Bio Quem

Mário Coelho Pinto de Andrade

”Os intelectuais dos países sob dominação portuguesa se esforçaram por enfrentar e resolver correctamente o problema gerado pela assimilação: rejeição definitiva do substractum negro-africano? Diluição na cultura dominante? Aceitação da pseudo-condição de mestiço cultural?” “Paralelamente a essas interrogações, e por vezes confundindo com elas, delineiam-se os gestos e as atitudes fundamentais que vão conduzir os intelectuais angolanos ao aprofundamento da sua consciência nacional.”
“Os escritores que decidem rejeitar o estilo literário aprendido na escola portuguesa vão ajudar, através das suas obras, a cristalizar nos países o sentimento de independência nacional. (...)Este esforço exercer-se-á primeiro sobre um meio restrito, o meio urbano, mas o povo entenderá os seus ecos.” In “Literatura e nacionalismo em Angola”, excerto da palestra proferida, em Janeiro de 1962, na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos da América, a convite do professor Immanuel Vallerstein.

Mário Coelho Pinto de Andrade nasceu em 31-8-1928, no Golungo Alto, na província do hiterland do Kwanza Norte. Cedo veio para Luanda, aos 2 anos de idade, habitando com o pai e a madrasta no bairro das Ingombotas. Fundou o Centro de Estudos Africanos(CEA) em 1951, em Portugal, em parceria com José Francisco Tenreiro, onde participaram em palestras e tertúlias onde pontificavam figuras como a de Agostinho Neto, Amilcar Cabral, Alda do Espírito Santo, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos e Noémia Sousa.

Publicou a primeira antologia poética do espaço literário dos “Cinco” Países Africanos de Língua Portuguesa, por si prefaciada e com nota final de José F. Tenreiro. Trata-se do célebre “Caderno de poesia negra de expressão portuguesa” . Em 1958 publica a “Antologia de poesia negra de expressão portuguesa”, incluindo autores cabo-verdianos, com um seu prefácio que se tornou numa referência obrigatória: “Cultura negra e assimilação”. Em 1954 foge para Paris, escapando-se das garras da PIDE/DGS, a famigerada polícia política portuguesa. Chegado a Paris trabalha como chefe de redacção da prestigiada revista cultural do mundo negro, “Presence Africaine”, a convite do seu director o senegalês Alioune Diop. Em 1956 participa na organização na capital francesa do célebre Primeiro Congresso de Escritores e Artistas Negros, evento que reúne importantes intelectuais e poetas negros. História que se repete três anos depois em Itália.

Como conferencista animou nos Estados Unidos uma palestra na Universidade de Minesota sobre “Literatura e nacionalismo”. Ainda em 1960 é eleito presidente do Comité Director do MPLA, em Conacry, depois de ter anunciado a passagem à “acção directa”, na Câmara dos comuns” em Londres, dada a intransigência das autoridades portuguesas em não conceder a independência das suas colónias em África. Em 1964, por divergências políticas, entra em dissidência com o MPLA, depois de ter cedido a presidência do movimento a Agostinho Neto em 1962.

Assumindo-se como “um intelectual emprestado à política” volta novamente a sua actividade de divulgação cultural e literária.

Nosso filho
Mandaram-no p’ra S. Tomé
Não tinha documentos
Aiué!

Nosso filho chorou
Mamã enloqueceu
Aiué!
Mandaram-no p’ra S. Tomé

Nosso filho já partiu
Partiu no porão deles
Aiué
Mandaram-no p’ra S.Tomé

Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
Aiué!
Mandaram-no p’ra S.Tomé

Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo

Mamã, ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há de virar
Aiué!
Mandaram-no p’ra S.Tomé

Nosso filho não voltou
A morte levou-o
Aiué!
Mandaram-no pr’ra S. Tomé

O poema Canção de Sabalu: é uma versão em português do poema em kimbundu escrito por Mário de Andrade.

Em 1968 organiza e publica, igualmente, “Prosa Africana de expressão portuguesa”. Em 1979 organiza, em dois tomos, a antologia temática africana”: “Na noite grávida de punhais” (I volume) e “Canto armado” (II volume). Antes de falecer deu por terminada uma antologia poética da mesma temática que sempre o ocupou, encomendada pela UNESCO. Em 1997 foi publicada a título póstumo um seu livro de ensaios sobre um tema que lhe era particularmente caro, o protonacionalismo africano nos cinco países africanos de língua portuguesa, intitulado “O nacionalismo africano- continuidade e ruptura 1911-1961”. Mário de Andrade deixou diversos artigos e ensaios espalhados pela Guiné- Bissau, sua segunda pátria, Cabo-Verde, França, Estados Unidos e Portugal.

“A política de “assimilação espiritual” praticada pelos portugueses baseia-se num critério de superioridade cultural porque se enquadra numa ideologia colonial”, e continua:.

“Alguns, como o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, afirmam que os países tropicais colocados sob dominação de Portugal e sob a direcção do cristianismo (Brasil, África, Índia, Madeira, Açores) constituem hoje uma unidade de sentimento e cultura. A operação desta unidade seria, segundo ele, um resultado lógico dos métodos e das condições de colonização portuguesa, da cordialidade e da simpatia características do povo português, “ o mais cristão dos colonizadores modernos nas suas relações com gentes ditas inferiores”. O português, tendo em conta os seus contactos com os árabes, possuiria uma aptidão hereditária para viver sob o sol dos trópicos e uma predisposição para aventuras sexuais com mulheres de cor, sob o signo da Vénus fosca... (...) Ora, não é nada disso. Não há tradições comuns vividas de uma maneira autêntica entre um certo camponês de Angola e um outro da província do Alentejo, entre o goês e o brasileiro. Por outro lado, a percentagem do analfabetismo entre as populações negras da Guiné, de Angola e de Moçambique (99%), nega a exixtªência de uma civilização luso-tropical veiculada pela língua portuguesa”.

Excerto do texto intitulado “Poetas negros de expressão portuguesa”, In Europa, nº 381, Jan. de 1961, Paris.

Mário Pinto de Andrade morreu em Londres, a 26 de Agosto de 1990, vítima de leucemia e tuberculose. O professor Manuel Ferreira resumiu nos seguintes termos a sua actividade cultural e intelectual: “A Mário de Andrade se deve essencialmente uma obra de historiador e ensaísta. A ele se debita ainda ter sido o mais lúcido divulgador da literatura africana de expressão portuguesa, através de antologias que vão desde o Caderno de poesia negra de expressão portuguesa, 1953, de colaboração com Francisco José Tenreiro, passando pela antologia de poesia negra de expressão portuguesa (Paris, 1958) até a mais recente, Antologia temática africana”.

O antropólogo angolano Virgílio Coelho resume a envergadura do trabalho mental deste poeta e ensaísta angolano de grande envergadura, nos seguintes termos: “ a vasta produção de Mário de Andrade constitui sem dúvida um grande contributo para o avanço das ciências humanas e sociais tanto em Angola como na África ( e no mundo, acrescentaríamos nós), considerando ainda que “a sua vasta bibliografia, requer urgente e sistemática recolha e publicação.”

A abrir o seu livro de ensaios, intitulado “Tentações”, o jornalista, crítico literário e ensaísta Norberto Costa considera-lhe “o teórico da angolanidade”.

“(...) o homem novo da África de hoje não vê sentido prático algum na existência de uma organização social de carácter tribal que aliás tende cada vez mais a ser destruída, sem que, no entanto, seja substituída por outra, de acordo com a evolução do seu génio próprio. O homem novo da África, o homem de escola, europóide na sua expressão cultural, é um destribalizado, um desenraizado, que se interroga constantemente sobre o0 seu destino. A sua tendência poética, os temas, os motivos da sua poesia reflectem isso mesmo: uma situação de encontro com a sua alma transfigurada. Quer encontrar-se com a África mesmo através da linguagem europeia que utiliza”.

Excerto do texto intitulado “Uma nova poesia nasceu em África”, In Anhembi, Junho de 1955, São Paulo, pp 124-130.

Victor Kajibanga, autor de “Alma sociológica na ensaística de Mário de Andrade”, obra que mereceu menção honrosa no concurso de ensaio do Instituto Nacional das Indústrias Culturais (INIC), sublinha que os seu trabalho premiado é uma “contribuição ao estudo do percurso biográfico e intelectual de Mário Pinto de Andrade, um dos percursores do moderno nacionalismo africano nos PALOP e fundador da sociologia moderna angolana”. Victor Kajibanga, decano da Universidade Agostinho Neto, enfatiza ainda que “o estudo exaustivo da vida e obra de Mário de Andrade é uma tarefa que se afigura difícil, em consequência do ostracismo a que esteve votada a sua personalidade e do desconhecimento (entre nós) da sua vasta produção intelectual e dos diversos trabalhos publicados, pelo mundo fora, sobre a sua vida e obra”.

Informação Adicional

  • Nascido em: 1928-08-21
  • Naturalidade: Gulungo Alto
  • Gênero literário: S/N

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