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Entrevista com o professor Jacinto Rodrigues da Universidade do Porto . Destaque

Escrito por  Claúdio Fortuna
As nossas cidades, fruto das especulações têm se lhes destruído os elementos naturais, o ideal é salvaguardar o dialogo da natureza com a tecnologia, permitindo uma cidadania mais harmoniosa, estes sãos os argumentos de razão do professor Jacinto Rodrigues, professor catedrático da Universidade do Porto, onde tem estado nos últimos anos a leccionar a cadeira de eco urbanismo, de certeza que o caro leitor se questiona, afinal de contas o que é isto? Ele em primeira pessoa encarrega –se de explicar, o nosso convidado é Doutorado em sociologia urbana em França onde esteve exilado, o professor jacinto Rodrigues é um catedrático, com uma vasta experiencia académica  não só em Portugal com em França, é natural de Luanda onde nasceu e fez os seus estudos liceais, é seguramente um apaixonado pelo continente berço da humanidade, como prova está no facto das suas investigações cientificas nos estarem muito ligadas ao nosso continente, e o eco urbanismo é dos seus campos de estudo.
Quem é o cidadão Jacinto Rodrigues?


Eu sou, o cidadão António Jacinto Rodrigues, professor catedrático da Universidade do Porto, tenho uma formação diversificada, porque venho da filosofia, isto é licenciado em filosofia, depois tive muito anos no estrangeiro, estive exilado, onde estudei sociologia e urbanismo, e doutorei-me em questões das cidades e da arquitectura, e sou professor actualmente de ecologia urbana na universidade, estou acabar a minha carreira académica, vou me reformar dentro em breve, mais a particularidade de ser natural de Angola, nasci em Angola desde muito pequenino, estudei aqui fiz aqui em Luanda o liceu, depois fui para Portugal onde me licencie em Filosofia, depois veio a guerra colonial, onde eu devia fazer parte do exercito parte do exercito colonial, então resolvi desertar e fui para o estrangeiro onde estive no exílio, lá fora fiz a minha formação e obtive uma bolsa da ONU, e fiz os meus estudos e cheguei a ser professor em França, depois com a revolução dos escravos é que eu voltei a Portugal, e tenho contacto sempre com Angola, tenho cá família, venho varias vezes e faço parte do Centro dos Estudos Africanos, e tenho feito algumas contribuições teóricas, tenho feito algumas investigações que dizem respeito a África, entreguei aqui na ADRA, uma brochura sobre uma investigação que fiz, sobre o desenvolvimento para África.


Gostaríamos que nos desconstruísse, esta questão dos ecos, desde a, eco cidadania, eco urbanismo, eco tecnologia, eco industria etc?


Bom, como sabe a questão da ecologia é uma ciência recente, que podemos defini-la como uma ciência com consciência, ela até tem sido defenida por sociólogos e ecologistas em geral, como uma revolução na nova maneira de pensar, uma forma portanto de eco Sofia, podemos dizer que uma é sabedoria baseada nos conhecimentos que e a ciência ecologia nos trouxe, acrescentando a ela, portanto uma ciência com consciência. Portanto, quando a gente diz eco – é qualquer coisa como o eco desenvolvimento, quando a gente desenvolve conceitos como eco escola, eco cidadania, eco polis, eco região etc, sempre queremos dar a entende que no fundo queremos ter  como fundamento das observações e das investigações sempre a ecologia, por exemplo muitas vezes há economistas que tendem a pensar que a economia é uma coisa uma ciência especifica, ecologia é outra coisa, mas se nós formos mesmo a raiz linguística da palavra economia, ecologia, nós vemos que na base de tudo, o grande modelo global, podemos dizer a grande alma mater do pensamento, está sempre relacionada com a biosfera e portanto à ecologia é a ciência da biosfera como à economia, só se for contabilidade e que se divide da biosfera, portanto a principal motivação da economia deve ser à gestão da biosfera, a ideia do eco da presença do eco no quadro do desenvolvimento, nós devemos pensar sobretudo sempre em função da biosfera,  porque esta em ultima instancia é o maior eco sistema, da qual o homem está dependente, não se pode separar o homem desta biosfera que nos envolve, e toda economia toda sociedade todo pensamento inclusivamente, está ligado a este conceito ultimo que é a biosfera.


Como é que podemos ler o eco urbanismo nas cidades angolanas?


Portanto, um dos aspectos fundamentais quando a gente fala da ecologia, é o eco desenvolvimento, é o conceito do desenvolvimento ecologicamente estreitado, é que como sabe a vida e sobretudo a vida da biosfera, funciona sempre numa relação directa entre o que seria uma gestão integral da terra, fazendo com que o principio protelante, que foi uma dirigente do movimento ecológico, considerar de que tudo que nós fizemos a terra, tem que ser susceptível a respondermos de igual modo pelo menos as gerações vindouras, se nós não conseguirmos introduzir mudanças na terra que prossigam na possibilidade da bio regeneração, e que possamos fazer com que as gerações futuras não sofram com a nossa presença nesta terra, portanto não podemos dilapidar a terra que vamos deixar aos nossos filhos, este conceito de renovabilidade, de estruturas recicláveis de eco urbanismo tem haver com isto, temos que construir cidades que permitam ser justamente, auto – sustentáveis e ecologicamente, isto é tem que se basear no metabolismo linear, em que não devemos viver numa dissipação, não viver na esgotabilidade, na contaminação e na exclusão social, mas ao contrario devemos viver suportados por uma inteligência verde que permita justamente a capacidade de regenerar até chegar.


Qual seria a ligação entre o tradicional e chamado ciclo tecnológico?


Bom, eu creio que o tradicional é já um paradigma que passou, no entanto nós devemos ter memoria e devemos ter sempre a capacidade de auscultar e perceber que no passado e na memoria há patrimónios da humanidade, portanto não devemos deitar fora tudo aquilo que foi aprendizagem da humanidade ao longo de milhares de anos, mais o conceito de eco desenvolvimento e o conceito de uma visão nova de um paradigma emergente que nós todos queremos formar um mundo melhor para humanidade, tem que haver a inovação e criatividade, esta inovação e criatividade, tem que levar em consideração a ciência e no conhecimento da realidade ecológica. Por isso eu acho que o paradigma ecológico se quisermos, é um paradigma que tem que ter respeito pela tradição,  mais tem que ser também uma inovação, tem que ser uma visão cientifica e eco tecnológica, porque temos que abordar novos desafios, e a humanidade tem desafios permanentes, e estes desafios têm que ser encarados numa perspectiva de um paradigma que já não é o passado.


Que lições nós podem tirar com o modelo arquitectónico de Taj Mall, que é uma estilo de arquitectura que já dura pelo menos 600 anos, e que curiosamente foi feita com materiais tradicionais ou seja a terra?


Sim, por exemplo a tradição mostrou que muitas construções que fizeram-se, e que foram famosas e que constituíram para a humanidade elementos que são as maravilhas da actividade humana neste planeta e que finalmente a gente descobre hoje, que foram feitas com materiais muito simples, há uma tecnologia apropriada materiais completamente recicláveis como sejam a própria terra, cuja a plasticidade é fantástica para o uso da arquitectura, para o uso portanto duma construção de moradias, mas tudo isto tem que ser sempre visto nas naturais inovações que a ciência também trouxe, o trabalho com o Pizé na traição com adubos tradicionais podem já ser capazes de responder as necessidades do momento, mas o adubo também recebeu nos últimos anos modificações e achegas tecnologias próprias que fazem da possibilidade de uma dita tecnologia tradicional ser agora inovada, há coadjuvantes que a gente pode meter no adubo, há maneiras de proceder na tecnologia que fazem do adubo hoje um material perfeitamente capaz de concorrer com outros materiais ditos tecnológicos, e com benefícios fantásticos, o adubo feito de terra está a mão não é, porque a terra está aqui permanente, e a sua apropriação é muito simples, e a tecnologia conhecida pela humanidade, evidentemente tem ser também apetrechada, com novas competências, sobretudo por ela não ser poluente e é reciclável, uma cidade uma construção tem ser vista em todo seu processo global, desde a origem até digamos ao fim do edifícios, entanto temos que pensar sempre as construções como o seu próprio fim, o quê que vai acontecer quando uma construção de betão é demolida, ou já está envelhecida etc, etc.


 muitas vezes é muito difícil reciclar isto, mas se for uma habitação de terra é totalmente reciclada, se for uma habitação feita de madeira é reciclada, ao passo que o cimento não é reciclado de imediato, é reutilizável e  difícil de reutilizar, quando ela está em estado decrépito e também sobretudo pelo facto de a utilização do cimento é caro, e é poluitivo, o  cimento exige queimas, gasta-se energia, gasta-se lenha para se fazer o cimento e poluísse atmosfera, e verificou-se nos últimos anos, os próprios centros de investigação que realmente, que o cimento tem uma perenidade menor, quer dizer que as casas de cimento duram menos que as casas de terra, aquele exemplo de Taj mall, e a prova que realmente  de um edifício com seiscentos anos,  quando agora começou a ter problemas, e feito os primeiros retoques, verificou-se que era de  barro e de bambu, isto prova que o material tradicional é resistente e susceptível de servir também de construções nas sociedades contemporâneas, agora, a cidade é uma coisa mais vasta ela deve ser lida e também nos termos da ecologia e da cidadania, ligando a cidade ao natural, a cidade é um eco sistema artificial, mas deve conter elementos naturais, e o elemento natural deve dialogar com elemento artificial.


 As nossas cidades frutos das grandes especulações, têm se destruído  os elementos naturais, portanto eu acho que o é importante é salvaguardar o dialogo da natureza, com a tecnologia, permitindo uma cidadania mais harmoniosa, uma cidadania mais sã, porque como sabe uma cidade sem arvores, alem de ser terrivelmente, já não pode verificar atmosfera, uma cidade com arvores é sempre uma beleza, é um alimento para nossa  alma, portanto a existência das arvores, a existência dos jardins,  tudo isto constitui, um elemento da bio – climatização, e um momento de agradabilidade para a nossa alma, é um valor estético que é fundamental hoje no conceito das pessoas, muitas vezes as pessoas dizem assim mais, porquê que há tanta violência na cidade? Porquê que há tanta patologia social? Porquê que há tantos problemas de criminalidade?


Porque, muitas vezes a maior parte das nossas cidades há secura, a estética das cidades é tal que a alma humana fica doente, nós temos que ter cuidado em que as nossa cidades devem ser saudáveis, a cidade deve ser agradável e bela, e neste aspecto não devemos esquecer.


Está é a virtude de razão do professor de ecologia urbana?


Eu ensino ecologia urbana, porque penso que sem a ecologia urbana, sem a ligação de um elemento natural com o elemento artificial, nós não podemos criar uma harmonia entre o homem e a natureza, nós somos os elementos que vêm da natureza e portanto a natureza está dentro de nós, e nós somos parte desta natureza, naturalmente que parte da cidade tem de ter esses elementos.  


Enquanto filósofo, como é que encara, à questão trazida pelo filosofo francês Michel Foucault, proferida a um grupo de arquitectos francês em 1967 sobre as heterotopias ou sejas os outros espaços, cá para nós como é que podemos caracterizar os nossos Musseques?


A questão dos Musseques têm que ser lida, é fruto de uma realidade histórica, o problema é que os Musseques de Luanda teve um impacto e surgiram de forma anormal a situação de guerra, arrastou  milhares de pessoas que vieram para uma cidade que não tinha capacidade de dar resposta a tanta gente, foram situações completamente anómalas, e agora para se resolver este problema é preciso, não só agir na cidade é um elemento muito restrito, para se resolver o problema de uma cidade é preciso muitas vezes tocar no território em geral,  é preciso perceber o que é o problema da descentralização necessária, no território, é saber que a solução de uma cidade depende não muitas vezes só dela mas do conjunto das outras cidades, da armadura urbana do território em geral. Portanto, para se resolver o problema de Luanda, eu penso que temos que se resolver o problema das cidades a volta de Luanda das cidades ainda mais periféricas, do conjunto das cidades, do conjunto da armadura das estradas, do conjunto das energias e só descentralizando um território nós podemos ter uma demografia, uma população distribuída de uma forma mais positiva.


Quanto a questão da forma se fazem os estudos das cidades, acha que se deve integrar na formação das equipas uma multidisciplinaridade de competências?


Sim, hoje não se pode pensar a arquitectura, não se pode pensar o país, não se pode pensar os aspectos de um território, se nós não fizermos uma abordagem digamos que holística, isto é em que haja vários olhares científicos, varias sensibilidades, por isso é que eu acho que não pode haver nunca a solução da moradia sem se olhar para o triangulo, moradia, ecologia e cidadania, ou se quiser melhor seria dizer, eco moradia, eco cidade, ou eco construção e eco cidadania e, eco tecnologia, quer dizer tudo isso é preciso ter uma visão integrada, e deve ser integrada cada vez mais ao meu ver,  por uma nova visão uma nova mentalidade, e está nova mentalidade é a inteligência verde é a sabedoria, uma nova sabedoria que a humanidade tem que adquirir a que os filósofos chamam de eco Sófia, que é um nosso pensamento,  um pensamento que não pode ser mecanicista, um pensamento que tem raízes milenares, que tem raízes no povo mais que também tem uma contribuição fundamental no investimento da ciência e da tecnologia e da evolução da humanidade.


Uma palavra para o crescimento da urbanização galopante de Luanda?


Não, eu acho que tem que se perceber o que sucedeu em Luanda, tem que se perceber as anomalias que se sucederam com a situação das guerras, temos é que fazendo um diagnostico, saber como é que se faz a cura, sobretudo uma cura profilática, não se pode julgar que a cura de uma cidade só se pode fazer melhorando apenas a cura desta cidade, a profilaxia é encarar as causas que ela teve, tem de haver uma visão cultural ampla, abrangente, é mexer no território em geral é mexer nas estruturas viárias, é mexer no saneamento e mexer no desenvolvimento produtivo, é mexer no contexto energético de todo país, só assim é que a gente pode criar condições de estabilidade para desenvolver no sentido de eco polis de uma cidade com eco regiões em termos de desenvolvimento ecológico.  

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