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O Cão e os Caluandas de Pepetela e a Tradição Lucianica

Escrito por  Aulus Mandagará Martins
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Introdução

O objetivo deste artigo é mapear elementos formais e temáticos que possibilitem estabelecer um diálogo intertextual entre O cão e os caluandas de Pepetela e a tradição luciânica. O ponto de partida desta reflexão é a presença do humor como traço fundamental da construção narrativa, não apenas como tema ou assunto, mas sobretudo como forma, através de estratégias e procedimentos textuais específicos que configuram certa dicção ou vertente do cômico na literatura.

 

A tradição luciânica tem como figura central Luciano de Samósata, sírio helenizado, que viveu provavelmente no segundo século da era cristã, autor de cerca de 80 obras (que constituem o corpus lucianeum)1, cuja influência é perceptível em escritores como Erasmo de Rotterdam, Rabelais, Cervantes, Sterne, Dostoeivski, Machado de Assis2. Bakhtin localiza a tradição luciânica no âmbito da literatura carnavalizada; ao estudar um dos gêneros vinculados a essa perspectiva, a sátira menipéia, faz o levantamento de 14 aspectos temáticos e formais, dentre os quais destacamos a incorporação de elementos da utopia social e a natureza "jornalística" do texto literário3. Se O cão e os caluandas pode ser lido como um libelo contra a tecnoburocracia instalada no poder (simbolizada na buganvília, "cujos galhos, em crescimento avassalador, estão destruindo a casa angolana", conforme Benjamin Abdala4), a narrativa, através do gesto libertador protagonizado pelo cão, evidencia o sonho utópico.

Ainda pela ótica bakhtiniana, o texto de Pepetela é o retrato das metamorfoses sociais em conseqüência da recente libertação política de Angola. O passeio do cão pela cidade é um passeio pelas várias camadas sociais que se (des)organizam na cidade, propiciando um olhar mordaz em direção às novas classes surgidas ou promovidas a partir da Independência, como os oficias da burocracia estatal e os intelectuais proletários, como Tico, o poeta, do episódio de abertura.

Por seu turno, Enylton de Sá Rego define cinco características para a obra de Luciano, as quais caracterizam, em sentido amplo, a tradição luciânica: (1) mistura de gêneros; (2) uso da paródia; (3) liberdade da imaginação, que permite ultrapassar as exigências da história e da verossimilhança; (4) caráter não-moralizante da sátira; e (5) ponto de vista distanciado do narrador5. Entende-se, pois, por tradição luciânica os traços gerais da poética de Luciano e sua recepção literária, que determinam ao mesmo um tempo um espírito (a zombaria levada às últimas conseqüências, resultando uma percepção melancólica ou desencantada da realidade) e um método (uma obra baseada não na mimesis aristotélica, mas guiada pela paródia)6.

É possível perceber em O cão e os caluandas, de uma maneira mais ou menos explícita, a presença dos cinco aspectos da tradição luciânica acima discriminados.

Talvez o traço mais evidente dessa tradição seja a mistura de gêneros, ou gêneros intercalados, para usar a expressão de José Guilherme Merquior a respeito da influência dessa mesma tradição em Machado de Assis7. Transcrições de depoimentos e conversas, relatórios, atas, ofícios, requerimentos, diários, cenas em modo dramático, matérias jornalísticas, entrelaçam-se constantemente, de modo a dificultar ou impossibilitar a classificação genérica. Parece-nos que Pepetela utiliza essa "instabilidade genérica" como estratégia narrativa destinada a problematizar o estatuto ficcional, postura afinada com o espírito e método da tradição luciânica. No presente artigo, trataremos, contudo, apenas, e de forma introdutória, dois aspectos da tradição luciânica presentes em O cão e os caluandas: o uso da paródia (cuja análise permanece nos limites dos elementos paratextuais) e o ponto de vista distanciado do narrador. Paródia e paratexto O cão e os caluandas possui, numa primeira visada, dois paratextos autorais anteriores ao texto, as dedicatórias e o "Aviso ao leitor". Por definição, o paratexto é, segundo Gérard Genette, tudo aquilo que acompanha, prolonga ou está em torno do texto, contribuindo para a edição do livro e sua recepção enquanto tal8, ou ainda, de acordo com a expressão de Philippe Lane, tudo o que se encontra na periferia do texto.

Nesse sentido, muito mais do que peças acessórias ou circunstanciais, ou elementos de uma prática editorial, podem constituir-se em eficientes estratégias textuais integradas à estrutura literária.

Genette, ao analisar o uso e funções das dedicatórias, define dois grupos, considerando a relação entre o autor e a pessoa a quem a obra é dedicada: as privadas e as públicas9. No primeiro caso, o autor dedica a obra a alguém por razões pessoais, íntimas, destacando laços de amizade, parentesco e outros vínculos afetivos. No segundo, o autor manifesta, pela dedicatória, uma relação pública, seja de ordem intelectual, artística, política. É importante lembrar, contudo, que da perspectiva do leitor em relação ao texto, toda dedicatória é pública, visto que publicada, materializada em um objeto que, precipuamente, circula em uma esfera pública.

Pepetela apresenta duas dedicatórias a O cão e os caluandas: uma, "pública"; outra, "confidencial". Essas designações, muito mais do que definir a relação do autor com a pessoa homenageada, parecem indicar uma paródia desse elemento paratextual. Se toda dedicatória é, por princípio, pública, uma "dedicatória pública" é uma redundância e uma "dedicatória confidencial" constitui-se em um paradoxo. Assim, redundância e paradoxo apontam para um deslocamento da função da dedicatória. Não se trata de evidenciar uma relação pública ou privada do autor, mas de jogar com os termos antitéticos "público" e "confidencial", sugerindo, através de uma piscadela irônica, que a narrativa propriamente dita, contaminada pelas dedicatórias, articula-se nessa mesma dialética, ou seja, o confidencial que se torna público. Nessa perspectiva, talvez Pepetela brinque com as expectativas do leitor contemporâneo da primeira edição do livro (1985), que certamente esperava revelações confidenciais do ex-Ministro da Educação da República de Angola que, então livre das restrições éticas que o cargo lhe impunha10, tornaria público segredos de Estado. De qualquer modo, para o leitor atual, a paródia da dedicatória desestabiliza os limites do texto e do paratexto, ou dito de outra maneira, do que está dentro e do que está fora do texto.

"Aviso ao leitor" ocupa uma posição ambígua no contexto da obra. Enquanto elemento paratextual, "prefácios", "avisos ao leitor" e "advertências" têm por função assegurar ao texto uma boa leitura11. Assim, constituem se em explicações prévias e supostamente indispensáveis à leitura da obra, sugerindo que algo deve ser elucidado antes que o leitor entre no texto. É, pois, nesse terreno paratextual que algumas regras do jogo são definidas. No caso de O cão e os caluandas, o "aviso" (cujo tom é algo solene) é assinado pelo "autor"; portanto, Pepetela, cujo nome vem estampado na capa do livro, autor que, investido do direito que lhe confere a autoria da obra, havia-a dedicado a quem bem desejara. No entanto, o "Aviso ao leitor" mais confunde do que esclarece, sobretudo se considerarmos a data da primeira edição de O cão e os caluandas. Nesse caso, o autor ocupa uma posição, tanto espacial quanto temporal, por assim dizer extravagante, deslocada, já que o seu lugar de enunciação é a mítica Calpe, no ano de 2002. Além de provocar um distanciamento no tempo e no espaço (que será comentado a seguir), o autor burla as fronteiras do fato e da ficção. O autor torna-se ficção; a ficção imiscui-se à realidade, ativando a dialética do que pertence/não pertence ao texto, do que está do lado da ficção e do lado de fora da ficção.

O "Aviso ao leitor", oscilando em um espaço entre o texto e o paratexto, põe por terra o "esforço documental" a que o texto aspira, ao apresentar-se como um "inquérito rigoroso", sustentado em “documentos escritos ou gravados".

A paródia dos elementos paratextuais mencionados desdobra-se na paródia da literatura tanto como forma de representação quanto repertório de códigos ou procedimentos que definem sua natureza. Ao narrar no "Epílogo" o desfecho das aventuras do cão por Luanda, o autor retrata-se em dois episódios suplementares, em que corrige e destrói a narrativa. A necessidade de retratação deve-se à descoberta de episódios que contradizem o desfecho proposto. Nos episódios que se seguem, o que se apresentava como documento revela-se falso, ou pelo menos algo que não deve ser tomado como verdadeiro. O que atesta a falsidade da versão do autor (ou dito de outra forma: o "documento" que comprova a possibilidade de outras versões) é um texto jornalístico em que o redator, advogando completa isenção diante do evento reportado, toma deliberadamente partido a favor de uma das possíveis versões do evento narrado, distorcendo as informações de acordo com seus interesses. Sendo impossível documentar a realidade, nada mais resta ao autor senão, no segundo episódio suplementar (denominado "Primeiro episódio outra versão possível") apelar para o sonho, em evidente contraste com o "inquérito rigoroso" exposto no "Aviso ao leitor".

1. Distanciamento do narrador

A posição do narrador, que forja um distanciamento da matéria narrada, é outro aspecto importante da tradição luciânica. Para Jacyntho Lins Brandão, trata-se de uma estratégia a cujo efeito "o ordinário revela-se parádoxon, isto é, invertem-se as perspectivas e, na epifania do ridículo escondido em cada ação comum, as coisas se mostram no que são"12. Na obra de Luciano, segundo Enylton de Sá Rego, o ponto de vista distanciado assume três aspectos distintos, dos quais vamos aproveitar apenas o primeiro: (a) narrador que, presente no texto, vê o mundo do alto, de um ponto de vista privilegiado; (b) narrador que, ausente, é mero observador de suas personagens; (c) narrador que, embora presente no texto, não assume seu ponto de vista, deixando o leitor, contudo, entender suas opiniões13. Em O cão e os caluandas, o ponto de vista distanciado diz respeito ao posicionamento do narrador, que se coloca afastado no tempo (em 2002) e no espaço (na mítica Calpe). O privilégio dessa visão tem a seu favor tanto a distância física quanto a distância histórica. Trata-se, portanto, de um olhar de longe e retrospectivo. Ao falar do presente como se passado fosse, o narrador/autor neutraliza, de um lado, o caos social e político instalado na jovem República de Angola, sugerindo a superação da crise no futuro, numa possível metamorfose de Luanda em Calpe. Tanto que, no "Aviso ao leitor", apela para o esforço deste em entender a linguagem da narrativa, que é a da época dos eventos narrados. Por outro lado, entretanto, a atualização da utopia (ao nomear Calpe) vem reforçar o sentimento distópico diante da ruína dos ideais revolucionários. Se as coisas de fato melhoraram, por que o narrador/autor está em Calpe e não em Luanda? O texto apresenta ainda outras formas de distanciamento do narrador. Apenas para citar um exemplo, no episódio "No Mar anda uma Toninha", o narrador, "empoleirado numa árvore", vê o cão pela primeira e única vez.

Outro modo de distanciamento do narrador não apontado por Enylton de Sá Rego, mas que nos parece conciliável com a tradição luciânica, não remete à distância em relação aos eventos narrados e sim ao texto. Nesse caso, o narrador distanciado assume uma posição de desprendimento ou supervisão quanto ao texto14. Assim, ao corrigir o texto, retratar-se diante do leitor, ou intervir com comentários sarcásticos ou autodepreciativos, o narrador assume uma perspectiva irônica que revela certa desilusão, não apenas diante da vida, mas diante da literatura, de seu papel na sociedade ou seu valor estético.

Conclusão

A paródia, utilizada em escala sistemática, e as modalidades de distanciamento do narrador, aliadas aos diversos recursos do cômico, possibilitam vincular O cão e os caluandas à tradição luciânica. Em Pepetela, o "espírito" e o "método" dessa tradição articulam uma visão da realidade que oscila entre os sentimentos utópicos e distópicos presentes na geração literária a que pertence, como também propiciam ao escritor angolano um produtivo diálogo com a tradição literária ocidental. Naturalmente que esse diálogo envolve vários aspectos não mencionados nos limites deste artigo, tais como, a dialética do riso e melancolia, o significado da metamorfose do cão (que assume diferentes facetas, nomes e estatutos simbólicos ao longo da narrativa), da cidade e da própria nação.

Referências bibliográficas:

ABDALA, Benjamin. "Notas sobre a Utopia, em Pepetela". In: De vôos e ilhas; literatura e comunitarismos. São Paulo: Ateliê, 2003.

BAKHTIN, Mikhail. Problems of Dostoevsky’s Poetcs. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1984. BRANDÃO, Jacyntho Lins. A poética do hipocentauro; Literatura, sociedade e discurso ficcional em Luciano de Samósata. Belo Horizonte, UFMG, 2001.

GENETTE, Gérard. Seuils. Paris: Seuil, 1987. LABAN, Michel. Escritores e poder político em Angola desde a Independência. União dos Escritores Angolanos. Disponível em: http://www.ueaangola. org/artigo.cfm?ID=152. Acessado em janeiro de 2007.

LANE, Philippe. La périphérie du texte. Paris: Nathan, 1992.

MERQUIOR, José Guilherme. "Gênero e estilo das Memórias póstumas de Brás Cubas". In: Crítica; ensaios sobre arte e literatura. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

REGO, Enylton de Sá. O calundu e a panacéia; Machado de Assis, a sátira menipéia e a tradição luciânica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.

ROUANET, Sergio Paulo. Riso e melancolia. São Paulo: Cia. da Letras, 2007.

PEPETELA. O cão e os caluandas. Lisboa: Publicações Quixote, 2002.

1 A respeito da biografia de Luciano e da constituição do corpus lucianeum, consultar BRANDÃO, 2001,p. 27.

2 Para a influência da tradição luciânica na obra de Machado de Assis, consultar REGO, 1989; recentemente, ROUANET, 2007, ampliou o debate, ao estudar o que chama de "forma shandiana" em, dentre outros Machado de Assis, cuja definição, em linhas gerais, é conciliável com a perspectiva trabalhada por Enylton de Sá Rego.

3 BAKHTIN, 1984, pp. 114-18.

4 ABDALA, 2003, pp. 246.

5 REGO, 1989, pp. 44-5.

6 Idem ibidem, p.67.

7 MERQUIOR, 1990, p. 333.

8 GENETTE, 1987, p. 7; ver também LANE, 1992.

9 GENETTE, op. cit., p. 123.

10 Consultar LABAN, a respeito do problema da relação dos escritores com o poder político em Angola.

11 GENETTE, op. cit., p. 183.

12 BRANDÃO, op. cit., p. 212.

13 REGO, op. cit., pp. 63-66.

14 O termo utilizado por Enylton de Sá Rego, na estira de outros estudiosos da obra de Luciano, para expressar o ponto de vista do narrador distanciado é kataskopos, quando o mais adequado seria episkopos, "supervisor", termo descartado devido a sua apropriação pela hierarquia católica para denominar o bispo REGO, op. cit., p. 206).

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