Reflexões iniciais
Por maiores que sejam as lutas travadas para sua afirmação, caso um povo se descuide de sua literatura, paralisará seu pensamento e sensibilidade, na medida em que o poético significa a fala que percorre uma sociedade, codificada em imagens e configurações onde se filtra a expressão mais acabada de consciência, poder, identidade e sensibilidade desse povo.
A essa luz, o exercício poético se coloca na vertente dos discursos de sociedade sobre si própria. Um discurso com feição singular, dentre outros que as variadas séries culturais podem produzir. Por se constituir em uma “fala” reveladora, é que no literário podem-se desvendar outras séries culturais: as pegadas de uma trajectória, refazer caminhos ou perquirir os rumos que serão trilhados a partir dos ténues indícios que a trama do poético deixa entrever. No entanto não é somente enquanto elemento indicial de um determinado contexto que o poético se revela. Ele ultrapassa em muito essa estrada, pois sua urdidura é composta de numerosos fios e variadas tramas e, dentre elas, nos interstícios, coloca-se o próprio discurso crítico, complementar da elaboração estética, na medida em que a actividade intelectual instiga a procura de respostas e propõe ao acto criador a decifração e proposição de enigmas e comentários.
Abordar criticamente um poema ou conjunto de produções de um actor é pois aprender com essa escrita e com o solo contextual em que ela se enraíza. É iluminar mundos, através do discurso do Outro, portador de formações linguístico-ideológicas diferentes das do crítico, ao mesmo tempo em que esse movimento acrescenta novas perspectivas ao seu mundo, ampliando o universo de suas necessidades e libertações dialécticas.
Ora, a operação articular, após uma análise, o discurso poético do Outro tornar-se extremamente delicada quando se realiza no quadro de um sistema literário recente e pujante como o angolano, consolidado nas lutas de um povo que, mesmo sob as rajadas de balas, nunca silenciou o canto poético.
Tarefa delicada, frisamos, pois o caminho crítico, face à juventude dessa literatura, não conta com a segurança de estudos anteriores e, assim, deve assumir a humildade de aprender com o povo, a escrita e o poeta.
Nesse sentido, optamos, nesse estudo, por trilhar alguns caminhos da poesia do escritor angolano João Melo, quer ao nível temático, quer ao nível formal, em uma breve apresentação a qual, certamente, não poderá contemplar todas as facetas de seu trabalho artístico, mas pretende tão somente constituir-se em uma leitura inicial de textos.
Uma Poesia “Angolana Ferozmente”
A força do ser angolano, constituindo a partir da afirmação e luta pela sua liberdade, em meio aos estilhaços de granadas e ungido pelo sangue de seus heróis, percorre grande parte da produção poética contemporânea de Angola.
O vínculo estreito que essa produção artística mantém com as determinações históricas não a enfraquecem, todavia. Antes, possibilita que se tire partido das conquistas da poesia da modernidade para, através delas, apresentar um novo verbo lírico do presente, um novo modo-de-formar que escapa aos hermetismos e/ou flagelações do silêncio que rodam a poética contemporânea.
Diferentemente do panorama da produção ocidental de hoje, cujo silêncio impele a obra até o ponto em que esta se anula a si própria e se torna a anunciadora de seu próprio fim, o trabalho artístico da maioria dos poetas angolanos se eleva como voz contra o silêncio e, das lições de naufrágios poéticos da lírica ocidental, constrói o seu dizer.
Afiando as ferramentas legadas pela modernidade – o “ritmo dissoluto”, o verso branco ou uma cadência próxima ao coloquial – a poesia angolana de nosso tempo procura esculpir a imagem de uma poética participante.
Nesse particular, o trabalho do jovem poeta e jornalista João Melo é exemplar (*), na medida em que deixa entrever em sua produção as marcas da angolanidade, através de um discurso onde o localismo não se compraz em exotismos baratos, mas se afirma como uma nacionalidade que se mostra inteira e vitoriosa, se afirma “angolana ferozmente” e solicita ao crítico que com ela aprenda e refaça caminhos de compreensão, como se pode ler em “Arte poética”, do seu livro de estreia, Definição:
“A minha poesia é angolana ferozmente
Escrevo com medo e com raiva e força e ritmo e alegria
Escrevo com fogo e com terra
Escrevo sempre como se comesse funji com as mãos:
sobretudo quando utilizo garfo e faca”
A matriz de significação do poema, cujo índice se expressa na presença do “funji”, comida típica angolana, actua como origem do texto, dando-lhe o tom dominante: a “angolanidade”.Nessa direcção, o acto de escrita, desencadeada por essa força matriz, reafirma-se pela anáfora e a “Arte poética” revela-se enquanto ritmo, fogo e terra.
O mesmo movimento de profundo enredamento nas teias dos valores angolanos encontramos, por exemplo, em “O aprendiz de kimbanda”, de Poemas angolanos, onde em lugar de um vago misticismo folclorizado, temos a luta insistente com as palavras, que redunda em um sentimento mais profundo. Dessa forma, transforma-se em luz própria a sombra das indagações e medos que o mundo exterior lança sobre a alma do poeta:
“Reza após reza, i. é,
verso após verso
eu insisto
E trabalho de noite
que é quando
a concentração logra
um misticismo mais profundo
E utilizo de tudo
para fabricar as palavras:
homens pedras ervas animais
depois saio, afivelando
a minha horrenda máscara
de makixi
e gritando os meus
espantos medonhos:
medo sangue raiva morte”
Conforme nos aponta o texto acima, espécie de paradigma da dialéctica localismo e modernidade que percorre a poética de João Melo, é no fabricar das palavras na oficina silenciosa da noite que o artesanato poético logra construir de luz e sombra, de um ritmo livre, ao mesmo tempo em que apresenta a sua face pessoal e angolana.
“Luminosa Esperança”
É aliás através da transformação de sombras em luzes, da passagem do pessoal ao universal que, como bem afirma o poeta espanhol Pedro salinas, “ a poesia dá vida às sombras dos mortos e esperança aos ainda não nascidos” 1
Nesse particular, a escrita de João Melo procura transpor para a arte da poesia, a mais pessoal de todas, a expressão de uma época colectivista ainda em processo, mas cuja esperança não cansa de ser anunciada.
No processo de colectivização do canto, o “eu lírico” assume outras vozes no seu próprio registo e, nesse movimento, a passagem do tom individual ao canto-coral torna-se possível pois o poeta instala-se na vertente que possibilita compreender, interpretar e dar forma - sobretudo dar forma - à mensagem do futuro e do Outro.
Nessa medida, se a voz expressa pelo poema soa mais forte e luminosa que a nascida da “boca morta de terra e fel” encarcerada, é porque desta recebeu o alento para gritar e afirmar “que a vitória cresce devagar/mas é inexorável”, como se pode ler em “Uma carta de Mandela”, presente em Poemas angolanos e que consideramos representativa dessa tendência que apontamos:
Escrevo ao mundo uma carta
com minha boca morta
de terra e fel
Não tenho o direito
de perturbar ninguém
com o meu enorme sofrimento
Nada contarei
por isso
das torturas vexames
e humilhações sem conta
a que já aprendi a tornar-me insensível
Nada peço
nem honrarias nem glória
nem mesmo a liberdade
Mas digo-vos que tudo tenho feito
para ser digno dos mortos e dos heróis
Escrevo ao mundo
com minha boca viva
de sangue
e luminosa esperança
para dizer apenas duas palavras:
a luta não deve morrer
que a vitória cresce devagar
mas é inexorável
como todas as vitórias populares.”
É ainda a procura de dialectizar o individual e a com(un)idade, o tempo presente e o futuro, que encontramos no vôo pelas fábulas tradicionais angolanas realizado por João Melo em seu segundo livro. Ali o poema didáctico, transformado em Fabulema, procura a lição que “se esconde na curta existência”, rechaçando o sonho/demência, a luta sem razão e, afirmando, por intermédio da recusa do efémero, a luminosa esperança em um amanhã que se teça real, entre todos, para todos.
Do volume, seleccionamos um trecho de “Breve elegia da
borboleta”, por congregarem-se ali, de forma mais
contundente, as linhas a que nos referimos:
Um vôo cego em direcção à luz
é a difusa tentação da borboleta
libertada do obscuro casulo
(...)
O que dizer se há-de
então dessa ânsia
imprecisa e obcecante da borboleta?
Será da mesma vaidade e presunção
de que um dia o jovem ícaro
levianamente se convence?
Ou no efémero destino da borboleta
se reflecte como é vã a busca
da perfeição em tudo o que ofusca?
Uma qualquer lição
se esconde na curta
existência
desse insecto:
se o sonho não é concreto
é tudo pura demência
e a luta não tem razão”
“Angolanidade”, desejo do porvir, dialéctica particular e universal, modernidade: elementos que propiciam uma primeira aproximação do caleidoscópio de numerosas imagens com que a escrita de João Melo se apresenta.
Uma Poética Inconformista
a) Recusa do apresenta imperfeito
Não se esgotam todavia nos tópicos acima, tratados rapidamente em função de uma breve apresentação a que nos propusemos, os temas e imagens, os temas e imagens desse escritor. Pelo contrário.
Faz-se, assim, necessário, determo-nos na temática do inconformismo que se apresenta sob numerosos aspectos e, sob essa perspectiva, acaba por se constituir em uma das linhas-de-força da poesia de João de Melo.
Verifica-se que na busca de um futuro em que a esperança é “sonho concreto”, a escrita deita raízes profundas no solo do inconformismo, não se submetendo nunca aos factos do tempo presente, pois seu verbo está voltado para o futuro. Revela-se, portanto, como uma forma de cognição do imperfeito presente que almeja construir a perfeição futura e, nessa dialéctica, ateia em nossas limitações uma primeira fagulha de libertação. Libertação real, sem demência, ainda que construída “sob a canção das bombas”, como nos diz a arguta “Canção de nosso tempo”, grande canto coral onde se cruzam numerosas vozes e onde o poético e o político se entretecem:
“se eu tenho esperança?
como posso tê-la com cinquenta mil bombas, ogivas e cargas nucleares suspensas sobre a minha cabeça?
como posso ter qualquer esperança se todos os dias o apartheid morde os meus tomates mata os meus filhos, viola as minhas mulheres e lança os meus irmãos contra mim?
ah, e como posso, também, ser esperançoso
quando a intriga e
obscuros recalcamentos
antigos
minam as nossas energias?
o que move é o carvão do desespero
da raiva e das consciências:
luto para me sentir vivo
estou vivo porque há mais gente viva
gente comum, igual a mim
que sofre mas luta
mesmo sem saber
há homens que dormem e acordam todos os dias
sob a canção das bombas: homens
que morrem
para que vivam os poeta
há homens que a cada minuto erguem biombos de sangue para que os amantes se possam encontrar com discrição”
b) Recusa ao formalismo retórico
É ainda sob o impulso de buscar a transformação efectiva do tempo presente que outra face da poesia do escritor João Melo se apresente: as palavras se recusam a seguir o formalismo retórico expresso em regras do “bom gosto”. Elas, ao contrário, transbordam as margens do discurso bem comportado, resvalando muitas vezes para o escatológico, indicando o inconformismo e a luta contra a linguagem aceita como poética pelas academias e a mídia edulcoradora de discursos. Na sua fúria, os vocábulos assestam as baterias contra os seguidores cegos da modernidade, os quais tendem, segundo o poeta, a negar o espetáculo da vida, para apenas exibir os cacos de uma genialidade conseguida graças ao apagamento do ser e das circunstâncias:
“a boa poesia não é apenas a forma
mas o incomodo
mas os jovens poetas perseguem a genialidade
como quem compra camisas importadas
aferram-se ao traseiro de Ezra Pound:
gostam
dos seus peidos cheirosos
que neles produz efeito tão psicadélico
que não vêem mais a vida
passando diante das suas narinas ocupadas
sim, a vida:
reles, trivial, desinteressante
e complexa
a vida é uma merda mas nós existimos dentro dela
e só dela
certamente porque na vida tudo se transforma
até a merda
estou farto de todos os niilismos pós-modernos”
c) Recusa e definições
Dos caminhos de inconformismo trilhados pela poesia de João Melo ressaltam ainda as produções que iluminam, por um movimento vivo de consciência, objectos, seres e paisagens re-definidos em jogos de palavras simples, muitas vezes com um travo irónico, que visam a surpreender a realidade sob outra luz que não aquela a que diuturnamente estamos acostumados.
Trata-se aqui, segundo entendemos, das conquistas da modernidade – o coloquialismo e a metalinguagem, sobretudo – colocados a serviço de um combate contra hábitos arraigados de ver, perceber e dizer.
Ou seja, com os “poemas-definições” o escritor não rejeita o instrumental que a poesia contemporânea oferta ao produtor de nosso tempo; apenas selecciona os procedimentos formais que lhe permitam instaurar-se no contra-fluxo dos discursos correntes, negando, por essa via, uma vinculação reificante a “ismos” e escolas.
Vejamos, por exemplo, trechos do poema “Algumas definições”, presentes em Canção do nosso tempo onde, a partir das letras, ordenadas alfabeticamente (Pão, Pedra, Poesia) cria-se o signo e, deste, alcança-se a re-leitura dos próprios signos e do real através não só da operação metalinguística aí implícita, como também por intermédio da intertextualidade que se abre enquanto diálogo com os companheiros brasileiros de viagem poética: Carlos Drumond de Andrade, de “Uma pedra no meio do caminho” (Alguma poesia) e Manuel Bandeira de “O último poema” (Libertinagem):
“Pão: massa de farinha água e sal
cozida ao forno e que
além de várias formas
recebe nomes diversos
-às vezes quando falta
provoca revoluções
Pedra: obstáculos se no meio do caminho arma para abrir caminhos
Poesia: ofício doloroso que consiste em semear mentiras em desertos para que delas cresçam as verdades mais puras”
Do mesmo livro, o texto “Diário do bordo”, propõe a alteração da forma “diário de viagem”, recebendo esta um tratamento em que a linguagem procura surpreender o essencial de cada paisagem, incorporando nesse olhar sobre outras terras, a perspectiva do sujeito, em uma equação onde objectividade e visão pessoal se mesclam, assim como as cidades, os povos, os países:
“ARUSHA
Crianças verdes brincando nos campos
como gazelas soltas
o futuro arde-lhes
nos olhos
Catete
A terra despida queimada negra
mas também a cama larga
e fofa do algodão em flor
RIO DE JANRIRO
Água, céu e morros
No meio
o verde”
Cremos, no entanto, que é no texto intitulado “1º poema para Kamaxilu (Contribuição para com a definição de herói)”, do livro de estreia de João Melo, onde o procedimento de re-presentar a realidade – aqui sob a figura do herói – recebe um dos tratamentos mais felizes.
Fundando em radical subjectividade (a dedicatória e o título do poema já nos indicam as pistas do autobiográfico), o “1º poema”, no entanto, não se deixa paralisar em uma individualidade narcísica: antes libera energias e leituras possíveis, no movimento de ritualizar a morte pela linguagem. Esta se torna, assim, o espaço simbólico de actuação para a libertação de fantasmas que, de outro modo, obstaculizaram o olhar acordado e consciente.
Sob esse aspecto, as intensificações anáforicas além de modulares o canto, instauram uma rede intrincada de vivências, na medida em que a afirmação reiterativa do ser herói desenha não a condição desta daquela individualidade, mas sim perspectiva o humano.
Dessa forma, as duas ordens de factores – o supra humano ou heróico, e o campo de actuação dos comuns mortais – não se encontram separadas; pelo contrário, enredam-se e iluminam com fogos cruzados as limitações e grandezas da condição humana:
1º Poema para Kamaxilu
(Contribuição para a definição de herói)
A meu pai, postumamente
1
- Herói é o que
morre no campo da batalha
- Mas herói também é
o que aparece morto
na soleira duma porta
2
- Herói é o que
se mata contra um projéctil
- Herói é o que se projecta
decididamente para a morte
3
- Herói é o que morre
para exaltação das nossas virtudes
- Herói é o que dá a sua vida
para que resgatemos
os nossos erros
4
- Herói é o que
construiu a independência com seu sangue
- Herói é o que
pese embora isso
assistiu à independência na cozinha
5 - Herói é o que
para sê-lo tem
a sua coragem como passaporte
- Herói é o que rejeita passaporte
e decidi viajar clandestinamente
6
- Herói é o que tomba admiravelmente
sob uma poética
metralha implacável
- A poesia do herói
está também na pedra
que lhe rebenta a cabeça
(...)
9
- Herói é o que morre
espantosamente e por isso
adquire a publicidade da glória
- Mas a glória está também presente
naquele herói que morreu
certa tarde no passeio público
d) Recusa a Erros Acorrentado
Tendo como uma das linhas-de-força de seus textos a insubordinação a cânones, “ismos” e escolas, não é de espantar que a poética de João Melo se aventure também a trilhar as veredas da poesia erótica, no que esta propõe de infracção aos códigos da moralidade.
E se sublinhamos que o erotismo implica um principio de infracção, temos em mente a pormenorizada análises de Georges Baitaille no estudo já clássico sobre o assunto, onde ele afirma que a “essência do erótico” estaria no “interdito criador do desejo” (2). Interdito que procura domar e trazer à regularidade as pulsões do instinto mas que, nesse movimento, faz emergir o seu avesso, ou seja, a transgressão.
Ora, a poesia, força que se quer liberta e libertadora em um mundo de tantos cativeiros, rechaça o interdito, na medida em que escolhe a representação de uma das formas da experiência humana que ao longo do tempo mais tem estado sujeita a numerosas regras e proibições – a erótica. Nesse aspecto, permite a presentificação e partilha dessa experiência por um círculo mais amplo, o dos leitores, realizando a transgressão.
João Melo, ao realizar a opção por explorar o tema do erotismo em sua poesia, exerce mais uma vez a recusa ao já plenamente aceito e, nesse movimento, procura re-apresentar uma experiência primordial, humana, em contraste com convenções morais rigoristas, infringindo-as. Ocorre que essa escolha acaba por lança-lo em caminhos pouco trilhados na literatura angolana contemporânea, contribuindo, dessa forma, para aumentar o número de possibilidades temáticas do sistema literário em que seu texto está inscrito, conforme bem aponta Manuel Rui no prefácio ao livro Tanto amor (1989):
“Este Tanto amor (com tambores), de João Melo, acontece num momento em que se respira a necessidade de algumas e múltiplas reflexões sobre a produção poética angolana post-independência, onde aconteceu pouca coisa no domínio da poesia de amor”. “Poesia de amor que sempre levanta exclamações e até makas, quando, como neste caso – e para o nosso espaço leitor – , se retransfere e assume a vida pelo esplendor da relação carnal, sublimando o espírito e libertando a palavra".
A arguta visão que conduz o poeta e prosador Manuel Rui a equacionar a questão de inserção da poesia erótica no espaço leitor (a que acrescentaríamos também “espaço produtor”) de Angola, serve-nos de alerta para destacar o pionerismo do trabalho de João Melo.
Pionerismo que intenta realizar a operação fundante de uma convenção em que confluem imagens já conhecidas do público (pólo de redundância comunicativa) e o inusitado (pólo informativo, de quebra de expectativas).
Na demanda do delicado equilíbrio entre o já conhecido e o novo, o interdito na poesia do nosso autor, ao nível linguístico, não se expressa cruamente, pelo disfemismo, mas sim no abrandamento da linguagem através de um metaformismo mais ou menos sistemático, o que não obsta uma espécie de filosofia da volúpia que percorre os seus textos:
Flor de água
Flor de água no centro das pernas
púbis vivificada pelo desejo
e donde emana um estranho odor a meresia
Cor de sangue e mel
lava ardente
doida cabeleira despenteada
chama intensa
altaneira estrela
Tambor inusitado
no meio do silêncio universal do di
Sabor de turbilhão
vento de gritos e de pedras
mar de água e terra
erupção antiga subitamente renascida
Pleno e vivo
eis teu ventre:
água flor ritmo
acre perfume luz
terra fogo paixão
Poesia (Tanto amor)
Através do jogo metafórico na nomeação do corpo feminino, “topos” privilegiado da poesia erótica do ocidente, procura-se entre os sentidos, o sentido, propiciador da libertação da linguagem das amarras da pudícia e, dessa forma, tornar também Eros livre.
Verifica-se portanto uma busca de liberdade ao nível da comunicação de uma experiência humana e da linguagem que dê forma a essa vivência.
Veja-se, por exemplo, o trecho inicial de “Canção para os teus olhos”, onde ocorre uma integração da paisagem angolana ao corpo da amada, de maneira que natureza e mulher se integram no olhar do homem e do poeta, sob uma linguagem em que a aliteração revela uma de elevação de ambas as “paisagens”:
“Despontam mil namibes
em teus verdes olhos
- claros
como a poalha do sol
do deserto
(Tanto amor)
Prosseguir “Esta Viagem de Mil Rumos”
A universalização do espaço (o deserto do Namibe multiplicado em mil) realizada sob um olhar pleno de angolanidade que se apresenta em “Canção para os teus olhos”, reafirma, segundo entendemos, os Caminhos da prática poética de nosso escritor, caminhos trilhados a partir de uma elaboração artística que, sem abdicar da modernidade e do universalismo, ferozmente se vincula ao solo angolano, emergindo dessa articulação o carácter plural de sua escrita a qual, em nossa breve abordagem, procuramos rastear.
Estamos conscientes que o texto de João Melo apresenta numerosas estradas, expressas em variadas temáticas. Nessa medida, solicita fôlego aos que se aventuram por “esta viagem de mil rumos”, pois na marcha de cada passo, mesmo a breve pausa que examina um tema é já novo passo que se desdobra em outros. Nosso esforço foi o de, ao longo do percurso desse texto, caminhar, abrindo picadas, sinalizando estradas.
Nas encruzilhadas do texto de João Melo, porém, nada existe petrificado, mas sim em processo. Por isso, talvez a melhor forma de encerrarmos nossas considerações seja deixar a palavra com o próprio poeta, através de “Os tambores anunciam a caçada”, inserto em O caçador de nuvens (inédito), onde, para usarmos uma expressão de Alfredo Bosi, “a caça é a imagem, o discurso o caçador (3):
“Aqui estou eu: trinta e quatro anos,
um pai-mito, um irmão-soldado,
duas filhas e certas mulheres
por quem ainda espero
Tristezas, alegrias? Alguns sinais
Um pretensioso desejo de objectividade
querendo orden(h)ar os sonhos
Eis as minhas armas:
azagaias de memória,
uns poemas tacteando no escuro
Partirei
com os primeiros raios de sol.
As nuvens são vastas,
muito vastas.
(*) João Melo (Aníbal João da Silva Melo) nasceu em Luanda a 5 de Setembro de 1955. Publicou: Definição (poemas), 1985; Fabulema (poesia), 1989; Poemas angolanos (poesia), 1989; Tanto amor (poesia), 1989; Canção do nosso tempo (poesia), 1989. 1. Salinas, Pedro. Reality and the poet in Spanish Poetry. Baltimore, 1940. 2. BATAILLE, Georges. L’érotisme. Paris, Minuit, 1985, p.119 3. BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia : São Paulo, Cultrix, Edusp, 1977, p. 31 Tânia Macedo é doutora pela Universidade de São Paulo, professora da Universidade Estadual Paulista, “campus” de Assis
Arquivo do Angolé-Artes e Letras, gentilmente cedido pelo sei editor Adriano Botelho de Vasconcelos
