In “A saúde do morto”(2002)
Luís Fernando nasceu em Outubro de 1961, na aldeia de Tonessa, uma localidade que, como gosta de ironizar, não consta no mapa, situada algures na província do Uíge. É licenciado em jornalismo pela Universidade de Havana, foi correspondente da Rádio Nacional em Cuba, durante o período de formação. Exerceu jornalismo desportivo no jornal de Angola, na década de 80, diário de que é, actualmente, director-geral. Publicou o livro de reportagens jornalísticas “Noventa palavras”(1999) e este ano o romance intitulado “A saúde do morto”.
A propósito deste seu livro de estreia literária afirma em entrevista ao Jornal de Angola (13/9/02): “é a saga de uma homem que morre - neste caso de modo voluntário, numa morte deliberada, desejada, necessária - e depois, por artes sobrenaturais, ressuscita para poder retornar à liberdade. E se morreu e depois foi capaz de fazer o que fez, ter uma vida de aventuras sem fim, é porque teve saúde. Logo, ajusta-se a definição de um morto com saúde. É um título rigorosamente realista, estruturado em linguagem linear.”
A abrir esta sua primeira proposta literária, Luís Fernando cita o ensaísta Juan Rolf Carbalho: "Fundamentalmente, a vida de um escritor não é mais do que um confronto com os mitos pertencentes à cultura que nasceu." Indagado se sempre sonhou em escrever livros, sublinha que sempre foi seu "sonho ser escritor. Disse-o a pessoas próximas, mas também já o tinha assumido em entrevistas. A escrita como relato de factos reais ou inventados - ficção- vive comigo desde que aprendi a ler estórias aos quadradinhos e outras criações de entretenimento. Precisava apenas de dar o passo. Dei-o agora com “A saúde do morto”.
A respeito do momento actual vivido pela literatura angolana sublinha que” Estamos num momento de graça. Há como que o descolar da criação literária; cada vez são mais os nomes que juntam às lista dos que escrevem para promover prazer, gozo e fruição para si e os demais. É reconfortante assistir a tudo isto, testemunhar que apesar dos anos de violência armada - violência que descamba sempre em violência psicológica - nós , os angolanos, não perdemos a nossa capacidade de sonhar, de ter ilusões, de alimentar a utopia, de querer tocar e erguer coisas boas. A sensibilidade não se esvaiu na brutalidade da guerra, não levou o ódio nem a desesperança. No fundo, podemos dizer, apesar de tudo, nós!”
O crítico literário Jomo Fortunato considera que com a “Saúde do morto” temos um escritor que inaugura no universo da ficcionalidade(...) um texto definitivamente literário, onde o autor desenha uma escrita escorreita, de fácil digestão, com a marcha da narrativa a decorrer numa aldeola, Kapa, onde as pessoas se empenham em “saber cada vez menos para não atrapalhar a felicidade”.
O crítico literária destaca que “O encaixe da sucessão de eventos que preside a articulação do sentido dos factos narrados e a retoma de situações, fazem de “A saúde do morto” uma obra que acomoda a leitura e integra o leitor nos espaços de forma participativa.”
Fortunato sublinha também que “ Luís Fernando liberta-nos da datação dos factos, dando asas ao nosso imaginário, numa clara subversão ao nível do tempo exacto das ocorrências. (...) a dedução é que nos remete para a evidência de um tempo remoto”, acrescentando que “ Os mitos, as crenças inquestionáveis, os dogmas, as mortes temporárias, os fantasmas e as doenças incuráveis, longe de constituírem alusões gratuitas, enformam o móbil da acção narrativa e dão substância literária e fruição estética à obra, num hábil exercício retórico onde a mentira artística é regulada pelas reais convenções culturais dos costumes africanos”.
Finalmente, Jomo Fortunato afirma que “Tomessa”, aldeia natal do autor, terá inspirado a criação de Kapa - instância física que serve de cenário ao desenrolar da acção do romance”, rematando que “ ‘A Saúde do morto’ tem a honra de entrada no espaço privilegiado da moderna ficção narrativa angolana.”
