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A última ouvinte Destaque

Escrito por  Francisco Soares
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A última ouvinte é o título de uma despretensiosa coletânea de contos de Gociante Patissa, escritor natural de Monte Belo, município do Bocoio, província de Benguela (em Angola, claro). O livro foi lançado na última 6.ª F.ª, 17 de Setembro, na Rádio Benguela, delegação da Rádio Nacional de Angola na cidade onde Patissa vive.

A editora (e promotora do evento) foi a União dos Escritores Angolanos, sendo este ao mesmo tempo o primeiro lançamento de livros organizado em Benguela pela secção local da UEA – finalmente reativada. Depois de um período em que a literatura parecia ter sido carbonizada por estas paragens, ela vem renascendo das cinzas e toda uma sincronia de ações e obras confirma-nos isso, como é o caso desta. A cerimónia decorreu no Auditório da RNA – Benguela e acabou com uma sessão de comes e bebes assistida e finalizada por um repentino desafio de improvisos poéticos e musicais em simultâneo.

 

Retornando à meada, esta é a segunda obra do autor, sendo a primeira uma reunião de poemas sob o título Consulado do vazio.

 

A última ouvinte possui, como aqueles poemas, a virtude de uma linguagem simples sem deixar de ser poética. Não se trata apenas de desfilar estórias que intriguem, suspendam e surpreendam o leitor. As estórias são boas, tiradas ao quotidiano, sobressaindo de situações facilmente identificáveis no quotidiano de muitas pessoas. Atravessa-as um sentido de humanidade e de dignidade que asseguram a função social e política dos contos. O autor recorre ainda a ambientes rurais e urbanos, não para retratá-los na fixidez dos quadros tradicionais, mas observando e posicionando-se nas dinâmicas culturais trazidas pelo choque, pela colaboração, pela interação entre ruralidade e urbanidade, que inevitavelmente vai despoletar uma série incontrolável de processos de transformação de hábitos, esquemas de pensamento, costumes e da própria visão do mundo. Mas a narrativa não vive só de estórias nem de conteúdos, tanto quanto o homem não vive só de pão. Ela precisa dessa outra fonte incontornável da literatura que é o trabalho artístico sobre a linguagem, articulado sobriamente ao trabalho artístico sobre o enredo. É o trabalho artístico sobre a linguagem que nos dá a verdadeira dimensão do escritor.

 

No caso de Gociante Patissa, a linguagem caracteriza-se por dois ou três traços: um sentido rítmico apurado e próximo da fala corrente; o recurso a um vocabulário também comum à fala corrente; o uso de figuras de estilo (principalmente analogias) sem exibicionismos que tornam folclórica tanta literatura produzida hoje. Do último traço, o mais artístico (não por usar figuras de estilo mas pela oportunidade, originalidade e sobriedade com que as usa), dou alguns exemplos tirados ao acaso para aguçar o apetite dos leitores:

 

"D.ª Judith saía em defesa do seu café, que corria o risco de arrefecer" (p. 38) – atente-se, não apenas na ironia da segunda frase, também na da primeira (não era o café que precisava de defesa, mas a personagem que precisava de bebê-lo).

 

"O novo estatuto lançou nos olhos do profeta a ramela das grandezas" (p. 40) – atente-se na escolha do disfemismo ("ramela") para criar um oximoro com "grandezas"; pela oposição entre a suja insignificância da remela e a imensidão que é um dos traços semânticos da grandeza cria-se um efeito de humor e ficamos avisados desde logo sobre a falsidade da grandeza do profeta, ou seja, para o tipo do falso profeta.

 

"[…] refilou no mistério da sua cabeça e não respondeu" (p. 45) – realmente a nossa cabeça é um grande mistério, maior ainda quando a personagem é construída sobre algo que a caracteriza e ela própria nunca explica, nem o autor explicou ainda.

 

"Sentados à volta do fogo para desafiar o frio da época" (p. 46) – claro que não era propriamente para desafiar o frio mas para se aquecerem, desejo que o autor nos apresenta como desobediência ao clima justamente por esta metáfora verbal. Observe-se ainda o trabalho sobre os sons, o ritmo interno da frase, não só o seu ritmo normal mas o que lhe traz a repetição dos sons [v] e [f], culminando na proximidade sonora de [frio] e [desafiar].

 

"a velhice passou, pouco a pouco, a engolir a força do velho Kamuku" (p. 48) – repare-se como o sentido figurado sugerido por "engolir a força do velho" personifica "a velhice" ao mesmo tempo que a torna próxima da monstruosidade da morte, engolindo impiedosamente as nossas vidas.

É de ficar atento ao autor e de ir lendo a obra

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