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O Arquétipo Feminino Em Quatro Poemas Da Série "Mukai" de Ana Paula Tavares

Escrito por  Érica Antunes Pereira
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O presente trabalho pretende ressaltar a recorrência do arquétipo feminino em quatro poemas intitulados "Mukai", encontradiços na obra O Lago da Lua (1999), de Ana Paula Tavares. Para tanto, procurar-se-á embaçar em suas características mais marcantes, como o bucolismo, o realce da vida simples e interiorana aliada ao uso coloquial da língua, a valorização dos objectos, seres e elementos naturais e a constante referência ao corpo feminino como suporte para a vida.

Advogada, professora, especialista em Literatura Brasileira, mestrada em Estudos Literários (Diálogos Culturais) pela Universidade Estadual de Londrina (UEL - Brasil) e Co-editora da Revista Nave da Palavra (). Contacto: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

O presente trabalho pretende ressaltar a recorrência do arquétipo feminino em quatro poemas intitulados "Mukai", encontradiços na obra O Lago da Lua (1999), de Ana Paula Tavares. Para tanto, procurar-se-á embaçar em suas características mais marcantes, como o bucolismo, o realce da vida simples e interiorana aliada ao uso coloquial da língua, a valorização dos objectos, seres e elementos naturais e a constante referência ao corpo feminino como suporte para a vida.

Com tal estudo, ainda, pleiteia-se comprovar a liberdade de expressão retratada pelos versos livres e sem ritmo acentuado, bem como a evidência do erotismo e da sexualidade feminina em meio à simplicidade e à profundidade do pensamento cotidiano.

No poema "Mukai (1)" (Tavares, 1999:30), o eu-lírico fala em "corpo já lavrado/ equidistante da semente", ou seja, refere-se a um corpo de formas maduras, capaz de fecundar, daí associar-se a palavra "lavrado" à lavoura, "universalmente considerada como um ato sagrado e, sobretudo, como um ato de fecundação da terra" (Chevalier e Gheerbrant, 2002:537). Nota-se, portanto, a comparação do corpo feminino com a terra, tratando-se de uma mulher "já" iniciada sexualmente e capaz de gerar, frutificar.

De acordo com Löis Lancaster (2002), a poesia de Paula Tavares "é marcada pela pluralidade de significação que caracteriza a modernidade, pela presença do erotismo subtil e das metáforas que evocam através de elementos naturais da região em que nasceu, a sensualidade, a força e a fragilidade da condição feminina."

No mesmo sentido se manifesta Kátia da Costa Bezerra (1999:51), para quem "a imagem da mulher mantém uma forte analogia com a imagem da terra e do próprio continente numa percepção que pode remontar para os próprios valores culturais africanos."

Retomando "Mukai (1)", observa-se que "corpo já lavrado" está "equidistante da semente", ou seja, a distância entre ambos é a mesma e evidencia, mais ainda, o carácter de maturidade sexual da mulher. Quando o eu-lírico se utiliza da palavra "semente", é de se remeter à palavra "sémen", de modo que pode ser vista, com Chevalier e Gheerbrant (2002:813), como símbolo da fecundidade, "a força da vida, e a vida humana."

O corpo também é classificado pelo eu-lírico como "trigo", "joio", "milho híbrido" e "massambala", cereais que podem ser associados ao "dom da vida" (id:906).

O trigo, especialmente, assinala "a perenidade das estações, o retorno das colheitas, a alternância da morte do grão e de sua ressurreição em múltiplos grãos" (id:906).

Já o joio costuma representar a pessoa ruim entre as boas, o que leva a pensar que aquele "corpo já lavrado" pode ser, ao mesmo tempo, "trigo" e "joio", ou seja, tanto pode ser visto positiva como negativamente por idêntica função: a de gerar frutos.

O milho, conforme Chevalier e Gheerbrant (id:611), "é o símbolo da prosperidade, considerado em sua origem: a semente". No entanto, verifica-se que, no poema, o milho é "híbrido", ou seja, provém de espécies diferentes, é composto de elementos de origens diversas. Logo em seguida, o corpo é qualificado como "massambala", que significa milho-miúdo e serve para alimentar galinhas ou para preparar fubá.

Nota-se, assim, uma degradação: trigo ® joio ® milho híbrido ® massambala, o que revela, em última análise, o processo de envelhecimento por que passa aquele "corpo já lavrado" e "equidistante da semente".

A segunda estrofe, ao introduzir a ideia da resistência ao tempo, traz à torna o ciclo da vida, em que "todo movimento toma forma circular, do momento em que se inscreve em uma curva evolutiva entre um começo e um fim e cai sob a possibilidade de uma medida, que não é outra senão a do tempo" (id:876). Assim, além de "lavrado" e "equidistante da semente", o corpo é descrito, agora, como "dobrado", "exausto" e "sob o sol/ que lhe espiga/ a cabeleira".

Os três últimos versos guardam uma simbologia enorme. O sol, por exemplo, como bem explicam Chevalier e Gheerbrant (id:836), "é considerado fecundador. Mas também pode queimar e matar". Deste modo, se, por um lado, representa a vida, pelo outro, se houver calor excessivo, pode conduzir ao oposto, à morte. Ao optar pelo verbo "espigar", porém, o eu-lírico leva a crer na propriedade positiva do "sol", que possibilita o crescimento e o desenvolvimento da "cabeleira", vista pelos citados autores (id:154) como "um dos símbolos mágicos da apropriação, e até mesmo da identificação".

De Chevalier e Gheerbrant (id:155) são, ainda, as seguintes palavras:

"No pensamento simbólico, os cabelos estão igualmente ligados à relva, cabeleira da terra, e, portanto, à vegetação. Para os povos agrários, o crescimento dos cabelos assemelha-se exactamente ao das plantas alimentícias".

Logo, pode-se inferir que o poema "Mukai (1) " trata do ciclo da vida e o eu-lírico compara o corpo feminino à terra graças a propriedade de frutificação de ambos. Nesse sentido, assinalam Chevalier e Gheerbrant (id:879):

"A terra fértil e a mulher são frequentemente comparadas na literatura: sulcos semeados, o lavrar e a penetração sexual, parto e colheita, trabalho agrícola e ato gerador, colheita dos frutos e aleitamento, o ferro do arado e o falo do homem. Segundo certas crenças, tanto na África quanto na Ásia, as mulheres estéreis podem tornar infértil a terra familiar e seus maridos têm o direito de repudiá-las por isso. Quando as mulheres grávidas atiram sementes nos sulcos enriquecem as colheitas, pois são fonte de fecundidade".

"Mukai (2) " (Tavares, 1999:31) também segue a trilha da comparação do corpo feminino com a natureza e o poder de gerar. Aqui, "o ventre" aparece "semeado", tratando-se, pois, de uma mulher grávida.

A palavra ventre, por si só, simboliza a mãe, e, segundo Chevalier e Gheerbrant (2002:937), é o mesmo "análogo à caverna, mas reflectindo particularmente uma necessidade de ternura e de protecção". Ana Paula Tavares, porém, prefere deixar claro o estado gestacional ao retratar "O ventre semeado/ [que] desagua cada ano/ os frutos tenros/ das mãos". O verbo "desaguar", utilizado no segundo verso, embora pareça, num primeiro momento, forte demais, é atenuado pelo adjectivo emprestado aos frutos logo em seguida.

Note-se, ainda, que a gestação é sazonal, tal qual a colheita, o que leva, mais uma vez, à proximidade da figura feminina com a terra e, conforme bem lembraram Chevalier e Gheerbrant (id:62), simboliza "a medida de um processo cíclico completo".

Outra imagem que reafirma a ideia da similitude da mulher com a terra é a de que "os frutos tenros/ das mãos" são desaguados pelo "ventre semeado", ou seja, a mão, na explicação dos citados autores (id:589), "exprime as ideias de actividade ao mesmo tempo que as de poder e de dominação". Em outras palavras, numa segunda leitura, as mãos poderiam ser tidas como os galhos de uma grande árvore, também esta símbolo da maternidade.

Em parênteses, num verso exclusivo, surge o que aparenta ser uma impressão do eu-lírico que, impossibilitado de explicar o milagre do nascimento, considera-o um "feitiço". Junto com o tenro fruto, "nasce/ a manteiga/ a casa/ o penteado": a primeira para representar o "umbigo da imortalidade", "o fluir da vida" (id:588); a segunda, empregada no "sentido de refúgio, de mãe, de protecção, de seio maternal" (id:197); o último, como "um meio de aproximação do eixo ou centro da vida" (...) como "signo distintivo da profissão, da casta, do estado, da idade, do ideal, ou seja, de tendências inconscientes" (id:707).

Como bem lembra Kátia da Costa Bezerra (1999:51),

"Tanto a terra como a mulher são marcadas como símbolos de fertilidade e fecundidade, sendo que a posição social da mulher funciona como um factor fundamental no processo de organização política, económica e religiosa da sociedade angolana. Em decorrência disto, a maternidade passa a ser percebida em muitas sociedades africanas como o elemento que define o significado do signo mulher, marcando seu status social e sendo um dado importante na cosmologia de muitas tribos africanas".

Desta forma, "o gesto/ acorda a alma" e "a voz/ olha p'ra dentro do silêncio milenar", ou seja, há uma mudança de estado, o movimento corporal de despertar "a alma" conduz à ideia de início de entendimento do âmago, ocasião em que também "a voz" se manifesta ao olhar "p'ra dentro do silêncio milenar" e se torna um "prelúdio de abertura à revelação" de "grandes acontecimentos" (Chevalier e Gheerbrant, 2002:834).

Pertinentes, aqui, são as palavras de Cármen Lúcia Tindó Secco (2002) ao ressaltar que

"Paula Tavares funda em Angola uma nova dicção poética que repensa a questão da sexualidade reprimida das mulheres. No entanto, não se exime de reflectir sobre as desilusões sociais, mostrando-se contrária à opressão e à dor. Põe em cena uma voz poética feminina reveladora dos abusos de poder sofridos tanto pelas mulheres da tradição rural angolana, como pelas de vivência urbana".

Em "Mukai (3)" (Tavares, 1999:32), a exemplo dos poemas anteriores, surge a mulher associada à terra e à condição de parideira. No primeiro verso, o eu-lírico, mais uma vez, invoca suas impressões e, como num aviso, entre parênteses, anota: " (Mulher à noite) ". Desde já é possível imaginar que a temática continuará a ser a da gestação, pois, de acordo com Chevalier e Gheerbrant (2002:640), "a noite simboliza o tempo das gestações, das germinações, das conspirações, que vão desabrochar em pleno dia como manifestação de vida". Tal teoria é comprovada a partir do quinto verso, " (rói-lhe as entranhas/ um novo pedaço de vida)" e "os cordões do tempo/ atravessam-lhe as pernas/ e fazem a ligação terra".

Chevalier e Gheerbrant (id:287), mais uma vez, servem-nos de amparo para explicar que o cordão pode ser visto "como a raiz pela qual o ser humano em gestação é preso à terra-mãe". Assim, é a mulher uma "Estranha árvore de filhos", o que deixa autorizada a comparação dos mesmos com frutos e a consideração da árvore como mais uma das formas de representação da fecundidade.

Os "filhos", "uns mortos e tantos por morrer", simbolizam "o aspecto perecível e destrutível da existência" (id:621), de modo que se recorre ao ciclo da vida para elucidar a proximidade que parece guardar com a terra, já que a morte, ao que demonstra, é apenas o resultado da vida que, por sua vez, é o resultado da morte, marcando o mito do eterno retorno.

A "estranha árvore de filhos", ao se pôr "de corpo ao alto" e navegar "de tristeza/ as horas", "evoca todo o simbolismo da verticalidade" (id:84) e, uma vez "oca, da mesma forma que a árvore de folhagem densa e envolvente onde se aninham os pássaros e que periodicamente se cobre de frutos, evoca, por sua vez, a imagem arquetípica lunar da mãe fértil". (id:88). Note-se, porém, que ela "navega de tristeza/ as horas", e que o verbo assume voz "de força e de segurança numa travessia difícil" (id:632), em que a "tristeza" é sentida em todo seu vagar e profundidade.

Sobre a recorrência arquetípica em Ana Paula Tavares já assinalou Rita Chaves (2000:273) que

"a consistência dessa poesia ultrapassa os terrenos incertos da mitologia descontextualizada com que se procura explicar o desconhecido que ainda encobre a realidade africana. Conceitos como maternidade, docilidade, resignação e outros, tantas vezes clicherizados pelo processo de exotização a que continuam sujeitos o continente africano e suas gentes, são revistos pela escritora que conhece bem o contexto que os gera ou explica sua perenização."

Nesse mesmo sentido se manifesta Cármen Lúcia Tindó Secco (2002), para quem "a poesia de Paula Tavares se faz também guardiã da palavra e da memória ancestrais, embora estas sejam estética e criticamente sempre recriadas. O lirismo de Paula se engendra, pois, como uma rede múltipla que conjuga signos da modernidade e da tradição".

"Mukai (4)" (Tavares, 1999:33) apresenta uma estrutura levemente diferenciada dos anteriores, já que, nele, a mulher não aparece, de maneira explícita, semelhada à árvore ou a terra, mas permanece associada à mãe e a parideira.

Tudo leva a crer que "O risco na pele" seja também uma espécie de rito de passagem em que a mulher se torna mãe. Tal inferência se deve, sobretudo, ao segundo verso, "Acende a noite", pois, como anteriormente assinalado, a palavra "noite" está agregada ao processo de fecundação e gestacional. O verbo "acender", por sua vez, conduz à ideia de sangue, "universalmente considerado o veículo da vida" (Chevalier e Gheerbrant, 2002:800).

Enquanto a vida é realçada, "a lua/ [por ironia] / ilumina o esgoto/ anuncia o canto dos gatos". Isso quer dizer que, apesar de se caracterizar como o reflexo do sol, a lua é, também, "fonte e símbolo de fecundidade" (id:562), e muda de fases e de formas, simbolizando "a dependência e o princípio feminino (salvo excepção), assim como a periodicidade e a renovação" (id:561).

No poema, ela, ironicamente, "ilumina o esgoto", o lado feio da vida, o que se deseja ocultar, e, além disso, "anuncia o canto dos gatos", imagem ligada à união da "potência criadora à sua criação, no momento em que esta última reconhece sua dependência de criatura" (id:176).

A clarividência felina parece restar comprovada nos dois versos seguintes: "De quantos partos se vive/ para quantos partos se morre", lembrando que, em primeira instância, é a lua quem ilumina - ainda que seja ela própria um reflexo do sol - tudo isso, e se caracteriza, portanto, na explicação de Chevalier e Gheerbrant (id:561), como "o símbolo desta passagem da vida à morte e da morte à vida", reiterando o mito do eterno retorno.

Na terceira estrofe, "Um grito espeta-se faca/ na garganta da noite", o grito é tido como "expressão da fecundidade, do amor, da vida: simboliza toda a alegria de existir" (id:479), a faca "é o princípio activo modificando a matéria passiva" (id:414), a garganta "é a passagem entre o dia e a noite, entre a morte e a vida; é a entrada, portanto, e, ao mesmo tempo, a saída das iniciações" (id:473) e a noite, como foi assinalado mais de uma vez, simboliza as gestações.

Interessante, mais uma vez, é a observação de Cármen Lúcia Tindó Secco (2002) acerca das características marcantes de O lago da lua: "o eu-lírico, então, passa a expor o corpo ferido, a pele pintada não mais de tacula, mas de cicatrizes (Tavares, 1999, p.33), a voz transformada em grito [que se] espeta faca/ na garganta da noite (Tavares, 1999, p. 133)."

O sofrimento, como bem explica a citada professora, é divisado, mas, mesmo assim, segue a mulher "recortada sobre o tempo", ou seja, envelhecida, "pintada de cicatrizes", que tanto podem ser de ordem física (as cicatrizes dos partos, por exemplo), como de ordem psicológica, caso em que as agruras assumem foros transparentes e reais. Seus olhos, porém, são "secos de lágrimas", o que evidencia o tamanho da dor e/ou da desilusão.

Nos dois últimos versos, a mulher-mãe pode repousar, pois "Domingo", é dia de descanso, "domingo, em especial o do Advento e o doutras festividades da Igreja" (Aurélio, 1999), representando, por isso, também uma espécie de renascimento, de ressurreição, novamente dando passagem para a ideia do ciclo da vida, do eterno retorno.

Finalmente, ela "organiza a cerveja/ de sobreviver os dias", em que aquela é tida como "bebida de imortalidade para os guerreiros na sociedade" dotada do "gérmen da vida" (Chevalier e Gheerbrant, 2002:223), dando a entender que, ao distribui-la, está, do mesmo modo, distribuindo vitalidade, força e esperança.

Giuliana Ragusa (1998), ao dissertar sobre a poesia de Ana Paula Tavares, afirma que "fecundidade e fertilização são imagens inequivocamente ligadas à mulher. Diríamos, pois, que a poesia exalta e exorta a mulher de modo consciente e delicado a assumir, após o rito de iniciação, sua voz e seu lugar no discurso e no mundo masculinos."

Para finalizar, vale a pena ler as seguintes palavras de Cármen Lúcia Tindó Secco (2002) sobre o mesmo tema:

"Há fios condutores de sua 'poiesis', a qual opera com certas invariantes: o trabalho com a voz e a recuperação da memória ancestral através da reinvenção estética de mitos, provérbios; 'o descansamento das palavras que trocam de pele como frutos, num procedimento escritural que lembra a técnica usada por Clarice Lispector', num constante desbastamento do verbo criador; a síntese e a condensação metafórica e metonímica que fundam, à semelhança da linguagem estética usada pelos poetas João Cabral de Melo Neto (brasileiro) e Arlindo Barbeitos (angolano), uma 'poética do menos'."

Desta forma, torna-se possível verificar que a vida, o sofrimento, a morte, os gestos dos membros do clã e os pequenos acontecimentos ganham, na linguagem transparente de Ana Paula Tavares, foros de universalidade, garantida pelo emprego recorrente de arquétipos e pela poesia enxuta altamente significativa.

Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Kátia da Costa. "Paula Tavares: uma voz em tensão na poesia angolana dos anos oitenta". In Estudos Portugueses e Africanos, Campinas: UNICAMP, n. 33 e 34, 1. e 2. semestres de 1999, p. 49-58.
  • CHAVES, Rita. "Resenha de O Lago da Lua". In Metamorfoses: Revista da Cátedra Jorge de Sena para estudos literários luso-afro-brasileiros. Lisboa e Rio de Janeiro: Editora Cosmos em parceria com a Faculdade de Letras da UFRJ, n. 1, nov. de 2000.
  • CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain [et al]. Dicionário de Símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Trad.: Vera da Costa e Silva [et al]. Rio de Janeiro: José Olympio, 17. ed., 2002.
  • FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio - Século XXI. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
  • LANCASTER, Löis. "Dois poemas de Paula Tavares". In site da internet: http://members.tripod.com/LangKaster/paula.htm, disponível em 15 de outubro de 2002.
  • RAGUSA, Giuliana. "Paula Tavares: a voz do feminino e seus ritos de passagem". Comunicação apresentada na "II Jornada de Literatura do Departamento de Vernáculas e Estudos Comparados da USP". São Paulo: USP, 18 e 19 de outubro de 1998, 12 p.
  • SECCO, Cármen Lúcia Tindó. "Ruminações do tempo e da memória na poesia de Paula Tavares...". In site da internet: http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=120, disponível em 22 de julho de 2003.
  • TAVARES, Paula. O Lago da Lua. Lisboa: Editorial Caminho, 1. ed., 1999.

Anexo:

MUKAI (1)

Corpo já lavrado

equidistante da semente

é trigo

é joio

milho híbrido

massambala

resiste ao tempo

dobrado

exausto

sob o sol

que lhe espiga

a cabeleira.

MUKAI (2)

O ventre semeado

desagua cada ano

os frutos tenros

das mãos

(é feitiço)

nasce

a manteiga

a casa

o penteado

o gesto

acorda a alma

a voz

olha p'ra dentro do silêncio milenar.

MUKAI (3)

(Mulher à noite)

Um soluço quieto

desce

a lentíssima garganta

(rói-lhe as entranhas

um novo pedaço de vida)

os cordões do tempo

atravessam-lhe as pernas

e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos

uns mortos e tantos por morrer

que de corpo ao alto

navega de tristeza

as horas.

MUKAI (4)

O risco na pele

Acende a noite

enquanto a lua

[por ironia]

ilumina o esgoto

anuncia o canto dos gatos

De quantos partos se vive

para quantos partos se morre.

Um grito espeta-se faca

na garganta da noite

recortada sobre o tempo

pintada de cicatrizes

olhos secos de lágrimas

Dominga, organiza a cerveja

de sobreviver os dias.

Érica Antunes Pereira Advogada, professora, especialista em Literatura Brasileira, mestrada em Estudos Literários (Diálogos Culturais) pela Universidade Estadual de Londrina (UEL - Brasil) e co-editora da Revista Nave da Palavra (). Contacto: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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