Biografias

Tamanho do texto

Domingos Florentino

MANDEM-ME BEIJOS DE NUVENS

Estou

Onde estou silêncio

Sobre as ervas de uma tarde a pensar:

Mandem-me beijos de barro e nuvens!

Mandem-me

Beijos de nuvens:

Uma mulher de sinos

A cantar-me a mesma solidez deste vazio antigo!

In Anoiteço.

Cristóvão Neto nasceu em Malanje, aos 30-12-1964. É engenheiro químico de profissão, formado na antiga URSS. Em Angola, ainda bastante jovem, publicou alguns textos através das revistas Terceiro Mundo e Ngangula. Na URSS, colaborou activamente nos trabalhos editados pelo núcleo loca da Brigada Jovem de Literatura. Traduziu e publicou em russo vários poemas seus na imprensa da cidade de Minsk. Tem cinco livros de poesia publicados, nomeadamente, Sinos D’alma (menção honrosa do Prémio Sonangol de Literatura/UEA/1994), Pausa (menção honrosa do Prémio Sonangol de Literatura/UEA/1998), Anoiteço (Editorial Nzila/2005), Catarse (UEA/2005) e Delirium, Marcha Lenta (UEA/2005). Um outro volume de poemas foi agraciado com a Menção Honrosa do Prêmio de Literatura «Cidade de Luanda/97», mas até agora não foi publicado. Assina diversos artigos na imprensa escrita. Tem também se dedicado à crítica literária e à recensão de livros.

O poeta e ensaísta, Conceição Cristóvão, seu irmão, no prefácio do seu livro de estreia, escreve o seguinte: «é [o autor], para nossa grande alegria, um «teimoso» operário da palavra o livro que é objecto das nossas reflexões, longe de constituir o corolário do seu esforço e escrita permanentes, é antes o doloroso início de uma longa caminhada no terreno movediço, que é a literatura, e é, outrossim, o sinal primeiro dum sério compromisso com o leitor».

A propósito do seu segundo livro de poemas, o poeta e crítico literário Lopito Feijoó escreve: « que dizer-vos desta Pausa de cerca de 50 textos em 5 anos, constituindo sobriamente um único momento de poesia, cuja apresentação é feita em três? A saber: Palavras Sem Sol. Poemas Quase de Amor. E (Entre Parêntesis)».

Lopito Feijoó acrescenta: «trata-se de um livro cujo cerne poético residirá em Palavras Sem Sol através das quais exprime o autor todo o desencanto do (in)vulgar cidadão que no universo dos seus devaneios simplesmente cruza com a liberdade no âmbito da expressão poética, não fosse a vontade de querer viver só para a poesia. E é certamente o aparente, mas só aparente pessimismo de quem cultivando-a quer ser só ela mesmo. A poesia.»

SE DA POESIA NASCESSEM…

Se da poesia nascessem

rios caudalosos

e colinas verdes

se fosse ao menos a poesia

uma madrugada

na minha terra enublada

ou mandiocais

ou letras no cais

do meu sonho

ou letras no colóquio

das sombras que me habitam...

 

Se poesia ontem cantei

das minhas mãos, hoje, nascem pedras

das minhas mãos trémulas nascem pétalas

e não há rios caudalosos

nem florestas frondosas

apenas poesia que desconheço

no cristal húmido dos dias...

 

Apenas poesia que desconheço

sem mandiocais

ou letras no cais

do meu sonho e cansaço...

In Catarse.

O crítico literário sublinha que o livro contém «uma série de proféticas equações que só Cristóvão Neto poderá solucionar pela prática da sua perspectiva filosofal, acentuadamente metafísica, onde o espírito se sobrepõe à matéria como em toda a grande poética, enquanto acto de libertação.»

Olá, ó mundo que não entendo:

Toma lá os dias e o ócio

No lento do mar doendo

A mesma fadiga dos ais.

Percebes

O ruir de plasmas cansados

E o canto de angústias das marés?

(Escutai as canoas no silêncio do lugar do nome!)

É o fardo suave da voz

Meu lastro penosíssimo

No colo árduo da pátria dos cansaços:

A redundância dos dias é um moinho de sombras paradas!

E os gritos parados também

A fila empoeirada de búzios

E as mulheres a baterem palmas de ontem!

Excerto do livro Delirium, Marcha Lenta.

O crítico faz referência que «Se, por um lado, é notório e até mesmo notável o harmonioso enquadramento dos lexemas em toda a Pausa, convém que se atenda ao constante rol de interrogações/exclamações, que fazem do longo conjunto uma longa, autêntica e excelente interrogação/exclamação.»

Lopito Feijoó constata ainda que «para além de todo o telurismo implícito, as guerras e querelas do nosso tempo (entre nós abundantes!) são também objecto de reflexão de Cristóvão Neto.» E conclui afirmando que trata-se «de uma poética que ainda dará, certamente, que falar, pois o seu cultor vai fazendo estrada, (in)consciente da sua auto-narratividade.» O conhecido escritor Manuel Rui, no prefácio do último livro de Cristóvão Neto (Delirium, Marcha Lenta), diz em jeito de conclusão: «Não é mais um livro de poesia. É um novo livro com poesia nova, como não muitas vezes vem acontecendo, neste país tão novo de envelhecimento precoce»

“o meu sonho é sonho de areias no deserto é vento lento batendo nas casuarinas sonolentas em torno do Tômbwa”.

In Raízes do Porvir – Página 25

Domingos Florentino é o pseudónimo literário de Marcolino Moco. Nasceu a 19 de Julho de 1953, na província do Huambo, planalto central de Angola. Para além de Escritor, ocupou cargos importantes no governo de Angola, e a nível internacional, nomeadamente: Primeiro Ministro da República de Angola, de novembro de 1992 até junho de 1996, Governador do Huambo e Bié de 1986 á 1989 e Secretário Executivo da CPLP, de 1996 á 2000.

“ o meu sonho/é uma madeixa dos teus cabelos/sufocada ao luar de uma noite/cansada de amor/o meu sonho/somos nós, tu e eu/ no carocel da vida/a procura do sol/falo do sonho, amor/ do nosso sonho/em que brincamos com crianças não paridas/com esperanças sangrando desesperanças/ o meu sonho/ és tu, Minda – a – Mulata/ sonhando com a vida e morrendo/ em tempo de fome farta/ e a guerra a acabar (ou a retratar?)/ o meu sonho/ é sonho do mar/ as ondas indo e vindo/ do fim do mundo/ as vezes a voar”.

In Raízes do Porvir – Página 23

Descendente de uma importante linhagem de chefes tradicionais. Os mais velhos de sua terra contam que ele era uma criança muito interessada nas estórias, provérbios e contos, transmitidos oralmente.

“Trago a nódoa do passado/no punho do presente/ transponho montanhas na minha luta/ de juventude traga/ na convulsão dos tempos/ em busca do futuro/Trago a nódoa do passado/ na serra dos dentes procuro paz/ sobre o crepitar de corpos insepultos/ na noite de tragédia/ grávida de esperança/ trago a nódoa do passado/ nas raízes do porvir/ venho de longe/ gritando meus anseios/ em cansaços semeados disperso no tempo/ Trago a nódoa do passado/ no cântico ao futuro/ planto amor/ sobre o drama da flor violentada/ no chão do meu país”.

Fez os estudos secundários longe da sua aldeia natal e concluiu em 1974, na cidade do Huambo, na época conhecida por Nova Lisboa, o curso complementar dos liceus. O seu interesse pela literatura e especialmente pela poesia foi notória«o, lendo os clássicos, filosofia, sociologia, história... Foi na poesia de Alexandre Dáskalos, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto e outros autores ligados á luta pela dignidade do homem angolano que encontrou, na sua juventude, a inspiração que o guiou para sempre na sua luta.

Sobre o escritor diz João Melo: “Domingos Florentino demonstra possuir todos os requisitos para integrar esta raça persistente dos poetas. Contornando deliberadamente ou não certos debates equivocados inúteis, assim como a fácil tentação dos modismos, ele “mata a cobra e mostra o pau”: lá estão na sua poesia, as marcas da história, os ecos dos clássicos, a solidariedade com os enormes sofrimentos do seu povo, a esperança irredutível no porvir. Mas, além dessa vertente histórica e social que corresponde a uma das mais fecundas linhagens da poesia e da literatura angolana, D.F. não se furta igualmente a explorar o inesgotável filão do lirismo, do amor e até mesmo do erotismo, de acordo com uma tendência que, em Angola, irrompeu definitivamente a partir da segunda metade dos anos 80. Tais temas e procedimentos são utilizados pelo autor sem qualquer pretensão “Vanguardeira”, mas com plena segurança e confiança no seu oficio de poeta, resultado, certamente, da cultura, das leituras e também das vivências de Domingos Florentino. Nesse sentido, foi sábia a sua decisão de editar o seu primeiro livro quando já ultrapassou a barreira dos 30 anos. Com ele, DF entra, por natural e amadurecida vocação, no coro polifônico e diversificado (felizmente) da literatura angolana, cuja independência e autonomia já não carecem de demonstração”.

A Crítica a seguir é de João Maimona, Escritor, Médico, Veterinário e Deputado. Maimona considera o autor ser notado como portador da ambição primeira da verdadeira poesia: A defesa dos valores de estética. Domingos Florentino cumpre sublinhar sinais descritivos que o leitor poderá conservar em alguma tendência verbal: a passagem por uma dor assinala – se por uma lágrima (implícita) sobre o drama de uma Angola nossa.

Á porta da minha casa/ há uma planta/ plantando sonhos/ Um estado espiritual individual ou colectivo que acaba por despertar significativa interrogação. Como fazer poesia sem amor/ se a terra chorosa/ nos pede o mote para o cântico ao futuro? Digo significativa porque revela o que a nós angolanos ainda faz imensa falta: a matéria comum da nossa humanidade. Indispensável matriz para a construção do tempo que está para vir”.

Mais informações

  • Nascido em: 1953-07-19
  • Naturalidade: Huambo
  • Gênero literário: N/A

Navegadores

Este site é melhor visualizado com os navegadores abaixo. Clique nos links para baixar a ultima versão.

logo_googlechrome_site1
Chrome

logo_firefox_site1
Firefox

logo_safari_site1
Safari

logo_ie_site1
Explorer

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: contacto@ueangola.com

Registre-se