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O Riso Legítimo de Mornas Eram as Noites, de Dina Salústio

Escrito por  Diego de Albuquerque Alves Moreira
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(...) a rua é mais que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! (...) é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte (...) A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas (...).

A rua resume para o animal civilizado todo o contorno humano.João do Rioi O riso deve corresponder a certas exigências da vida em comum. O riso deve ter uma significação social. Henri Bergsonii

Pelo fato de as ruas serem tão humanas, como menciona João do Rio, elas conseguem, em suas dinâmicas, refletir seus habitantes e, conseqüentemente, suas vidas. Vejo Dina Salústio, então, como uma escritora que enxerga, assim, como João do Rio, o espaço da rua com grandes olhos para buscar sentimentos e comparações, a fim de constatar e refletir sobre o dia-a-dia de seus habitantes. No caso dela, o do cabo-verdiano.

Bernardina de Oliveira Salústio - que atende pseudônimo de Dina Salústio - nasceu na Ilha de Santo Antão, Cabo Verde, em 1941. Ela já atuou como assistente social, produtora, diretora de Rádio Educativa, entre outras atribuições. Possui diversos textos poéticos e narrativos, entre os quais se destaca Mornas eram as noites, de 1993.

A obra reúne mini-contos que surgem como flashes de situações cotidianas vividas por mulheres e por homens cabo-verdianos. Entre as situações, encontramos variados temas, como o afeto, amizade, a atração sexual, mas a maior parte dos contos enfoca temas próximos da tragédia, como por exemplo, a violência contra a mulher e contra a criança, o machismo, a miséria, a prostituição.

Ao longo desse trânsito de histórias, os narradores parecem estabelecer um compromisso diante do mundo que os cercam, levando-os a pintar situações, pensamentos, fisionomias e até mesmo almas de pessoas. Desta maneira, quando entram na intimidade desses locais, os narradores buscam conseguir gerar uma reflexão no leitor, para trazer à tona uma nova percepção do meio social.

Evidenciando, certo olhar comprometido com a realidade, os contos de Mornas eram as noites, jogando com o riso, proporcionam ao leitor uma subversão dos temas ligados ao lado trágico da vida, por exemplo, à morte. Assim, o livro de contos, ao dar voz a outros narradores, conduz-nos a transitar por situações passadas nas ruas, retirando da banalidade cenas comuns do cotidiano cabo-verdiano.

O riso, que tem intrigado muitos pensadores desde Aristóteles até a contemporaneidade, surge nos contos como espaço de questionamento, possibilidade de romper as barreiras do silêncio e fazer o leitor se aproximar de temas passados em Cabo Verde, mas que se estendem ao universo humano em geral. Afinal, nunca deixamos - e provavelmente, nunca deixaremos - de falar de abuso, violência, prostituição, entre outros temas. Como observa Lélia Parreira Duarte, seguindo os estudos de Henri Bérgson, “normalmente visto como sinal de alegria, o riso pode (...) revelar (...) o sofrimento, paradoxalmente evidenciado em toda a sua crueza”iii. O texto de Mornas eram as noites traz uma explosão de palavras, de pensamentos, de situações engraçadas, que aponta para os leitores a possibilidade de - ainda na visão de Duarte - "ultrapassar o mundo o 'ser que somos', precário, limitado e mortal, mascado pela falta e pela impossibilidade de atingir o total conhecimento. Pelo riso o ser pode sair da verdade (...), opondo-se ao mundo racional e finito definido ou ratificado pela organização social"iv.

A obra se ergue em torno desta temática e assim surgem variados contos que sugerem entre outras facetas ligadas ao riso, uma idéia ambivalente, ou tragicômica da vida. Entre eles, escolhi o conto "Um ilegítimo desejo" a fim de mostrar essa visão que, de acordo com Nietzschev, é necessária para sairmos do olhar demasiadamente sério da crença na razão e na positividade da vida.

O conto narra a história de uma prostituta chamada, sugestivamente, Djina - um habitante por excelência do espaço aberto da rua; espaço que aparece, ora como um campo monótono, impregnado de elementos cíclicos, ora como o espaço das novidades. Tomando, portanto, como base sua trajetória de vida, o texto, por meio do recurso de um jogo sofisticado de ironias, leva-nos a discutir - como aponta o título - a legitimidade e a ilegitimidade dos desejos.

Bergson nos ensina que "para compreender o riso, impõe-se colocá-lo no seu ambiente natural, que é a sociedade"vi. Portanto, nada melhor que a rua, nada melhor que uma esquina, de onde, inclusive, "passavam também os corpos a caminho do cemitério"vii. O conto inicia-se com uma afirmação do narrador, que nos convida a refletir com ele: "Um indivíduo pertence legitimamente a determinado sítio a partir do momento em que lhe é reconhecido o direito da propriedade de uma esquina qualquer que seja. Ou simplesmente como ponto de cruzamento de estações, opiniões e olhares"viii. Com isso, o narrador delimita seu tema. Falaremos de reconhecimento, opiniões e olhares. Projeta-se assim de saída a visão crítica do narrador, que parece nos dizer que só é possível entender o social se olharmos as suas relações de perto. E continua: "Eu não pertenço a Nova York ou a São Paulo"ix, possibilitando-nos a completar seu pensamento, dizendo .

Os tempos passam, Djina vivencia outras experiências como a do cliente que tenta obrigar-lhe a entrar no cemitério; proposta diante da qual recusa, pois o cemitério é declaradamente o espaço do seu maior medo. Anos depois, já velha, Djina morre. Como diz a narrativa, de forma econômica, mas contundente: "a esquina acordou sem ela"x. É neste momento que o conto desconcerta e provoca o leitor. Percebe-se que esta visão está longe de qualquer visão trágica apenas. Pelo contrário, cria-se uma situação de ironia tragicômica que nos leva a indagar: como habitará Djina - enquanto morta - o espaço que mais lhe causava medo? E por que este espaço lhe causava medo? É intrigante a ironia da situação criada, fazendo o texto crescer em relação ao riso.

As ironias não nascem do simples olhar da realidade, mas a partir da vivência da situação de um sujeito, o que gera, em si, uma mordaz pintura do individual circunscrito no social. O sobrinho de Djina - Raul - pede a um tocador de violino que execute para sua falecida tia uma música "Uma só. Não a clássica morna hora di bai, mas uma canção francesa que falasse de amor — com todo o respeito, senhor - soluçou o sobrinho"xi. Note-se que - conforme aponta Jorge Valentim - “a recusa da tradicional morna "Hora di Bai" não significa necessariamente uma negação da música cabo-verdiana. Se lembrarmos que a hora da partida é marcada por uma saudade profunda, sua execução se tornaria até uma redundância"xii. Como o texto irônico foge, naturalmente, do lugar comum, mostra-se que não seria a clássica morna uma escolha para marcar uma saudade profunda.

A morna é um gênero musical tipicamente cabo-verdiano. Trata-se de um símbolo nacional tocado com instrumentos acústicos - que lhe dá um andamento lento, geralmente num compasso binário, com apenas uma tonalidade (monotônica). Estas composições melódicas, além de questões universais, abordam alguns temasxiii ligados à região, como, por exemplo, a insularidade, o regresso, o mar. Como aponta Sônia Maria dos Santosxiv, em sua Dissertação de Mestrado, a morna era "cantada originalmente com as tradições orais, à noite, nas reuniões à soleira da porta e dos terreiros", mas que expandida pela vida crioula, consegue se difundir para além do Arquipélago, atingindo assim outros mercados, como o europeu, o norte-americano, por meio de nomes, como, por exemplo, Cesária Évora.

A recusa da morna é assim uma ironia, que funciona como uma "denúncia da condição decadente e degradante da mulher cabo-verdiana, colocada diante de dois caminhos impassíveis: a esquina da venda do corpo e o terreno do descanso mortal"xv. É nesta recusa subversiva que, ironicamente, o contar se fixa. O texto parece dizer que é na arte, ou na luta por ela, que existe a viabilidade de resistência e libertação humana. A partir da execução, com maestria e sem partitura, da canção em francês, a personagem Djina consegue seu descanso, pois o tocador rompe a morte e consegue quebrar a finitude da vida: "ela sorriu no outro mundo e descansou para sempre ao lado de um anjo que falava francês"xvi.

Proppxvii evidencia que o riso está ligado a certa idéia de distorção, isto é, algo que é capaz de contrariar certas regras intituladas e difundidas socialmente. O que me parece o salto deste texto é o fato de o riso, de acordo com as estratégias apresentadas, conseguir romper com grande força a finitude da vida e o espaço da morte, e assim ser capaz de fazer leitor refletir sobre o valor do ser humano, pois, conforme aponta Mueckexviii, a ironia restaura o equilíbrio quando a vida é levada muita a sério, ou quando não está sendo levada a sério o bastante.

Em muitos aspectos reside a maestria da narrativa de Salústio: seja na aparente simplicidade com que conjuga sofisticados artifícios literários, na abordagem dos temas, na tensão que seus textos estabelecem entre a crônica e o conto, e ainda, inclusive, nas lacunas que o riso deixa para o seu leitor preencher. A narrativa de Dina Salústio desperta assim nossa inquietação e propõe um novo olhar para o mundo que nos cerca.

Referências bibliográficas:

BERGSON, Henri. O riso, ensaio sobre a significação da comicidade. Trad. Ivone Castilho Benedetti. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

DUARTE, Lélia Parreira. "Riso e morte: submissão e libertação". In: O riso. Departamento de Literaturas Românicas/Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lisboa: Edições Colibri, 2002.

FERREIRA, Manuel. A aventura crioula ou Cabo Verde, uma síntese étnica e cultural. Lisboa: Ulisseia, 1967.

MUECKE, D. C. Ironia e o irônico. São Paulo: Perspectiva, 1995, (col. debates).

NIETZSCHE. O Nascimento da tragédia. Trad. Jacó Guinsburg. Companhia das Letras, São Paulo, 1996.

PROPP, Vladimir. Comicidade e riso. Trad. Aurora Fornoni. São Paulo: Ática, 1992.

RIO, João do Rio. "A Rua". In: A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretaria Nacional da Cultura, 1987.

SALUSTIO, Dina. Mornas eram as noites. Lisboa: Instituto Camões, 1999.

SANTOS, Sonia Maria. A oportunidade do grito: Mornas eram as noites, de Dina Salústio. Orientadora: Simone Caputo Gomes. Tese defendida na UFF, 1997.

VALENTIN, Jorge. "Música do Silêncio: O canto e a voz em Mornas eram as noites, de Dina Salústio". In: A palavra silenciada " estudos de literatura portuguesa e africana. Rio de Janeiro: Vício da leitura, 2001.

i RIO, 1987, p. 3.

ii BERGSON, 1983.

iii DUARTE, 2002, p. 10.

iv Idem, ibidem, p. 11.

v NIETZSCHE, 1996.

vi BERGSON, op. cit., p. 22.

vii SALUSTIO, 1999, p. 36.

viii Idem, ibidem.

ix Idem, ibidem.

x Idem, ibidem, p. 37.

xi Idem, ibidem.

xii VALENTIN, 2001.

xiii Segundo Manuel Ferreira, a morna é lamentosa, mágoa da vida, eco de coisas distantes, sentimento contido que une e marca profundamente o povo cabo-verdiano. FERREIRA, 1967, p. 234.

xiv SANTOS, 1997., p. 36.

xv Idem, ibidem, p. 37.

xvi SALÚSTIO, op. cit., p. 38.

xvii PROPP, 1992.

xviii MUECKE, 1995.

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