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IMPACTO DA TRADUÇÃO DE CONTOS ANGOLANOS EM LÍNGUA ÁRABE

Escrito por  Jomo Fortunato
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Diálogo intercultural é um dos objectivos da União dos Escritores Angolanos

Está em curso um ambicioso projecto de traduções, pela União dos Escritores Angolanos, que passa pela versão em inglês, francês, alemão, italiano, incluindo a língua árabe, de títulos referenciais da literatura angolana, concretizando um propósito que visa, fundamentalmente, o diálogo intercultural, entre os países, pela via da literatura.


Com diversas variantes linguísticas, a língua árabe é falada por duzentas e oitenta milhões de pessoas, é o idioma oficial de 22 países, está próxima do hebraico e das línguas neo-aramaicas, e possui mais falantes, dentro do tronco linguístico semita.


Embora existam muitos autores angolanos traduzidos, sobretudo nas línguas naturais europeias, recorde-se o "World of Mestre Tamoda", de Uanhenga Xitu e a versão francesa de "Quem me dera ser onda", de Manuel Rui, e a obra de Pepetela, um dos autores angolanos mais traduzidos, a intervenção da literatura angolana, no universo da língua árabe, pelo menos enquanto projecto, é inédita e denota uma intenção ambiciosa da União dos Escritores Angolanos.


As traduções em língua árabe poderão ser mais importantes do que possam parecer, porque não podemos perder de vista que há um substrato africano em toda a cultura mediterrânica, espaço de influência milenar da cultura árabe, e a divulgação da literatura angolana vai instaurar o reencontro de culturas, que, por sua vez, poderá propiciar o surgimento de clássicos universais, porque desconhecemos qual o impacto da recepção da estética da literatura angolana, no universo dos virtuais leitores do mundo árabe.


Sobre a hierarquia das leituras, importa recordar uma entrevista do ensaísta canadense, Alberto Manguel, concedida no dia 9 de Setembro de 1999, à revista brasileira "Veja", que, a dado momento, interrogado sobre se "É melhor ler publicações de qualidade do não ler nada?", em que o autor de "Uma história da leitura", diz-nos o seguinte: "não acredito em hierarquias absolutas no campo da leitura. Nos países árabes, que valorizavam a filosofia e a poesia, em detrimento da ficção, "As mil e uma noites" eram vistas como literatura barata. No ocidente, porém, o mesmo livro tornou-se um clássico. A dimensão de uma obra depende também da experiência pessoal de cada um, de quanto a nossa vida foi transformada por ela. É um tanto arrogante dizer "esse é o livro que você deve ler e esse é o que você não deve". Há obras certas para diferentes momentos da nossa existência", argumenta o estudioso de origem argentina.


Traduções recentes


A União dos Escritores Angolanos celebrou vários acordos de cooperação com as embaixadas de Angola em Portugal, Israel, Egipto, Brasil e França, que visam a divulgação e tradução de autores angolanos, e está concluída a obra "Como se viver fosse assim: antologia do conto angolano", em árabe, com textos seleccionados pela escritora Domingas de Almeida, somando uma tiragem de mil exemplares.


No âmbito da literatura infantil, a União dos Escritores Angolanos verteu, para inglês e hebraico, as obras: "As duas amigas", de Cássia do Carmo, e "Jonito, Vovo Jujú e o arco-íris", da escritora Paula Russa, que, tal como a antologia de Domingas de Almeida, vão ser lançadas em Telavive, Israel. "Conversas de homens, antologia de contos angolanos", uma selecção de António Quino, estará presente no certame "Correntes da escrita", de 23 a 25 de Fevereiro, na cidade do Porto, com apoio da Embaixada de Angola, em Portugal.
Está ainda prevista a edição de uma outra antologia, em francês, pela Présence Africaine, fundada por Alioune Diop, em 1947, com tradução de Dominique Stoenesco e Iva Flores. O conjunto de textos denominado "Contes et nouvelles d'Angola", inclui vinte e três autores angolanos: António Fonseca, Arnaldo Santos, Benúdia, Boaventura Cardoso, Carmo Neto, Costa Andrade, Fragata de Morais, Henrique Abranches, Isaquiel Cori, Jacinto de Lemos, Jacques Arlindo dos Santos, João Melo, Jofre Rocha, José Eduardo Agualusa, José Luís Mendonça, José Mena Abrantes, Manuel Rui, Ondjaki, Óscar Ribas, Pepetela, Roderick Nehone, Rosário Marcelino e Uanhenga Xitu, foram os seleccionados.
Neto em espanhol


Está em circulação no mercado uma tradução, em espanhol, do livro "Agostinho Neto – Obra poética completa", com a chancela da Fundação Dr. Agostinho Neto. Sobre esta publicação, o Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos, Dr. Carmo Neto, afirmou o seguinte: " é muito importante que os falantes da língua espanhola tenham conhecimento das obras de Agostinho Neto, considerando que no mundo existem milhões de pessoas que falam espanhol. Neste momento, estamos a trabalhar na tradução para outros idiomas, como francês, russo, inglês, e alemão de antologias que reúnem, para além de Agostinho Neto, outros escritores nacionais. Já temos autores angolanos traduzidos em árabe. Significa que existe a preocupação de mostrarmos os nossos valores literários nos mais recônditos lugares do mundo com o objectivo de levarmos uma amostra da nossa literatura. A internacionalização da literatura angolana é um dos principais objectivos da UEA".


A opinião de Domingas de Almeida sobre a antologia traduzida


Domingas Econgo de Almeida, responsável pela selecção dos textos da antologia, nasceu em Luanda no dia 26 de Abril de 1984. É finalista do curso de Língua e Literatura Portuguesa, pela Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, e coordena o concurso "Quem me dera ser onda", promovido pela União dos Escritores Angolanos. Está a organizar a sua segunda antologia, desta vez uma colecção de textos poéticos de poetas angolanos, que será publicada com a chancela da U.E.A., inserida na colecção, "Guaches da vida".


Fazem parte da "Antologia de contos angolanos: como se viver fosse assim", um conjunto de quarenta textos de dezassete escritores angolanos: Arnaldo Santos, Carmo Neto, Dario de Melo, Fragata de Morais, Henrique Abranches, João Melo, José Eduardo Agualusa, José Samwila Kakweji", Manuel Rui, Marta Santos, Joana Maluca, Ondjaki, Pepetela, João Tala, Roderick Nehone , Henrique Guerra, e Sónia Gomes.


Sobre os critérios de selecção dos textos, respigamos um excerto do prefácio da antologia, com o título "Nuances discursivas", assinado pela autora: "A literatura africana contemporânea pertence a uma rede de cumplicidades, cuja matriz primeira é a tradição, fonte milenar que alimenta as narrativas africanas. Neste sentindo, os escritores estabelecem um pacto com as suas origens e, convocando outras memórias, seguem os percursos dos contadores ancestrais. O espaço matricial é recuperado em vários níveis, o destaque, no entanto, é a para a discursividade oralizada e a materialização de tal discurso, quando o autor modifica, altera a língua portuguesa ao introduzir termos e estruturas frásicas, oriundas do kimbundu, kikongo, umbundu e de outras línguas que representam o lugar da angolanidade. Logo, o conto angolano tem uma tradição oral, constituindo-se numa herança ancestral, baseada em lendas, mitos, fábulas e provérbios. Para esta antologia demos prioridade aos contos de autor que valorizam a cultura tradicional e de temáticas mais contemporâneas. São títulos fora do "grito" anticolonial, base de muita produção suficientemente divulgada nos períodos pós-independência. Sendo assim, textos como " Sassa –Lukaiu" e "Os dois filhos de Dom Petelo", in "Três histórias populares" e "Porque comi o meu mestre", in "O último feiticeiro", corroboram esta temática".

 

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