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A Heteronímia nas Cartas de Amor de Fernando Pessoa

Escrito por  Janise de Sousa Paiva
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Em meio a Ricardo Reis, a Alberto Caeiro, a Alvaro de Campos, fui tomada pela pretenciosa sensação de que, com as cartas de amor poderia desvendar o homem Fernando Pessoa.

Em meio a Ricardo Reis, a Alberto Caeiro, a Alvaro de Campos, fui tomada pela pretenciosa sensação de que, com as cartas de amor poderia desvendar o homem Fernando Pessoa. De um lado, euforia de historiadora, que lá no íntimo guarda o desejo de alcançar «a verdade das coisas», ainda que saiba que das coisas produzem-se verdades e, de outro, receios de iniciante nos caminhos de imagens e sons da poesia. Assim, por alguns instantes pensei: em cartas de amor, ele não me escapa, o homem será fisgado! À tola intenção sobreveio uma mais lúcida percepção, a de que estas cartas nos remetem a sua criação heteronímica e, isto, fez toda a diferença. O modo de ler as cartas mudou e as perguntas também.

As cartas de amor nos remetem a Ricardo Reis, a Alberto Caeiro e a Alvaro de Campos. Ainda que enviadas a Ophélia Queiroz é com estes que dialogam. Um leitor apressado reagiria: «Mas como, as cartas são para Ophélia.» São e não são. E não o sendo inteiramente o são também para o médico reflexivo e comedido, para o homem do campo para quem ver é tudo e para o engenheiro da Civilização Moderna que vive a explosão das sensações.

Trata-se, pois, de um grande enredo. Se bem notarmos, só agora faço alusão a Ophélia, não dando a ela espaço, nem o título deste trabalho. E isto é proposital. O espaço ocupado por Ophélia é um não espaço. E, se de cartas de amor logo se espera saber entre quem e quem se dá o caso, estas são diferentes. São cartas de amor entre Fernando Pessoa e Fernando Pessoa. E é nesta situação intervalar, um tanto atípica, que se encontram. Assim é que Ophélia não precisa de sobrenome nem mesmo de nome, bastando um substantivo que a defina: «bebé».1 Logo se verá que a sua presença não vai muito além de um pretexto em que se esbarra e só faz visualizar o jogo poético e heteronímico do autor.

Se digo que «Ophelinha» praticamente não existiu, é bom dizer que Ophélia Queiroz, esta sim, teve vida de fato. A publicação das cartas reunidas em livro por David Mourão-Ferreira nos dá a conhecer as datas de nascimento, o tempo de duração e os momentos de ruptura do convívio entre eles.2 Entretanto, o jogo da criação poética o permite ser muitos e, inclusive ser o Fernando Pessoa da Ophelinha.

É inevitável cotejar as cartas a Ophelinha a alguns aspectos da trajetória pessoal de Fernando Pessoa 3. A sua história ressoa nas cartas. A morte do pai quando tinha apenas cinco anos, o novo casamento da mãe, a ida, em decorrência deste, para a África e o nascimento de um meio irmão, não deixam de ser revividas, de algum modo, nas cartas. Não querendo reduzi-las às marcas que a infância pode ter deixado na sua personalidade, cerrar os olhos a estas passagens nada acrescenta a esta interpretação e, pelo contrário, seria desprezar facetas importantes que ajudam a melhor ler a «Ophelinha-bébé», reduzida, portanto, à infância.

Se não é de amores felizes que vive o romance, o mesmo se pode dizer destas cartas. No entanto, mais do que isso, estas não falam de um amor feliz ou infeliz, mas de um risível amor. Amor que provoca risos, não apenas pela puerilidade mas também pelas passagens cômicas e mesmo patéticas que estas nos apresentam. Difícil é não rir diante da leitura das missivas, ainda que tenhamos os versos de Alvaro de Campos a nos prevenir:

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.4

O único envolvimento amoroso de Fernando Pessoa foi suficiente para que se possa ler a necessidade de retornar à infância de alguma forma, revivendo a sua condição de eterna criança. Mas foi também, como acabei de dizer, suficiente para nos fazer rir. E é assim, com o riso no canto da boca que lemos as advertências: «Ophelinha pequena: (...) Adeus, Ophelinha. Durma, coma, e não perca grammas».5 E com o riso largo lemos o balbucio exagerado do Fernando de «Ophelinha»:

Bébezinho do Ninho-ninho

Oh!

Venho só quevê pâ dizê ó Bébézinho que gotei muito da catinha della. Oh!

E também tive muita pena de não tá ó pé do Bébé pâ le dá jinhos.

Oh! O Nininho é pequenininho!

(...)

Jinhos, jinhos e mais jinhos.6

Próximo à criança, que no seio materno encontra alimento e prazer, o Fernando de «Ophelinha» tem também a sua fase oral, merecendo a boca papel de relevo entre as cartas. É assim no trecho acima destacado e na passagem a seguir. É importante notar que na única passagem em que o desejo sexual se manifesta, «Ophelinha» não surge como uma mulher. Revelando o jogo do poeta, «Ophelinha» não é mais que um brinquedo; uma boneca:

Terrível Bébé

(...) Gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa e a desculpa ser a fingir (...) e eu gostava que a Bébé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma creança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim.7

Falar das cartas de amor de Fernando Pessoa é também falar de seus heterônimos. O poeta faz emergir em sua obra a multiplicidade de sujeitos, apresentando mundos possíveis e revelando a necessidade de pensar o ser. O esfacelamento do homem moderno e a sua incompletude o incitam a ser tudo ao mesmo tempo, a ser o Fernando das poesias ortônimas, o da Ophelinha, o de Ricardo Reis, o de Alberto Caeiro e o de Alvaro de Campos. Tendo que ser grande para ser inteiro o poeta nada excluiu. E nada excluindo, as cartas de Fernando Pessoa a Ophelinha, pelo contrário, tudo condensam. Foi amando como poeta criador de outros poetas que o homem amou. As suas cartas de amor são um autêntico baralho. Nelas se embaralham infância pessoal e criação heteronímica. Embaralhando-se as cartas chega-se a muitos jogos; chega-se a Ricardo Reis, a Alberto Caeiro e a Alvaro de Campos.

As cartas são para «as pessoas a quem não interessa mais falar».8 É justo por «Ophelinha» lhe interessar pouco, sendo as cartas, missivas de Fernando Pessoa a Fernando Pessoa e seus heterônimos, que lhe escreve cartas. Vive o desejo da infância e não o desejo de Ophélia Queiroz. Vive o amor não realizado no plano físico, que só na infância encontra espaço para existir. E mesmo assim, trata-se de um amor sem paixão, calmo e sereno como as noites de sono que recomendava a Ophélia. Em carta que marca o início do intervalo de nove anos entre as correspondências, é assim que se despede:

Ophelinha:

(...) Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amavam um pouco quando meninos e, embora na vida adulta sigam outras affeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inutil. 9

Nem todos os heterônimos contam com participação explícita nestas suas cartas. Este é o caso de Ricardo Reis. No entanto, ao ler o trecho da última carta citada, em que mesmo rompendo com Ophelinha, Fernando pede para que fiquem um ao lado do outro, como duas crianças que se amaram um pouco, é a presença de Ricardo Reis que se pode encontrar nas entrelinhas. Quem ao ler este pedido não se lembraria da «Lídia» de Ricardo Reis? A «Lídia» de um amor profundo e distante, ilusório e mesmo intelectual? É nesta renúncia, neste afastamento estóico que «Lídia» e «Ophelinha» se encontram; ambas crianças-adultas:

(...)

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes. (...)

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o (...)

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova. Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças.10

Alvaro de Campos tem seu nome lançado nas cartas, sua presença é bem explicita. De fato, outro não poderia ser o heterônimo a comparecer no momento de ruptura entre os dois. A faceta passiva de Alvaro de Campos compõe, de algum modo, as cartas de «Ophelinha». O desejo feminino de ser possuído é revelado pelo autor das cartas nos diversos momentos em que se despede. Este desejo de entrega perpassa o conjunto das cartas e se manifesta com os repetitivos: «muitos beijos, muitíssimos do teu, muito teu, muitos beijinhos do teu e sempre teu»11 e tantos outros parecidos. Esta entrega absoluta pode ser lida, de outra maneira, em «Passagens das Horas»:

(...)

Multipliquei-me para me sentir Para me sentir, precisei sentir tudo, Transbordei, não fiz senão extravasar-me, Despi-me, entreguei-me, E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente. Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino, E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.(...) 12

O autor de «Opiário» apresenta-nos a poucas mulheres ou a mulheres fugazes. Em «Opiário», a mulher aparece uma única vez e recebe alusões superficiais. Trata-se de uma mulher com quem rapidamente se cruza e que não existe na sua individualidade, uma mulher impessoal que só existe em função da sua nacionalidade. Nada mais a define, a não ser o fato de ser «sueca». Qualquer semelhança com a Ophelinha não é, de certo, mera coincidência. Através da associação que o poema faz entre a «a sueca» e a Pátria, logo se vê que esta mulher é uma impossibilidade, e este seu contato com ela é um não estar, tal como se deu entre Fernando Pessoa e Ophelinha. Eis o trecho:

(...)

Não posso estar em parte alguma. A minha

Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.

O comissário de bonde é velhaco.

Viu-me co'a sueca...e o resto ele adivinha.13

Se Alvaro de Campos tem seu nome revelado nas cartas, não menos evidente e especial é a presença de Alberto Caeiro. Não causa estranheza tal afirmação se pensarmos que para o Mestre da heteronímia ver é tudo, vivendo, por assim dizer, o estado da criança. E é pela via da infância que «Ophelinha» e Fernando escrevem cartas de amor. Ainda que seja este heterônimo o mais transparente e objetivo, a imagem de mulher presente no «Pastor Amoroso» se aproxima a de «Ophelinha». A sucessão de cartas não nos deixa pensar em outra hipótese. Neste seu poema, a presença feminina só se faz na ausência. Eis aqui o poeta mais objetivo de todos, se rendendo ao pensar, reduzindo o amor ao pensar. Não é desprezível, neste caso, o fato de «Pastor Amoroso» ser datado de setembro de 1930, ou seja, alguns meses depois do término do namoro com «Ophelinha». Ainda que a mulher do poema não apresente contornos definidos, irresistível é não ver um pouco de Ophelia Queiroz e Fernando Pessoa nos versos:

(...)

Se não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela

(...)

E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.14

Foi, pois, ao direito de pensar que se voltou o poeta Fernando Pessoa. Para nós, leitores, ler suas cartas de amor é um caminho a mais para analisar a heteronímia como processo filosófico de pensar o ser. E pensando o ser, não titubeou, decidiu ser Ricardo Reis, Alvaro de Campos, Alberto Caeiro e o Fernando de «Ophelinha». Tendo que ser grande para ser inteiro, teve que ser todos para poder ser. Não teve dúvidas, foi isto e aquilo.

Referências Bibliográficas

Yvette Centeno, «Fernando Pessoa, Ophélia, bébézinho ou o horror do sexo» in Colóquio-Letras, no 49, Lisboa, Maio de 1979

Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, a leitura estruturante do drama em gente. Porto, Inova, 1973.

David Mourão-Ferreira, «Estas 'Cartas de Amor' de Fernando Pessoa» [posfácio] in Cartas de Amor de Fernando Pessoa, Lisboa, Edições Ática, 3a ed., [s.d.].

«Algumas mulheres na poesia de Fernando Pessoa» e «Sobre as cartas de amor de Fernando Pessoa» in Nos Passos de Pessoa, ensaios, Lisboa, Editorial Presença, 1988.

Fernando Pessoa, Cartas de Amor de Fernando Pessoa, organização [de] David Mourão-Ferreira, Lisboa, Edições Ática, 3a ed., [s.d.].

O Eu profundo e os outros Eus, seleção poética e nota editorial [de] Afranio Coutinho, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980.

Antônio Quadros, Fernando Pessoa, Vida, Personalidade e Gênio, Lisboa, Dom Quixote, 1988.

João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa. Lisboa, Guimarães, 1950.

Notas

1. É como «bébé» e suas variantes que Ophelinha é apresentada nas cartas.

2. Ver: «O Fernando e Eu Relato da Ex.ma Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta, Maria da Graça Queiroz» in Fernando Pessoa, As Cartas de Amor de Fernando Pessoa, Lisboa, Edições Ática, 3a ed., [s.d.], p. 13-44.

3. João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, Lisboa, Don Quixote, 1987.

4. David Mourão-Ferreira, «Estas 'Cartas de Amor' de Fernando Pessoa» [posfácio] in Cartas de Amor de Fernando Pessoa, Lisboa, Edições Ática, 3a ed., [s.d.], p. 185.

5. Carta no 43, 29.09.1929, p. 43.

6. Carta no 24, 31.05.1920, p. 103.

7. Carta no 45, 09.10.1929, p. 45.

8. Carta no 07, 23.03.1920, p. 65.

9. Carta no 36, 29.11.1920, p. 130 (os grifos são meus).

10. Fernando Pessoa, O Eu profundo e outros Eus: seleção poética e nota editorial [de] Afrânio Coutinho, Rio de0 janeiro, Nova Fronteira, 1980, p.185-186.

11. Carta no 08, 24.03.1920, p. 67.

12. Fernando Pessoa, Op. Cit, p. 242

13. Op. cit, P.197

14. Op. cit, p. 167-168, (O grifo é meu).

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