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Reflexões Sobre a Literatura Angolana

Escrito por  Manuel dos Santos Lima
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Instrumento quotidiano de denominação cultural, as línguas europeias acabaram por se impor às elites africanas ao ponto de se tornarem maioritariamente as línguas oficiais dos Estados da África independente.

Instrumento quotidiano de denominação cultural, as línguas europeias acabaram por se impor às elites africanas ao ponto de se tornarem maioritariamente as línguas oficiais dos Estados da África independente.

A repartição linguística resultante do recorte geográfico arbitrário, tendo criado situações de ruptura de natureza cultural, levou a maior parte dos países africanos a adoptar a língua da sua afiliação colonial. E é assim que hoje, mais de quarenta de entre eles, comunicam, oficialmente, em línguas europeias, contra apenas seis países, que, beneficiários de circunstâncias particulares, puderem optar pelas suas línguas de origem.

Decorridas que são mais de três décadas sobre as descolonizações dos antigos territórios sob dominação portuguesa, a questão da língua continua a não ser pacífica. Não em relação às populações africanas para as quais esse terreno foi de resistência espontânea no entrechoque de culturas, mas para os estudiosos e especuladores da africanidade.

Com efeito, em regime colonial, o Indígena, refugiando-se na sua língua nativa não caía no avilatamento do "pretoquês" e até podia desfrutar do colono, enquanto que o "Assimilado", porque imigrante cultural, ao exprimir-se correctamente em língua europeia era crucificado pelos seus "civilizadores", pois para estes constituía uma contradição aberrante ser-se Africano e possuir a língua do outro, em pé de igualdade. Deste modo, a língua europeia tornava-se uma ambiguidade para o colonizado: ou se riam dele quando não dominava ou lamentavam-no por falar demasiado bem, sinónimo de perda da sua identidade cultural e autenticidade, levantando até suspeitas...

Esta ambiguidade parece não ter sido prevista pelos nos bisavós, divididos entre reivindicações de igualdade de direitos e o estatuto de portugueses "de cor" por um lado e por outro por uma certa tentação das transformações da sociedade indígena. Pela colonização e miscigenação, eles abraçam com fervor a língua portuguesa- dá-se então o advento da lusografia de expressão angolana como resultado do encontro de duas solidões de ordem sócio-cultural: a dos civis e militares lusitanos isolados na colónia e a dos primeiros intelectuais locais de cuja pana sairá o discurso poético-social e nacionalista, entrelaçando o português e o quimbundo.

Uma língua, além de instrumento de unidade e de identificação, é também um fenómeno de comportamento sócio-psicológico e em Angola, tal como nas outras colónias, a língua só ganhou valor cultural e político com o surto das respectivas burguesias, "os filhos da terra", quando em número significativo, os "filhos da terra", se puseram a escrever em português.

Essas literaturas nasceram sob o signo do jornalismo de opinião reflectindo a ordem social, económica e política da vida colonial, dentro do quadro do liberalismo oitocentista português vigente.

A aculturação provocada pela colonização traduziu-se, por parte das elites africanas lusófonas, num esforço de semelhança pela adopção dos modelos estéticos propostos pelo outro.

Nessa perspectiva, o santomense Costa Alegre e o angolano Maia Ferreira, são dois exemplos elucidativos de assimilação cultural nas letras africanas de expressão portuguesa.

Costa Alegre, na sua poesia, consagra o amor do outro pelo auto-desprezo da sua cor, numa longa choradeira romântica onde o homem negro aparece como vítima de uma fatalidade mística.

Maia Ferreira, por sua vez, dedica o seu primeiro livro de poemas "às senhoras africanas" mas neles exalta o "níveo seio", a "alta brancura" e os “cabelos de oiro”, o que nos parece pelo menos desconcertante... Apesar disso há um cosmopolitismo que se instala imediatamente, traduzindo-se em fascínio pluridireccionais. E se obviamente o mais entranhado se orienta no sentido da lusitanidade, há também modelos e referências de origem diversa, nomeadamente francesa.

Será por essa via que os lusógrafos angolanos entrarão na tradição ocidental do texto, em oposição à sua tradição oral.

Segue-se-lhe um fascínio político-literário na direcção do Brasil, de que Angola se tornara, praticamente, colónia. Concomitantemente abra-se uma via nacional que irá consagrar um bilinguismo textual que se manterá até ao panafricanismo da militância poética anticolonial, com laivos folclóricos e regionalistas. Se tomarmos como referência "Espontaneidades da minha alma" obra do já citado Maia Ferreira, dada à estampa em 1849, contamos quase século e meio de literatura angolana escrita em português.

Tendo aprendido a tocar a lira europeia, também abraçara-mos buscando ao mesmo tempo a sua identidade e forjando uma consciência protonacionalista enquanto que os poetas europeus radicados nas colónias consagravam a Vénus negra e em guisa de compensação pela negrura da pele lhe atribuíram uma soma irresistível de predicados físicos. Ela é corpo, é negra-Desejo. Os escritores africanistas farão dela (e da mulata) a mulher-Amante; os intelectuais africanos verão nela a negra-Mãe, identificada à terra-berço.

Como consequência da Conferência de Berlim (1885), Portugal dá início a uma nova política colonial que vai favorecer tanto a imigração portuguesa como desencadear uma cerrada competição entre metropolitanos e africanos. A incipiente sociedade euro-africana desfaz-se, instalando-se a crise na coabitação racial, o mesmo tempo que ganha corpo uma nova estratificação social em que a pele, antes de ser um alvo será um uniforme que determina o estatuto social daquele que o enverga. Daí que a literatura vindoura terá expressão epidérmica, como reflexo das oportunidades económicas, escolares e culturais concedidas pela sociedade colonial. Consequência disso igualmente, igualmente, a escrita produzida em Angola, terá 1975, ano da independência, uma participação de 62% de autores brancos, 34% de mestiços e 4% de negros, constituindo estes 98% da população global.

Com o movimento da Negritude, em que a revolta é considerada um acto iminentemente, cultural, o escritor africano rebela-se, deixa de ser um consumidor cultural para se tornar um agente da sua própria cultura e sujeito da História, embora com um atraso considerável em relação aos literatos afro-americanos dos Estados Unidos, Cuba, Haiti e Martinica, que já no último quarto do século XIX são panafricanistas convictos e orgulhosos da sua herança africana.

A Negritude nos lusógrafos africanos significará, quase unicamente, uma recusa da Assimilação, isto é assassínio da cultura autóctone, que foi um dos pilares maiores da política colonial praticada por Portugal.

Será no pós-guerra que se assistirá ao salto qualitativo da poesia africana lusógrafa. Falo de poesia, unicamente, porque o teatro e o ensaio não tem expressão, e o conto e o romance escasseiam. Recorde-se contudo para Angola os nomes de Assis Júnior, autor de "O Segredo da Morta", Castro Soromenho com "Terra Morta" "Viragem" e "A Chaga" e também Oscar Ribas com a sua étnica. Luandino Vieira escreveu "Luuanda", que lhe valeu doze anos de Tarrafal; Pepetela revelar-se-á contista nos concursos literários da Casa dos Estudantes do Império (Lisboa) e eu próprio publiquei dois romances antes da independência: "As Sementes da Liberdade" e "As Lágrimas e o Vento".

Em Moçambique merece destaque Luís Bernardo Honwana com a sua obra "Nós matámos o cão tinhoso", um conjunto de contos neo-realistas. Na mesma linha, Orlando Mendes publicou "Portagem", considerado o primeiro romance inequivocamente moçambicano.

Em Cabo Verde o movimento claridade assinada desde 1939 a modernidade literária das ilhas e representa a intenção de divórcio de uma temática inspirada dos padrões portugueses, em proveito de uma autenticidade nacional, telúrica e de Caboverdianidade, de que Baltasar Lopes é o patriarca. O seu romance "Chiquinho" é uma marco incontornável.

Espião infiltrado na cidadela, o escritor é perigoso porque maneja uma arma terrível: a palavra! Como dizia Sartre, "as palavras são como pistolas carregadas..."

A colonização tendo sido, como dissemos, uma das causas directas da moderna literatura africana de expressão portuguesa, esta tornou-se facilmente uma literatura engajada, anticolonial. A sua poesia é messiânica; ela desenha a memória do passado e exprime a vontade de Futuro.

O contratado estabelecerá a ponte entre o Escravo e o Colonizado; os caminhos por eles percorridos - itinerário da Dor - identificar-se-ão ao longo Cálvario de todo o povo subjugado.

Genericamente a poesia africana do pós-guerra é um acto de liberdade. O poema antes de ser texto é uma intenção de luta, terreno de denúncia e confronto, um espaço iminentemente social.

Naturalmente que qualquer intenção de sociedade mergulha numa matriz colectiva de revolta e de esperança e que o messianismo é o projecto da imaginação e a atitude de ruptura do silêncio, exprimindo a recusa colectiva face a uma situação histórica insustentável. Por outro lado, sendo toda a expectativa messiânica moldada por um mito director - no caso das colónias portuguesas, a independência - o Poeta será, consequentemente, um militante da Causa, porta-voz dos povos que a colonização tornou afónicos.

O poeta militante é no dizer de Aimé Césaire, um remuniciador de almas, aquele que com a palavra acende rastilhos...

Ao seu lado está o político, o outro porta-bandeira dos oprimidos. Revolta literária e discurso político amparam-se mutuamente: o homem político reivindica a liberdade em nome da dignidade do seu povo, o homem de letras anuncia a madrugada, apela ao combate, inventa a Nação.

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