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José Craverinha e Paulina Chiziane: Identidades Questionadas, Moçambicanidades Revisitadas

Escrito por  Cândido Rafael Mendes
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Neste trabalho poderíamos listar inúmeras características semelhantes entre José Craveirinha e Paulina Chiziane: ambos moçambicanos, escritores consagrados em seus países, conhecedores da cultura ronga, porém iremos destacar que ambos possuem laços afetivos e ideológicos fortes com sua terra natal.

José Craveirinha nasceu em Maputo, em 1922, filho de português e mãe moçambicana, o poeta trabalhou muitos anos como jornalista na mesma cidade, onde enveredou para a literatura. Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, em 1955, e ainda criança foi morar em Maputo, oriunda da cultura chope, transferiu para o romance, a oralidade do seu povo, legado cultural da tradição banto. Cantar em versos e escrever estórias sobre a terra em que vive é característica das artes, afinal "a literatura é também um produto social"i. Criar, questionar, recriar, revisitar as fronteiras que permeiam a identidade de um povo tornou alvo de muitos literatos em países manchados pelo sangue vertido pelas guerras coloniais.

As literaturas pensadas e produzidas em Moçambique nos períodos pré e póscoloniais foram atreladas aos questionamentos acerca das identidades culturais dos seus habitantes. E então nesse contexto surge uma expressão relativamente nova intitulada moçambicanidade.

A busca por identidade(s) nacional(is) parece ser mote preferido por escritores emblemáticos como: Rui de Noronha, Rui Knoplfi, Noêmia de Souza. Esses, segundo Almiro Lobo, imprimem um caráter protonacionalista às suas obras, cada qual com sua linguagem, contexto e atitude.

A moçambicanidade, termo que alude à exaltação e questionamento dos costumes nacionais identidários é assunto recorrente nas obras dos escritores e poetas mais significativos da antiga colônia portuguesa. Craveirinha, poeta consagrado e Chiziane prosadora/contadora de estórias das pioneiras no país banhado pelo Índico não abrem mão de pensar Moçambique sob o olhar multiétnico dos seus conterrâneos. Esses também homenageiam, através de sua escrita, a oralidade proveniente da ancestral cultura banto.

Para estabelecer um diálogo breve acerca da moçambicanidade "reinventada" selecionei a poesia "Ao meu pai ex-emigrante", de José Craveirinha e Niketche, de Paulina Chiziane. Se na poesia referida de Craveirinha há elementos que questionam a cultura de sua família, no "romance" de Chiziane a formatação de uma ou várias identidades moçambicanas como apresenta Niketche, mostra como as literaturas revisitam temas recorrentes apresentados ao longo dos anos. Para Pires Laranjeiras as poesias caudalosas de Craveirinha "interrogam a identidade dos predicadores, suas origens e herança cultural" sendo fundamental para a construção da identidade não só nacional, porém subjetiva.

Essa interrogação ganhará um "olhar circunspecto" em Niketche, pois projeta uma nova dimensão, agora fragmentada pelo reflexo fragmentado da narradora-pesonagem, Rami.

Se em "Ao meu pai belo ex-emigrante" o predicatário recorre à figura do pai, português que chegara à África em 1908 e trabalhou na polícia durante muitos anos, até descobrirem suas idéias "subversivas", em Niketche, Rami estabelece diálogos com seu espelho, suas rivais, o marido Tony, familiares, como sua mãe e tia, para mergulhar em sua origem feminina, no intuito de descobrir-se como mulher. Para uma leitura mais relacionada com o tema exposto torna-se interessante reportar essa descoberta pessoal da protagonista do romance à tentativa de reconfigurar a cidadania moçambicana.

Não queremos pôr em discussão o suposto caráter biográfico da destacada poesia de Craveirinha, para tal teria versos suficientes para esse argumento. Porém o que destaco em alguns versos mostra que a fusão de muitas culturas interferiu no quadro multiétnico de Moçambique: "Oh, pai:/Juro que em mim ficaram laivos/Do luso-arábico Aljezur da tua infância". O emigrante, denominado pelo eu-lírico de "ex-emigrante" aponta para uma indefinição da nacionalidade daqueles que uma vez "nas abafadas noites dos nossos índicos verões"ii participam do processo bilateral da transculturação.

Já a narradora de Niketche credita ao marido adúltero, justificado pela tentativa de recuperação da poligamia, a diversidade das culturas formadoras da recente república africana: "Mas nós já somos uma variação, em línguas, em hábitos, em culturas. Somos uma amostra de norte a sul, o país inteiro nas mãos de um só homem. Em matéria de amor, o Tony simboliza a unidade nacional"iii.

O questionamento a respeito da identidade de um país não é algo novo nas literaturas africanas, as primeiras décadas do século XX foram marcadas por movimentos estéticos nas artes, que ressaltavam, através das linguagens diversificadas que compôs as obras, a pluralidade de vozes, cada uma simbolizando suas origens.

Almiro Lobo atribui a esse momento a expressão: "modernidade literária moçambicana".

Inegável é a questão da construção da linguagem por ambos os autores para identificar traços da cultura moçambicana em suas obras. A língua do colono, alvo da antropofagia, adicionada ao ronga torna-se matéria prima para o diálogo entre vozes que alterou semanticamente, sintaticamente, fonologicamente o léxico do código utilizado pelos moçambicanos. Para Chiziane ainda acrescento a sua musicalidade, influência da cultura chope.

Esses legados transculturais são visíveis tantos nos versos como nas narrativas dos textos aqui citados, vejamos: "e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa/ante meus sócios Bucha e Estica no 'ecran' todo branco/e para sempre no zinco um tap-tap de cacimba no chão"iv. E também: "Aquele que era o líder, o rei, vê o seu reino fragmentar-se diante do ritmo da niketche dançada por suas mulheres, posto que todas delas afirmam-se como ‘mulheres maduras’ e ‘prontas para a vida'"v.

Portugueses, árabes, rongas, macuas, chopes, tsongas e sociedades matrilineares unemse para reconstruir uma trajetória nacional. Para o eu-lírico de "Ao meu pai ex-emigrante" não basta saber o que é ser moçambicano, é necessário descobrir quem é o moçambicano, que diante da exaltação toponímica do país sul africano, constrói o adjetivo pátrio da nação banhada pelo Índico: "eu mais um novo moçambicano/semiclaro para não ser igual a um branco qualquer/e seminegro para jamais renegar/um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue"vi. Ora, se na poesia de Craveirinha há indagações acerca das características físicas do moçambicano, será em Niketche que essas interrogações tornar-se-ão agudas e as mulheres do sul serão caracterizadas através do discurso da personagem Mauá, originária do norte, que é um vértice do "polígono polígamo", definido por Pires Laranjeiras.

Outro recurso estético muito presente em ambas as obras apresentadas, no processo de criação de identidades nacionais moçambicanas, é a ironia, que tem o seu caráter transideológico: na narrativa a ironia apresenta-se com papel questionador da identidade feminina: "Se a poligamia é natureza e destino, por favor, meu Deus, manda um novo Moisés escrever a nova bíblia com um Adão e tantas Evas como as estrelas do céu"vii. Já em Craveirinha esse recurso literário evidencia a transculturação dos sujeitos, através de símbolos estrangeiros presentes em seus versos. Inventar, recriar, reinventar, visitar ou revisitar verbos que não dão conta da versatilidade que Craveirinha e Chiziane imprimem ao aspecto imagético das suas obras. Passear pelos contornos de identidades multiétnicas, sejam, portuguesas, rongas, macuas, chopes, árabes, e outras culturas é estar na fronteira das concepções nacionais, estéticas, ideológicas e pessoais. Sem esses contornos cairíamos numa máxima já superada de nação, a qual recorre ao conceito pobre de essência cultural.

Referências bibliográficas:

CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Companhia editora nacional, 1965.

CHABAL, Patrick. Vozes moçambicanas: literatura e nacionalidade. Lisboa: Veja, 1994.

CHIZIANE, Paulina. Niketche: uma história de poligamia. 2ª ed. Lisboa: Caminho, 2002.

CRAVEIRINHA, José. Karingana ua karingana. 2ª ed. Lisboa: Edições 70, 1982.

LARANJEIRAS, Pires. Vida e obra de Craveirinha. In: Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Universidade aberta, 1995.

LEITE, Ana Mafalda. Literaturas africanas e formulações pós-coloniais. Maputo: Imprensa Universitária/Universidade Eduardo Mondlane, 2003. LOBO, Almiro. "Niketche, uma história de poligamia: a moçambicanidade revisitada". In: Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

i CÂNDIDO, 1965.

ii CRAVEIRINHA, 1982, p. 110.

iii CHIZIANE, 2002, p. 161.

iv CRAVEIRINHA, op. cit., p. 108.

v CHIZIANE, op. cit., p. 160.

vi CRAVEIRINHA, op. cit., p. 107.

vii CHIZIANE, op. cit., p. 95.

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