Bio Quem

Castro Soromenho

"Calenga não pode dormir durante uma noite, sentindo fortes palpitações no coração e um zumbido de vozes misteriosas que lhe segredavam as mesmas palavras bonitas que ouvira, de olhos arregalados e garganta apertada, ao velho. Só mais tarde depois de conhecer os deuses e as suas histórias fantásticas, é que compreendeu que os segredos da raça e os mistérios da terra não eram tão tenebrosos como julgava. Foi nessa ocasião que ficou a saber que os homens e os seus segredos e a terra e os seus mistérios dependiam da vontade dos deuses. Então, ele convenceu-se de que os homens, por muito valentes e ricos que fossem, nada valiam em presença dos deuses. E Calenga teve medo dos deuses e venerou-os. No cercado da mucanda, Calenga perdeu todos os medos que apavoravam as crianças, ouvindo as longas e terríveis lições dos velhos educadores. E ficou a conhecer um mundo de coisas, cujo significado jamais saberia desvendar, mas que haviam de o inquietar durante toda a vida de caçador de borboletas e de grilos. Os velhos ensinaram ao moço que devia amar o seu povo e odiar todos os homens das outras tribos. E Calenga quis ser guerreiro, como o foram os seus avós que viveram na estepe, para matar todos os homens das tribos vizinhas e beber vinho de palma pelo crânio dos sobas mortos por suas mãos. Calenga aprendeu muitas histórias de guerras e de caçadas. E sentiu um louco desejo de se lançar na estrada da aventura. Mas a grande lição que o moço aprendeu foi a de se tornar irmão de todos os rapazes que, na sua companhia, foram iniciados no rito da circuncisão. Quando Calenga abandonou a mucanda, sabia muitas coisas que só os homens conhecem. Mas acima de tudo aprendeu a ser o companheiro, que é mais que irmão, dos moços que a seu lado foram sacrificados aos deuses da mucanda para ganharem o direito de serem homens." Excerto in conto "Calenga"

Nasceu em 1910 em Chinde, Moçambique, filho de pai português (que foi governador na Lunda)de e mãe caboverdeana. Cedo veio para Angola. Passou parte da infância e da juventude em Angola. Muito jovem trabalho como recrutador de mão de obra numa empresa mineira, exercendo depois funções coloniais. Trabalhou como chefe do posto na Lunda. Mas aproveitou essa sua qualidade para investigar a vida das populações locais, que serviram de matéria prima para a sua obra.

Aos 27 anos parte para Lisboa onde se dedica à actividade jornalística e inicia a sua brilhante carreira de escritor. O conhecimento profundo do processo colonial, seus agentes e suas vítimas, os estudos de cultura e história africanas, com particular acento sobre as raízes do processo nacionalista angolano, a escrita directa e rigorosa, fazem com que muitos o considerem já um clássico da literatura angolana. Exilado em Paris publicou diversos artigos na imprensa local a favor do nacionalismo e das populações desfavorecidas angolanas.

Leccionou na década de 60 em universidade brasileiras e norte-americanas, sobre a cadeira de Sociologia da África Negra. Faleceu em S. Paulo(Brasil), em 13 de Janeiro de 1968.

Publicou "Nhári- o drama da gente negra" (1939), "Noite de angústia"(1939); "Homens sem caminho" (1942); "Rajadas e outras histórias"(1943; "Calenga"(1945; "Histórias da terra negra"(1960) e a trilogia de camaxilo: Terra morta(1949), A chaga(1957) e Viragem(1970).

A respeito do seu percurso literário diz Castro Soromenho: "Desde que nos meus romances surgiram novas realidades e se me apresentaram as suas contradições, logo se me impôs, naturalmente, uma nova técnica e um novo estilo literário. O neo-realismo teria de ser o novo caminho". Num outro momento, em entrevista concedida a Mário Pinto de Andrade, publicada no "Jornal Magazine da Mulher", nº 38-39(Abril- Maio de 1954), o romancista reage, instado a pronunciar-se sobre o problema da expressão dos negro-africanos, nos seguintes termos: "Depende dos padrões de cultura em que os Negro-Africanos estão integrados. Uns, com raízes na sua "raça", só podem dá-la, naturalmente, através dos processos formais criados pela história da sua própria cultura. Em expressão literária temos que o Negro- Africano dá livre curso ao seu reportório tradicional , na sua linguagem própria e no seu ambiente. Outros, voltados para a Europa, são como "almas transfiguradas", nesse aspecto, a "alma negra" da África também se mantém distantante deles. É o caso dos assimilados que, por uma violência de desenraízamento, terão de fazer uma reintegração no seu meio nativo de início por via social", pontualizando que ,"no aspecto literário, há que criar uma nova linguagem uma nova base até de comparticipação cultural, para que todos os homens Africanos se sintam Africanos em África. Julgo ser este o caminho que alguns assimilados Africanos estão trilhando, quando exprimem através dos seus poemas, particularmente, não só os anseios do homem da sua "raça" mas também procuram inspirar-se nas suas tradições seculares. Partindo, pois, duma base nova felizmente em elaboração."

Indagado sobre a viabilidade de captação pela literatura das concepções, cultura e vida do homem negro, o romancista revela: "Toda essa captação é falível. Onde se fez melhor é através dos contos populares e das lendas de grande sentido poético. A exactidão e autenticidade da literatura oral Africana depende muito do narrador. E como se impõe a necessidade de narrar, a literatura tradicional é sempre fértil em possíbilidades novas".

Castro Soromenho destaca também que "Eu vim para literatura, conduzido pela poesia do homem negro. A Calenga revela que só se pode entender o natural da África Negra dentro do seu mundo. Fora disso, é o trbalhador e literariamente inexpressivo. O que importa, em última análise, é a expressão da condição humana do Negro- Africano."

A propósito dos termos em que se tem posto estes dois processos na sua actividade literária, o romancista refere, tratarem-se tecnicamente de dois ciclos: o da revelação da autenticidade Africana e o dos conflitos sociais, argumentando, por um lado, que " No primeiro ciclo procurei revelar os padrões de cultura do negro tribal. Desde os primeiros contos até à "Calenga" que venho trazendo a humanidade africana e não elementos decorativos da paisagem, à literatura portuguesa”; por outro " Ao iniciar com Terra Morta um novo processo, um novo ciclo, tentei precisar o choque de duas civilizações e o seu resultado por via da destribalização, com todas as suas consequências a favor da política colonial." O escritor insiste que "O resultado deste choque foi o aparecimento do negro desenraizado da vida tribal e não integrado na civilização Europeia e o do mestiço nos seus primeiros passos de homem marginal. Ao redor deles, o povo sertanejo apegado aos seus padrões culturais, resistindo às pressões estrangeiras. Entre eles, o branco e sobre de todos, a realidade e as contradições do sistema colonial." Na mesma esteira, o professor Manuel Ferreira refere que caberá ao autor "imprimir uma nova feição à autêntica ficção angolana. A uma primeira fase em que é dado o sentido do social, lendário e histórico, das comunidades tribalizadas, encaradas ainda de um ponto de vista estático, ou seja, dentro da produção do realismo mágico (...) (Nhári- o drama da gente negra, 1939, Noite de angústia, 1939; Homens sem caminho, 1942; Rajadas e outras histórias, 1943; calenga, 1945; Histórias da terra negra, (1960) sucede-se uma segunda fase, orientada para a representação de espaços e grupos humanos confrontados com condições de vida modificadas pela presença do europeu." Manuel Ferreira acrescenta que "Cruéis e implacáveis", as narrativas de Castro Soromenho (trilogia de Camaxilo) provocaram uma virada de centro e oitenta graus no romance africano de expressão portuguesa. A figura de Castro de Soromenho vai dominar os fins da década de 40, até que nas duas décadas seguintes outros se lhe vêm associar, mas poucos atingiram o nível por ele alcançado, reconhecido internacionalmente através de traduções em várias línguas e alguns estudos que foram dedicados à sua obra e personalidade literária, havendo ainda a realçar a sua literatura de viagens."

Mário Pinto de Andrade considera, no intróito da entrevista que respigamos acima, que: "Castro Soromenho é um escritor experimentado na literatura de ambiente africano, em terras da Lunda e Quiocos. Inteiramente alheio- acrescenta- a toda literatura de exaltação incondicional das lendárias figuras de "colonos", pode-se afirmar sem margem de erro que é o primeiro europeu a iniciar com Terra Morta o romance não-colonial mas africano "tout- court"."

O ensaísta Mário de Andrade frisa que "Nem sempre entendido em certos meios literários portugueses que fogem a considerar os homens e as terras para lá das coordenadas do Cabo da Roca, tem merecido , entretanto, as referências mais elogiosas dos críticos mais responsáveis e interessados não só nas coisas da África" mas também no conteúdo social dos romances da língua portuguesa", sublinhando ainda que "Afirmou-se mesmo logo após a publicação no Brasil de Terra Morta que Castro Soromenho foi o primeiro escritor a encontrar o autêntico estilo neo-realista para o romance."

A propósito da essência da sua obra, a professora brasileira Maria Aparecida Santilli sustentava, em 1985, que "roda pelos caminhos de uma terra em transe, chegará ao fim de uma penosa trilha de iniciação, nos sucessos que conformam a alma africana e naqueles que a vieram abalar, ao choque electrizante das raças, à contundência dos povos adventícios e nativos, ao atrito das estruturas sociais desirmanadas, em que os ritos sacrificiais acabam sendo os da imolação do homem da África, como o "pharmakós" que deve sucumbir-se na satisfação, na cupidez dos mais fortes, o aniquilamentos dos mais fracos".

O profesor Russel Hamilton sublinha que "Castro Soromenho exercia o seu ofício de escritor com mais esmero técnico do que a maioria dos seus antecessores e contemporâneos que escreviam sobre África. Todavia, a sua suposta capacidade de compreender e retractar o africano tem de ser vista no contexto do seu humanismo. O qual permitia que ele conceptualizasse qualidades e fraquezas humanas sem grande consideração para com distinções raciais", observando que "tal humanismo não significa que Soromenho não tinha algo de racismo cultural quando iniciou a sua carreira de escritor claramente dentro da tradição da literatura colonial. Na sua fase inicial Sorormenho escreveu contos (...) que transmitem a ideia de que o africano, na sua sociedade tradicional e pré-colonial, vivia precariamente sob a praga bíblica de Caim".

O professor Russel Hanilton sustenta que "Além da sua simpatia humanística para com o africano e, talvez, por causa dela, Soromenho possuía um poder de observação agudo que o beneficiou como pesquisador e ficcionista", acrescentando ainda que "nas suas andanças pelo interior de Angola, como recrutador para acompanhia de diamantes, Sorormenho não apenas observava os usos e costumes dos Africanos , como também testemunhava o choque de culturas. Evidentemente, que as inconsistências que presenciou levaram Sorormenho a entrar na sua segunda fase de produção literária."

O crítico norte-americano enfatiza também que "É verdade que Sorormenho não abandonou por completo certas perspectivas etnocêntricas; mas em compensação, nos romances da sua segunda fase ele demonstra honestidade e coragem ao revelar-se, abertamente, anticolonialista” (...) "Sorormenho revela a sua consciencialização política no seu tratamento das relações entre colonizados e colonizadores". A respeito desta segunda fase da sua produção literária, diria o romancista em entrevista concedida em 1960 ao jornal "Cultura", então editado em Luanda: "Desde que nos meu romances surgiram novas realidades sociais e se me apresentaram as suas contradições, logo se impôs, naturalmente, uma nova técnica e um novo estilo literário. O neo-realismo teria de ser o novo caminho."

Informação Adicional

  • Nascido em: 1910-10-29
  • Naturalidade: Moçambique
  • Gênero literário: Romancista

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