínhamos até uma certa idade tinha um significado, uma história. Temos o nome português, mas, antes de termos o nome português, que só se sabe depois dos três ou quatro anos, temos o nome de casa. Este nome de casa pode dizer algo sobre a identidade cultural. E para nós perpetuarmos tudo o que já desapareceu, escrevemos os livros e, quem os ler mais tarde, irá encontrar a identidade cultural.

P: E o que significa Uanhenga Xitu?

R: É ‘o poder é odiado’. Numa aldeia, ou numa cidade, o Presidente da República, por exemplo, leva o poder. Como ele é odiado, tem de rodear-se de polícias, agentes, guarda-costas, carros, sirenes, de toda a protecção possível. Em, kimbundu, Xitu é ‘carne’ e Uanhenga é ‘pendurar, levar a carne’ ou ‘andar com a carne pendurada’, que, traduzido literalmente em português: ‘o poder é odiado’. Como os sobas, por exemplo, contam sempre com os inimigos à espreita.

P: Ou o ministro Kuteku, do livro O Ministro, quando foi à sanzala.

R: São episódios de ficção. Como é que podia ser, não ter problemas, a maneira como foi recebido, o aparecimento dos oportunistas. Aquele homem que andou na guerra, no maquis, fez-se automaticamente um soba com poder. Aquele grupo ou comité de acção de um partido que estava a usurpar o poder dos antepassados do sobado. Aquele que vestiu a bandeira e começou a dançar chama-se Comité. Alguns ainda não deram conta como é que o M.P.L.A. começou a usurpar o poder, a pouco e pouco, com o tal Comité. Um dos erros que o M.P.L.A. comete é esse, e vai encontrando sempre dificuldade. Ultimamente, salvaguardando, é que está chamando os sobas tradicionais, também conhecidos por «autoridades tradicionais». Está chamando determinados elementos que nem têm sangue «azul», a costela de autoridade tradicional. Esqueceu-se que havia algo na sanzala, porque nos outros países, por exemplo, no Gabão, no Congo e mesmo na África do Sul, os reis e sobas têm um lugar especial. Ali, foram desprezados e começou a indicar os seus «Comités». Alguns deles até eram, antigamente, filhos de escravos! Isto cria uma cisão muito grande no meio social e problemas no partido que têm os seus reflexos. Mandou chamar os sobas, mandou pôr chapéu, fato, emblemas (divisas) nos ombros, dá-lhes um x monetário por mês, mas já não é a mesma coisa. É uma lacuna de que o partido se vestiu provocado por uma ideologia. Eu às vezes digo que há ideólogos e idiotas, porque um ideólogo que faz um estudo errado é um idiota! Quando critico, eles ficam zangados. «Não se deve dizer!». Não, há ideólogos e idiotas. E quando se convida um ideólogo para fazer uma análise de um tema ou de uma situação e vem o contrário, é um idiota [risos]. Portanto, isto vai até à forma como se é recebido e tratado.

P: Como a esposa de Kuteku, que é de Luanda, e não foi à sanzala.

R: A esposa de Luanda não foi à sanzala. Aí está a luta que eu lhe disse. Pode ir, mas não se adapta. Ir com o pote tirar água do rio, da fonte, por exemplo. Os costumes de uma senhorinha da cidade chocam com a sogra e coloca o filho numa posição difícil, porque, às vezes, este filho tem irmãos cujas mulheres (cunhadas) são de lá e nota-se a diferença. E quando vem uma nora que está destribalizada, aquela sanzala resmunga: «Trouxe-nos uma civilizada que vai mandar em nós!». Porque a ideia é de que a nova geração comporta-se como a «civilização de branco». E como o branco, quando chega na área e começa a entrar, a entrar, até que vence em todos os pontos. Eles pensam que esta menina que vem da cidade aprendeu tanto como o branco de quem se deve desconfiar.

P: Como é feita a história de Angola, é pela voz dos poetas e escritores ou é pela voz dos historiadores? A verdadeira história de Angola.

R: A história de Angola é verdadeira. Mas é feita pelos historiadores e pelos velhos, com uma lucidez e uma memória que metem inveja, pela via da oralidade. Todos os escritores declamaram e apontaram algumas linhas, mas são os historiadores que escrevem a história de Angola. E os sociólogos também, como o Padre Carlos Estermann. Havia um outro, um escritor que escreveu sobre as Lundas, Castro Soromenho. Ele entranhou-se bem lá dentro e conseguiu fazer a sua arte, o que hoje já ninguém faz e com muita pena! Há bons escritores, mas nem todos conseguem penetrar lá, tal e qual como ele e outros o fizeram. A história é verdadeira, mas está deturpada. Isto é, a história é história e, à medida que o tempo vai passando, vão-se corrigindo alguns aspectos. A nossa história é verdadeira, mas é preciso ir aos arquivos aqui em Portugal, no Vaticano, na Holanda. A Holanda tem muita história nossa e os investigadores (historiadores, sociólogos, etnólogos) devem ir a esses lugares para fazer uma história capaz, porque o resto está muito deturpado. Escrevia- -se por conveniência própria, por conveniência da época e também do regime político, e essa não é a verdadeira história, mas a história de Angola é verdadeira. Agora é que estamos nós a procurar fazer a história, mas já não encontramos determinados dados. Eu digo aos jovens que conseguirem estar com as mães ou os pais que lhes contem histórias, para as apontarem. Erradamente, que não sirva literariamente, mas talvez saia qualquer coisa boa para aqueles que sabem mais poderem cultivar e dar-lhe outro aspecto. Eu incito-os nisso. Por exemplo, na União de Escritores Angolanos, às vezes aparecem livros de alguns jovens que não «prestam». É natural, pois muitas vezes não se pode comparar com um livro escrito por um Luandino, por um António Jacinto, por um Pepetela ou por outros que vão aparecendo. Você recebe a obra, dá a corrigir ou ele corrige, porque se dissermos ao jovem escritor logo de cara «Isto não presta, é para deitar fora», comete-se um erro grave. Pode matar um futuro bom escritor.

P: Em sua opinião, o que o distingue dos outros escritores?

R: O que me distingue? É que os escritores são vários... Eu distingo-me dos outros escritores por ser eu mesmo, o Uanhenga Xitu, não posso ser mais nada...

P: Eu fiz-lhe essa pergunta porque é considerado o escritor mais africano das literaturas africanas escritas em Português.

R: Sim, o escritor mais africano?!... É o meu estilo, mas é preciso ter coragem, porque tem de enfrentar-se sempre uma luta com os cargos: o escritor mais africano?!

P: Alguns textos seus aproximam-se da maka tradicional, da história que mistura ficção e realidade, com um objectivo didáctico. Essa opção é intencional?

R: Às vezes sim.

P: Ou é também fruto da educação que recebeu, das histórias que ouviu?

R: Aquilo é uma mistura, é intuição. Às vezes, é propositado. Depende. É a minha maneira de estar e de ser. O meu estilo é esse, mas posso escrever de outra forma... Agora tenho uma obra para acabar, mas está um bocado difícil, que é o Ponto Prévio, Senhor Presidente.

P: Anunciada em Cultos Especiais.

R: Sim. Está um bocado difícil. Esses Cultos Especiais já me custou e tem-me custado. «Avisos prévios» não agradáveis. E como aconteceu com «o cão do ministro é ministro», isto é a realidade. O cão do ministro é ministro! Eles ficam zangados... Quando alguém se lembra de querer dar uma piada a qualquer dirigente, às vezes lembra-se de dizer «Como dizia no livro O Ministro, «o cão do ministro também é ministro»» [risos]. Eles sabem muito bem... Este é o meu estilo.

P: Vários estudiosos de literaturas africanas falam da angolanidade. Para o Senhor Deputado, existe angolanidade enquanto marca literária de Angola ou existem várias angolanidades?

R: Eu não sei definir bem essa angolanidade, quanto à literatura. Não sei se podemos partir do princípio que a angolanidade é o que se escreve sobre Angola ou se há angolanidade porque o escritor é angolano. Já me fizeram várias vezes essa pergunta e eu não encontro uma resposta. O que se pode dizer com isso? A escrita lusa é lusa porquê? Porque o escritor está a escrever sobre Portugal e as suas colónias ou porque ele é português? Eu fico na mesma. Angolanidade literária... não sei. Não encontro uma resposta certa, que me satisfaça, quanto mais a quem me pergunta! Fico na mesma... E às vezes há a discussão: o que é a angolanidade? Mas o que significa angolanidade? É porque estou a falar a língua ou porque, na vida tradicional, ainda tenho de vestir peles como antigamente, tenho de andar descalço, com a enxada na mão, não podendo utilizar a catana que foi feita por outros povos? Quer dizer, o que é que me define a mim essa angolanidade da literatura angolana? Eu não sei...

P- Novamente sobre as suas obras. Porquê sempre a presença de crianças, o tema da infância?

R: Porque elas fazem parte da sociedade e eu, quando escrevo, estou a chamar a atenção. Quando escrevo, não me completo sem chamar a atenção para esta futura geração, quando se levantar, encontrar dados para prosseguir, para continuar. É por isso que eu dedico muito às crianças. Fazem parte da sociedade, são o meu futuro. Eles estão a aprender muito, a frequentar a universidade, já leram muitos livros e conseguiram engolir matéria universal. Enquanto eu tinha limitações... Dedico um pouco de atenção nas minhas obras às crianças, porque são meu futuro e sei que serão a continuação, que vão corrigir determinados dados dos meus livros.

P: Para que lhe serve a escrita, pessoalmente? Que satisfação pessoal lhe dá?

R: Para mim é o paraíso! É ali que eu encontro a minha liberdade. Quando estou a escrever, estou a falar com o meu livro. Eu faço o que quero, nada nem ninguém me impede. Estou a fazer aquilo que eu gosto e quando o livro me fala também, é a minha felicidade, sinto-me muito alegre e satisfeito! Porque ali ninguém está a pôr barreiras, não. Eu e o meu livro. É a satisfação que me dá, sinto-me muito, muito feliz. Quando escrevo, às vezes peço a alguns colegas escritores para darem uma opinião e alguns dão. É só uma questão de forma. Às vezes no texto, pode ser «esta» ou «essa», cai melhor «mesinha» ou «mesita». Dizem-me «Porque escreveu «mesita» e não escreveu «mesinha»? A líquida cai muito bem. Põe «mesinha» em vez de «mesita»». Para mim, escrever até é uma necessidade, porque eu remeto-me no meu mundo da escrita, faço de conta que me isolo. Não está lá ninguém. Eu começo a fabricar o meu mundo. Vejo as árvores, as ribeiras, o pássaro a cantar e outros a voar e sobrevoar!... Vejo aquelas mulheres a andar com o cesto na cabeça, a subir e a descer montanhas e vales, com um sorriso agradável. Quando estão tristes, choram, quando estão alegres, gritam, num riso... É todo o tipo africano que também está desaparecendo, num sorriso aberto... «Ah! Ah! Ah!» [simulação de uma gargalhada]. Eu construo o meu mundo através destes livros e à medida que vou escrevendo, não sei... fico...

P- E a presença da natureza nas suas obras, também é muito importante?

R: Oh! Muito. Quando estou a escrever um livro, arranjo uma verdura, uma árvore bem grande. Por exemplo, uma árvore bem grande e bonita como a de Kunjinkise, n’ Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem..., aquela rapariga que foi mordida por uma cobra. A paisagem!... A paisagem!... É muito bonita...

P- A paisagem é sempre bonita nas suas obras.

R: A que eu construo é, enquanto descrevo a paisagem. A paisagem é tudo... A chuva! Tudo isso faz parte da sociedade que nos cerca, que vive connosco. Embora não seja uma pessoa, é um objecto que influencia e chama-nos a atenção. Tem de ser descrito, tem de ser descrito... Eu gostava que fosse assim, mas às vezes não consigo entroncar determinados textos de descrição da natureza. Há aqui dois escritores, que foram médicos, já morreram. Gosto muito deles, escreveram histórias pequenas sobre as aldeias... Fernando Namora e Miguel Torga. Eu comprei alguns livros deles que tinham histórias bonitas. A maneira como eles escreviam com o vocabulário da área, a linguagem da sua aldeia. Eu encontro essas mesmas palavras em kimbundu, mas, ao querer transportá-las para o português, não pega, não soam bem.

P: E porque não as escreve em kimbundu?

R: Ainda complico o leitor... [risos]

P: Profissionalmente, como se define, como político ou como escritor? Onde começa Uanhenga Xitu e acaba Mendes de Carvalho?

R: Uanhenga Xitu é nome próprio, meu mesmo. É o meu nome que os pais me deram. Eu não confundo muito o político e o escritor, porque quando eu pretendo fazer a política esqueço o escritor. A escrita, para mim, é um prazer, é o meio de que me sirvo para o meu prazer, esse é o número um. O resto, o político, serve para lutar para corrigir erros, para alertar, para chamar a atenção e criticar. E como faço, às vezes, veja em Cultos Especiais. São cultos especiais... Quer dizer, todo o homem ou o tudo que é especial é anormal. Tudo o que é especial não está na ordem, é uma coisa extra. Há governantes que, quando fazem os seus cultos especiais, autodenominando-se, são anormais e às vezes vão tão longe ao ponto de cometerem erros crassos. Tudo o que é especial é anormal. Repito que o que é especial não está na ordem, é anormal, é... [risos], não está na ordem.

P: Tem alguma personagem favorita nas suas obras?

R: Não sei... Tantos...

P: São todos especiais?

R: Não, não tenho, mas há um livro que me chama a atenção, a Manana... E o Kahitu. Muita gente gosta muito do «Mestre» Tamoda, livro esgotado, mas eu não tenho tanta afeição e dedicação como com a Manana. Gosto de todos os filhos, os meus livros são os meus filhos, e o pai pode amar a todos, mas tem uma tendenciazinha, ainda que não se demonstre, mínima, para com um determinado filho. E é o que acontece comigo, eu tenho um especial carinho pela Manana. É que, bem contornado, vemos que a Manana mete a igreja, vai à Funda, mete imbanda, volta, há a aldrabice daquele rapaz, do Felito, o namoro,... Há de tudo um pouco. Se alguém puder agarrar na Manana e fazer melhor do que eu, ficaria muito satisfeito. Não sei como consegui produzir a obra! Aqui tudo é ficção, ficção que tenho de ter sempre presente. Ficção sim, mas tive de recorrer a figuras reais, a imagens vivas. Ver a imagem dessa pessoa quando anda, quando come, quando se ri, raciocinando que existe. Na obra da Manana, há histórias que podem ser estudadas em termos científicos. Aquele óbito da sogra do Felito, como aquela sociedade vivia, o baile com o gramofone, como é que conseguiu tirar a ira, o desgosto da rapariga, da própria Manana, da aldrabice daquele rapaz, o Felito. Tudo se viveu, e vive-se, só que não encontro personagens reais, senão pela imaginação e criação da personagem que vou sonhando; acompanho-a na procissão, na igreja: a Manana lá vai e eu de longe, a esticar o pescoço para ver quem está no meio e o que fazem... Julgo, sonhando, que a Manana está a ver também, embora esteja cantando na igreja, a seguir à procissão. Perco- -me totalmente... Enfim, tudo isto é um pouco de toda a sociedade na época própria, define a sociedade, aquele quintal com o gasómetro e o baile colocam-se numa determinada época. Em que época podia ter ocorrido isso? Só nos anos de tal. Porque hoje já não há candeeiros a gasómetro, temos electricidade. É essa sociedade que eu descrevo. E n’O Ministro, aquela velhota que, quando o filho foi nomeado ministro, mandou queimar tudo!... Aquilo é uma ânsia normal. O desejo de os velhos viverem bem, de verem um filho bem, é normal ainda hoje. Quando alguém é nomeado ministro, a aldeia onde nasceu o ministro, o amigo do ministro, a família do ministro também já são ministros. Até o cão do ministro é ministro! Ladra de outra forma. O cão do ministro ladra de outra forma, quando ele diz “ouh! ouh!” [onomatopeia], com grandeza. Ele é irracional e apercebe-se que o patrão subiu. Talvez a ração seja diferente, dêem já leite, já é lavado com sabonete, ao passo que o outro, o cãozinho rafeiro ladra de outra forma, «nhé! nhé!» [onomatopeia]. Até o cão, um animal... [risos] ladra diferente. O irracional sente que alguma coisa mudou na vida.

P: Há pouco, a propósito de Manana, falou-me do óbito. Qual é a importância social que a cerimónia do óbito tem em Angola?

R: O acto ou cerimónia do óbito é muito enraizada na sociedade africana. É de suma importância. Mesmo para aqueles que são doutores, que já viveram outras culturas ditas superiores (não são superiores, porque todas são iguais), aquilo enraíza no nosso sangue. Para nós, termos um morto, é uma ligação de muita tristeza e é preciso prestar homenagem ao defunto tal e qual, ou parecidamente, como os nossos antepassados faziam. É por isso que no óbito há preceitos, há ritos para cumprir com muito respeito. Não sei se na Europa o sentimento é igual. Em África, o falecido, mesmo que em vida fosse um gatuno, bandido, ali no enterro faz-se o elogio fúnebre com todos os bons defeitos, quando se sabe que ele era um bandido! Qual é o medo que os vivos têm? Qual é o receio? Alguém morreu, foi enterrado hoje. Oito ou nove dias depois, temos de fazer o chamado «comba» (kukomba tambi), um outro ritual que obedece a uma determinada regra, onde cada pessoa tem de oferecer um x em dinheiro ou em espécie para ajudar na despesa do óbito. É isso, para nós, o óbito é um símbolo muito importante da nossa vida social, e não podermos descurar-nos dele. Até podemos estar muito longe, mas quando sabemos que «morreu fulano de tal», enfim, contribui-se, ainda que seja com cinco ou três euros. Por mais que queiramos desprender-nos dele, não podemos. Estamos amarrados por ondas invisíveis. Vai-se à igreja, o enterro é religioso, mas, depois da religião, vai-se lá no tradicional. E todos, ministros e outros, o próprio Presidente da República, vão no tradicional. Isto identifica-nos. Não sei se é a isto a que se chama angolanidade. Parece que são estes usos e costumes que fazem a tal angolanidade, não é? Talvez sejam os usos e costumes que nos identificam.

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