Bio Quem

ALDA Ferreira Pires Barreto LARA e Albuquerque

Presença Africana

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...

- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando

 

pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...

Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...


In: Poemas

 

Biografia e atuação:

 

Alda Lara cursou a Faculdade de Medicina em Lisboa e, depois, em Coimbra, onde concluiu o curso. Sua tese de licenciatura sobre a Psiquiatria infantil foi considerada de grande valia, motivo pelo qual recebeu o convite para ir se especializar em Paris. Foi-lhe assegurada, na época, a possibilidade de retornar a Lisboa e ocupar um cargo condizente com os seus estudos de pós-graduação, o que não conseguiu, em razão do forte sentimento que lhe prendia à terra natal. Chegou, outrossim, a realizar algumas conferências como médica, uma das quais versou sobre os trabalhos missionários realizados na África e sobre as questões da assistência médica. Suas conferências tiveram uma enorme repercussão e muitas delas foram publicadas.

 

Percurso Literário: época e geração

 

Poeta da Geração Mensagem, a escritora demonstrou, desde cedo, o seu amor pela arte. Irmã do poeta Ernesto Lara Filho e casada com o escritor Orlando Albuquerque, Alda Lara se envolveu, o quanto lhe foi possível, com a poesia. Tornou-se uma exímia declamadora. Nos seus recitais de poesia, em Lisboa e em Coimbra, Alda Lara divulgava a poesia dos poetas do além-mar. Naquela época, praticamente ninguém conhecia a poesia negra, sobretudo a africana. Ficou bastante conhecida como poeta, não só porque mantinha uma estreita ligação com a Casa dos Estudantes do Império - CEI, mas também porque foi colaboradora em jornais e revistas de relevância na época, tais como a Revista Mensagem- CEI, o Jornal de Benguela, o Jornal de Angola, o ABC e Ciência. Nessas publicações, surgiram os seus primeiros escritos poéticos, também publicados em várias antologias, até surgir o seu primeiro livro, intitulado Poesias, em 1960. Em 1969, publica o seu primeiro livro de contos, intitulado Contos portugueses do ultramar. Embora a sua obra não seja, de fato, muito extensa, em razão da sua vida atribulada e de muito sacrifício, sua expressão poética foi profunda em sentimento e angolanidade. Alda Lara carregava, na palavra, toda a ternura e a firmeza de uma verdadeira mulher africana, que se solidariza com o drama do outro e lhe dirige o olhar de uma atenta máter. Era uma narradora de reconhecido quilate. Tanto assim que, nos dias que antecederam a sua morte, Alda Lara ainda escrevia um livro de contos. Embora não tenha chegado a finalizá-lo, a artista conseguiu, até onde lhe foi possível, expressar os momentos angustiantes que Angola vivia e, paradoxalmente, o seu sentimento de esperança e fé num amanhã que ela sabia que não viria a conhecer.

 

Após a sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira, atual Lubango, decidiu instituir o Prémio Alda Lara de Poesia

 

Obra Poética: cronologia e publicações

 

  • 1958 – Antologia de poesias angolanas.
  • 1959 – Amostra de poesia. In: Estudos Ultramarinos.
  • [196?] Antologia da terra portuguesa.
  • 1962 – Poetas angolanos. `
  • 1963 – Poetas e contistas africanos
  • 1963 – Mákua 2 - antologia poética.
  • 1963 – Mákua 3 - antologia poética.
  • 1963 – Antologia poética angolana.
  • 1966 – Poemas. Obra Completa de Alda Lara (edição póstuma).
  • 1969 – Contos portugueses do ultramar (edição póstuma)
  • 1973 – Tempo de chuva. Lobito: Colecção Capricórnio (edição póstuma).
  • 1979 – Poesia. In: Cadernos de Lavras e Oficina (edição póstuma).
  • 1984 – Poemas. (edição póstuma acrescida de 5 poemas inéditos).

 

Crítica Literária:

Sobre a sua formação, a própria escritora afirmou:

(...) Ingressei em 1948 na Faculdade de Medicina de Lisboa. Uma só vontade me animava, um desejo único – fazer um curso que me pudesse tornar útil em Angola (...) Desejava apenas realizar uma vasta acção social em Angola, queria organizar postos de assistência gratuitos, cursos de puericultura e informação sanitária para as mulheres indígenas e quantas coisas mais. (EVERDOSA,1974, p. 68)

 

Sobre Alda Lara, escreveu Francisco Soares:

 

Ela nunca deixou de partilhar as preocupações da angolanidade, soube escrever aproveitando a superação lírica do neo-realismo realizada pelos poetas da Távola Redonda, ainda que mantenha por vezes um tom conclamatório e didáctico que de lá lhe terá vindo. (SOARES, 2001, p. 196)

Maria Nazareth Soares Fonseca em Corpo e voz em poemas brasileiros escritos por mulher, retoma algumas considerações a respeito da produção das escritoras africanas, referindo-se à escrita feminina de Alda Lara como a expressão da fase dura das lutas contra o regime colonial, em que o “fazer poesia significou um comprometimento com a luta pela libertação”. Afirma que seus versos cantam as belezas do continente ou denunciam as atrocidades impostas pela colonização, uma vez que tinham, por missão, fazer com que os africanos redescobrissem a África que existia por detrás da opressão. A autora reafirma ainda o seu pensamento, dizendo que é possível “degustar”, nos versos de Alda Lara, “os encantos de terra e a pujança de suas cores”, o que exemplifica pelos versos: “Minha terra... /Minha ternamente... Terra das acácias, dos dongos, dos cólios baloiçando, mansamente... / Terra!” Lembra também que, em outros momentos, o poema faz-se espaço de denúncia e os versos acolhem a dor das mulheres mães, noivas e filhas, como em: “Nos olhos dos fuzilados, / Dos sete corpos tombados / De borco, no chão impuro, Eis! ... sete mães soluçando... Nas faces dos fuzilados, Nas sete faces torcidas De espanto ainda, e receio ...sete noivas implorando... (LARA apud FONSECA, pp.173-185).

Sobre a narrativa de Alda Lara, Ana Maria Martinho também lembra:

Os seus textos são anti-novelas, na medida em que rejeitam a linearização do acontecimento e a natureza activa da sucessividade diegética. A composição ficcional de “uma realidade que se constroí como totalidade alternativa aos mundos visíveis e quotidianos»... «não da preocupação pela realidade exterior ao texto, não perspectiva naturalista que admite a inserção de comentários retóricos autorais sempre que necessário, mas da reflexão sobre o não visível, sobre a condição humana na sua ambigüidade”. (SOARES, 2001, p. 197)

 

Inocência Mata, ensaísta são-tomense radicada em Portugal há mais de 20 anos e professora de Literatura Africana da Faculdade de Letras de Lisboa, também dá-nos uma exacta noção da obra de Alda Lara, ao dizer que:

 

Na sua poesia, a mulher é sempre sujeito ou figura poética e na tematização do homem oprimido, Alda Lara concentra na mulher as direcções do sonho de libertação nos anos 50-60. E o sonho é portador de extrema esperança, mas e aí reside a diferença com a maior parte da poesia dos seus contemporâneos, nutrindo-se de ideais intemporais e universais como justiça, fraternidade/solidariedade, amor e paz, vão além da construção da nação... A força desse sonho percorre a sua poesia, em cuja enunciação discursiva não há espaço para as contradições e as aspirações de sentir individual. (MATA, 2001, pp.109-110)

 

Referências Bibliográficas:

 

EVERDOSA, Carlos. Roteiro da Literatura Angolana. Luanda: Edição da Sociedade Cultural de Angola, 1974.

 

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Corpo e voz em poemas brasileiros escritos por mulher. In: A mulher escritora em África e na América Latina. Ana Maria Mão-de-Ferro Martinho (Org.). Lisboa: NUM, 2000.

 

LARA, Alda. In: http://www.sanzalangola.com/lit0212.php 

 

________. Disponível na www: <URL: http://www.lusofoniapoetica.com>

 

________. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2008. [Consult. 2008-10-23] Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$alda-lara>.

________. Disponível na www: <URL: http://www.uea-angola.org/artigo

 

MATA, Inocência. Literatura Angolana: Silêncios e Falas de Uma Voz Inquieta. Lisboa: Mar Além, 2001/Luanda: Kilombelombe, 2001.

 

SOARES, Francisco. Notícia da Literatura Angolana In: Colecção Escritores dos Países de Língua Portuguesa. n.22. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001.

Informação Adicional

  • Nascido em: 09/06/1930-30/01/1962
  • Naturalidade: Nasceu em Benguela, Angola
  • Gênero literário: Poesia

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