Bio Quem

Alfredo Troni

“Quando o padre com um gesto beato, e os olhos meio cerrados, mostrou ter concluído, o testamenteiro convidou três negociantes e o escriturário da Junta (que se pelava por consideração, e sempre era bom estar bem com eles, pensava o testamenteiro) para as argolas do caixão. O juiz levou a chave. O delegado, que não estava para maçadas, tinha ficado de propósito escondido atrás de um grupo, para não ser visto.

Quando se deu o primeiro impulso ao caixão e prorrompeu o choro das mulheres, viu-se Nga Muturi assomar a uma porta em grandes berros e exclamações, mas duas amigas seguraram-na logo e levaram-na para dentro.

Entretanto o caixão saía, agitado pelos passos desencontrados a princípio dos que o levavam. À volta do corredor para a escada ia havendo catástrofe. O escriturário da Junta instintivamente segurou com as duas mãos a argola, e o parceiro tirou apressado o lenço para estofar a sua argola, que era de corda muito fina e magoava-lhe os dedos.”

Fragmentos do livro Nga Muturi, de Alfredo Troni, pela “Edições -70”, Lisboa, 1973.

Alfredo Troni naceu em 4 de Março de 1845, natural de Coimbra, Portugal, e chegou a Luanda, em 1873. Mário António, no prefácio à obra “Nga mutúri”, afirma que a publicação da narrativan só aconteceu dez anos após a sua chegada, novela publicada em forma de folhetim pela imprensa em Lisboa, 1882.

Alfredo Troni, que para Russel Hamilton integra a Geração de 1880, foi advogado (fez o bacharelato), jornalista e polemista de formação republicana e socialista, definem-no como um homem de rara inteligência e cultura, grandes sentimentos humanitários que o levaram a combater a escravatura, sendo o autor do regulamento que declarou definitivamente extinto o estado de escravidão.

Foi eleito deputado por Angola, eleição que foi posteriormente anulada, e como represália, destituído já de todos os cargos públicos, foi transferido compulsivamente para Moçambique, onde vive do seu trabalho como advogado e morre em 1904, em Luanda.

Alfredo Troni fundou e dirigiu jornais, o Jornal de Angola, Mukuarimi (cujo significado é falador, maldizente) e os Conselhos do Leste, dois deles, redigidos em português e quinbundo, língua que dominava.

Pepetela, romancista e sociólogo, explica a tendência dessa elite ligada à actividade jornalística e literária em geral, tome nota que estamos no séc. XIX cadinho em que as ideias se cruzam e evoluem, nos seguintes termos:

“(…) Luanda e Benguela tornam-se centros de intensa actividade cultural e de debates onde são abertamente defendidos em publicações os ideais da Revolução Francesa, e onde se vão desenvolvendo uma crescente vontade de autonomia política. Sucedem-se os títulos de publicações cujos caminhos vão de um jornalismo que cultua o gosto pela polémica até à defesa dos valores e interesses da camada social de que fazem parte os seus autores.”, e Pepetela destaca dois nomes que têm uma importância muito grande na “génese da literatura angolana, apenas porque algumas das suas obras puderam chegar até nós.” São eles: “Alfredo Troni e Cordeiro da Matta, foram sem dúvida dois intelectuais dos mais representativos deste momento histórico, embora com origens e percursos diferentes.”

“Aproximava-se o aniversário do óbito. Já se falava nas missas, e todos diziam que seriam de estrondo. E foram faladas com efeito.

A gaêta era das melhores, e o batuque tinha vindo do Bengo. Havia dois tocadores que se revezavam. Quem tocava o batuque era o Feléla, que tinha sido moleque do Ferreira e dele tirara o nome estropiado. A ricanza de bordão, novinha em folha, era esfregada com toda a arte por uma velha já sem dentes, mas ainda muito amiga de brincadeira. Fora das melhores para a brincadeira, nos seus tempos.

- Se a vissem – dizia o velho Torres, com umas saudades lúbricas de outrora.

Dançaram toda a tarde e toda a noite. Houve muita concorrência. O vizinho deu um bezerro, e um garrafão de vinho. Nga Muturi teve mais outros presentes. Ainda gastou muito dinheiro.

Muito nfungi e carne seca. Houve quitoto, aguardente e genebra. Como sabia que iam brancos, tinha duas garrafas de vinho do Porto marca Triumpho de Bacho.

O Santana, guarda da alfândega, que era quem escrevia as cartas para Casengo, para o Serra, por causa da roupa, foi de opinião que comprasse do Maria Claudina, isto é que era vinho, que era a melhor marca. Que o Triumpho de Bacho vinha todo falsificado. O primeiro que veio, esse sim. Mas Nga Muturi, como o vizinho do defunto falecido só tinha desta marca, não o quis escandalizar, comprando em outra parte.

Foi um batuque falado. Dançavam no pátio. O João das Lanchas emprestou uma vela que servia de toldo.”

Fragmento do livro “Nga Muturi”, de Alfredo Troni, edição 70.

Sobre a sua “noveleta”, a designação é do ensaísta e poeta Mário António Fernandes de Oliveira, no prefácio da primeira edição da primeira edição em livro (1973), Carlos Erverdosa, no seu famoso Roteiro da Literatura Angolana, escreve sobre Nga Muturi assim:

“Obra que assegura ao seu autor um lugar de primeiro plano entre os precursores oitocentista e dos começos deste século do moderno surto de ficção africana de expressão portuguesa, constitui igualmente um importante documento histórico-sociológico da vida de Luanda na sua época”

Para Pires Larangeira, na sua obra intitulada “Literatura Africanas de Expressão Portuguesa”, acha que o autor de Nga Muturi, única obra que se lhe conhece, “sofreu nítidas influências do realismo queirosiano (sobretudo na ironia com que escalpeliza as mazelas e o triunfo do parecer sobre o ser nalguma boa sociedade luandense).” O professor de literaturas africanas vai mais longe e analisa algumas característica do polemista “percursor” da literatura angolana:

“A ordem sequencial diegética é marcada pelo trajecto de ascensão social da personagem principal (a que dá o título à obra), que, do mato à cidade, sofre um processo de aculturação. Trata-se porém, de uma narrativa de palavras, ilustrativa de um determinado tipo de vida na sociedade luandense”

Sobre a qualidade literária da obra, Manuel Ferreira, ensaísta já falecido, atestou que: “Nga Muturi” (Senhora viúva) é uma história elaborada com uma “Linguagem de excelente recorte literário, a lembrar, por exemplo, um Almeida Garrett das Viagens na minha terra (…) Nga Muturi traz outra virtude: a de um certo convívio linguístico e a entrosão de palavras das línguas-mãe”.

“E como a experiência da vida vai bem, e compara a sua existência na libata com a que leva agora, diz de si para si que a terra do Muene Putu é muito melhor que o mato. Para concluir, manda a verdade que se diga que às vezes, quando come cola e gengibre, entra muito pela genebra. Fica animada, com os olhos brilhantes, fala muito, e tem frequentes arrotos ruidosos. Então volta-se para a gente e diz:

- Isto são falatos.”

Fragmentos da última página, do livro Nga Muturi, de Alfredo Troni.

Mário António, poeta e escritor, analisa o fenómeno crioulo na sua obra: “Antes de mais, notemos que a principal personagem da noveleta, a que lhe dá o título, é um exemplo de crioulidade cultural, não biológica. A sua vida de acesso à crioulidade foi a escravatura, aliás a impulsionadora desse fenómeno onde quer que ele se apresente com alguma relevância social. O facto que originou a sua entrega à escravatura foi um dos mais correntes na África a Sul do Equador no século passado: a indemnização por prejuízos causados a estranho por elementos da sua família extensa.” E sobre a sua veia literária, M. António, considera-o um bom narrador: “Dentro do gosto do picaresco que lhe é próprio e que tem correspondência em obras dos mais importantes escritores portugueses do seu tempo, seriam dignas de transcrição passagens de poderoso descritivo, se a brevidade do livro não contra-indicasse o procedimento.”

Informação Adicional

  • Nascido em: 1845-03-04
  • Naturalidade: Coimbra (Portugal)
  • Gênero literário: Prosa

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