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Exclusivo com Inocência da Mata Destaque

Escrito por  Cláudio Fortuna
Professora Inocência da Mata, da Universidade Nova de Lisboa, especialista em Literatura africana de expressão portuguesa, conversou connosco em torno da produção literária Angolana, das suas perspectivas e possíveis soluções para a questão da incipiente critica literária nosso país, aquela académica falou-nos sobre a produção literária do lendário Óscar Ribas, e de forma subtil da comissão criada em 2005, pelo Ministério da Cultura, para trabalhar na história da literatura angolana, que a esta altura já deviria haver um draft, deste gigantesco projecto, mas que infelizmente o Ministério Angolano, ainda não veio a publico se explicar sobre o porquê e do adiamento, e o que pretende fazer com esta iniciativa.

CF – Professora, como é que encara o estado actual da literatura angolana?

 

I.M- Como é que eu encaro o estado da literatura angolana? Bom esta pergunta vocês fazem sempre, bom, é bom não! A literatura angolana vive um momento muito fértil, não apenas em termos quantitativos, mas também em termos qualitativos, tem uma grande diversificação estética, um grande ecletismo temático, estético e, então eu acho que a literatura angolana vive um momento muito bom, mas eu acho que dizer isto é uma vulgaridade. Porque a literatura angolana de facto sempre teve, tirando os primeiros anos que vão de 1975 a 1985 talvez, mesmo assim produziram obras muito importantes não é! Estou a pensar por exemplo na obra literária MAYOMBE, que é realmente um marco importante para literatura angolana, a literatura angolana nunca teve desde os anos de 1940, nunca teve momentos digamos que menos produtivos, porque as obras que produziram foram sempre obras que fizeram a diferença e, então é um momento bom da literatura angolana, refere-se particularmente a este evento não é verdade? Porque esta todos vocês fazem, como é que encaro o estado da literatura angolana? Uma pergunta que vocês têm de deixar de fazer não é? Porque é uma pergunta que não diz muito, particularmente neste momento em que nós vivemos, da comemoração do centenário do nascimento do Óscar Ribas, eu acho que marca uma grande atitude introspectiva, quer dizer, é como se a literatura angolana tivesse a pensar-se a si própria, por o Osca Ribas, foi um escritor que foi de facto, que publicada quase toda sua obra não é? E de novo o INALD, reedita quase toda sua obra, digo quase toda porque eu sei que “Nuvens Que Passam” não foi reeditada, é quase como uma introspecção retrospectiva porque, passando estes trinta e quatro anos, a literatura angolana começa a olhar para os seus pais fundadores não é? Digamos que as pessoas que lêem os escritores angolanos, começam a ver que é preciso ver a onde é que ela mergulha em termos de raízes de influências, eu não estou a pensar nas raízes, as suas influências, os pais fundadores, então resumindo, é um momento bom.

 

C.F- falando de Óscar Ribas, a quando da última passagem do Michel Laban por Luanda, na conversa que tivemos, a propósito do passamento físico de Óscar Ribas, dizia, na referida conversa que o Óscar Ribas, lhe teria escrito dizendo gostaria de ter acesso as seu primeiro livro justamente este “Nuvens Que Passam” porque tinha a intenção de fazer a reedição, acha que seria profícua a reedição desta obra?

 

I.M- Claro, então? Eles só não reeditaram porque não conseguiram arranjar, não conseguiram um exemplar, claro que seria, é a primeira obra de Óscar Ribas, é a primeira de 1927.

 


C.F- Alguns críticos, dizem que em termos de aspectos negativos da sua carreira enquanto escritor, nas suas obras fazer dedicatórias, favoráveis ao sistema colonial, pode-se interpretar este aspecto como uma espécie de macula no seu percurso enquanto escritor?

 


I.M- Não, eu não crio que seja um apelo positivo ao colonialismo, não, não foi isto que ele fez, no entanto este foi um momento completamente diferente. Portanto, é preciso contextualizar o homem no seu tempo, ele não é um homem da geração da Mensagem, não é um homem da geração da cultura. Portanto, é preciso ver que o Óscar Ribas, primeiro foi um autodidacta, segundo é que o seu ambiente social, o seu ambiente cultural, era muito diferente do ambiente cultural de um Viriato da Cruz, de Agostinho Neto, obviamente que a retórica dele era um retórica diferente não é? Sem sombras de duvidas, mas mais importante, é verdade que nós podemos analisar o escritor sobre varias perspectivas, como cidadão e como artista e, neste caso eu prefiro olhar para o Óscar Ribas como artistas, e não apenas como artista, mas como cientista. Porque, ele preocupou-se com a questão dos usos e customes, com a questão linguística, então é isto que me interessa. Ora, se nós olharmos de facto para o passado político de muitos artistas, nós vamos encontrar sempre em algum momento que ele foi menos enfático, em que ele foi menos vamos chamar de menos corajoso, em que ele foi mais ambíguo, mas isto acontece com muitos, mesmo com os escritores da actualidade. Atenção, muitos dos escritores da actualidade se formos escarafunchar, o passado político deles, encontramos muitas coisas que eles não põem na sua biografia, e isto é bom que as pessoas saibam, há muitas coisas do passado dos políticos que eles rasuram ou omitem da sua biografia, não é? Agora eles estão aqui para poderem fazer isto, eu costumo a ler a biografia de muitos escritores e dá –me vontade de rir, há coisas que eles não põem, porquê? Porque são coisas que eventualmente que eles hoje não fariam, não é? Portanto isto acontece.

 


C.F- No capítulo da qualidade da literatura angolana, recuando nos anos 80, havia um crescimento acentuado na produção literária, por parte da União dos Escritores Angolanos, e da Brigada Jovem de Literatura Angolana, cujos membros fundadores são hoje os escritores seniores, tendo em conta que o quadro actual é diferente, isto poderá empobrecer a literatura Angolana?

 

I.M- Não, eu acho que não, eu não acho que o entusiasmo seja menor, porque eu vejo que a quantidade de obras que são publicadas, diz que o entusiasmo não é menor, de maneira alguma eu concordo com isto, eu acho que existe ainda, e acho muito positivo a vontade dos jovens poderem publicar, poderem ter o estatuto de escritores, eu acho isto muito positivo. Ora, nem sempre aquilo que eles publicam é bom, mas isto é outra questão, nem sempre aquilo que se publica n Brasil é bom, nem sempre aquilo que se publica em Portugal é bom, nos Estados Unidos por este mundo fora. No entanto, eu acho que o que existe e olhando para estas bancas todas, cada vez que fico seis meses sem vir a Luanda, eu fico desactualizada, em termos das coisas que são publicadas, isto tem sido positivo, eu não acho que tem havido um enfraquecimento na vontade, não acho de maneira nenhuma.

 

C.F- Um dos barómetros para medir a qualidade da literatura, é a critica literária, em termos de crítica literária como é que acha que nós estamos?

 

I.M- Estamos mal, isto sim, estão mal, porquê? Porque a critica literária, é maioritariamente feita a partir de fora, isto não é bom, porquê. Porque eu não estou a querer dizer que o olhar do estrangeiro seja menos legitimo, não é isto que eu estou a dizer, eu estou a dizer que nenhuma arte, nenhum aspecto da sociedade se desenvolve, e a literatura é uma produção da sociedade, é o produto de toda uma dinâmica cultural devia haver, e eu penso que também com o facto de não ter havido durante muito tempo da faculdade de Letras ter estado fechada, e isto também contribuiu para o enfraquecimento e para esta dependência psicoideológica dos críticos do exterior, que muitos dos quais se acham donos do barómetro da qualidade literária, isto é mal, eu acho que com a Faculdade de Letras, vai ser muito bom, as pessoas vão se formar, vai haver um circulo da critica que realmente dialogar com o circulo da critica de fora, seja em Portugal, seja no Brasil ou seja numa outra parte qualquer, e ai sim vai haver um equilíbrio, o que existe hoje eu acho que é negativo, eu acho que esta dependência Psicoideológica, da critica que é feita no exterior não é boa para dinâmica do fenómeno literário angolano.

 


C.F- Esteve na coordenação do livro de homenagem dos dez anos após a morte de Mário Pinto de Andrade, gostaríamos de saber se já pensou numa iniciativa similar, relativamente ao Viriato da Cruz? Já que está radicada em Portugal um possível contacto com o Carlos Horta, que terá sido das pessoas que terá recebido o maior número de cartas do Viriato

 


I.M- Não! É preciso dizer que esta ideia surgiu de uma relação afectiva que eu tive com o Mário Pinto de Andrade, eu era próxima dele, e a morte dele abalou-me bastante, eu era próxima. Aprendi muito com ele, e porque Mário Pinto de Andrade era critico literário, porque Mário Pinto de Andrade, não era escritor de criação, ele era critico, tirando um ou outro poema que ele escreveu, mas ele não era um escritor, ele era critico, historiador da literatura e tudo isto, então isto fez com que realmente dez anos depois da sua morte, eu me sentisse digamos que tentada a homenageá-lo, com o livro em que realmente o que é valorizada é a sua faceta sobretudo de intelectual. Agora sobre o Viriato, já houve muitos não é! Já há livros sobre o Viriato e na há muitos livros sobre o Mário Pinto de Andrade, eu acho que devia fazer esta pergunta as pessoas que escreveram livros sobre o Viriato, estas pessoas não escreveram sobre o Mário Pinto de Andrade.

 

C.F - Faz parte de uma equipa multidisciplinar que trabalha na historia da literatura angolana, em que grupo de trabalhos está enquadrada, e a quantas anda este trabalho?


I.M- Bem o meu grupo é grupo que fala precisamente dos primórdios da literatura. Portanto, nativismo até ao Segredo da Morta, antecedemos ao “ MOVIMENTOS DOS NOVOS INTELECTUAIS DE ANGOLA” a quantas anda, eu acho que não só a pessoa mas indicada para falar disto, porque há coordenadores, entre eles está o vice Ministro da cultura, mas o meu grupo está a trabalhar, é um grupo que muito cedo se organizou dividiu tarefas, deste grupo fazem parte, eu, o Piris Laranjeira, que é professor de literatura africana na Universidade de Coimbra, Luis Kandjimbo, que é vice Ministro da cultura, e a Rosa Cruz e Silva, que é a Ministra da cultura. Portanto, é um grupo que muito cedo se organizou dividiu tarefas, e cada um sabe qual é a parte que lhe cabe, quanto ao andamento dos outros grupos não posso falar.

 

C.F - Uma palavra para aqueles que pretendem navegar para critica literária?

 

I.M -Olhe, navegar na crítica literária, primeiro eu acho que tem ler muito, e eu acho que as pessoas lêem pouco, tem que ler muito, muito e muito. Portanto, isto é valido para que pretende navegar para critica literária e quem quer ser escritor, só que para quem quer fazer critica literária, também tem que ler teoria, não é! Tem que dominar os conceitos, quer dizer não pode estar a chamar a uma alegoria de metáfora, não pode dizer que uma personagem é pessoa, não pode dizer que o tempo da historia é a mesma coisa que o tempo da narrativa. Portanto, tem que dominar a terminologia teórica, mas em primeiro lugar tem que ler muito.

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