Bio Quem

Boaventura Cardoso

“Sol abrasador fazia reluzir tectos zincados, entrava por todos os lados e frestas e buracos, assim. Areias dos musseques estalavam de quentes e os transeuntes de pés descalços andavam então desajeitados, assim, como se estivessem a caminhar sobre brasas. E era então o fogo a flagrar tudo, assim. Crianças rabujavam até na rouquidão, os homens desnudavam o tronco, as mulheres impedidas de descobrirem o busto andavam de calções. E as casas de sorvetes rebentavam numa mistura de calor e algazarra de gente com as goelas sedentas, assim, olha o engraçado! Vá para o fundo da bicha!” In: Boaventura Cardosos. O Signo do Fogo. Lisboa, Edições ASA, 1992, p.17.

Boaventura Cardoso nasceu em Luanda a 26 de Julho de 1944. Passou parte da sua infância em Malange. Fez os seus estudos primários e secundários em Luanda. Conclui o curso de Ciências Sociais na Escola do MPLA-PT e é Licenciado em Ciências sociais pela Pontifícia Universidade de São Tomaz de Aquino - "Angelicum" (Roma-Italia).

“Tenho na língua portuguesa uma amante que muito desejo. E uma relação feita de amor e de alguma traição, uma relação ora pacífica, ora tumultuosa. Conscientemente transgrido as normas desse relacionamento, reinventando os códigos... A recriação linguísitca a partir da fala falada é, pois, uma constante nas obras que cita, e sê-lo-á nos próximos romances. É que não sei relatar de outro modo o falar do nosso povo... Considero-me, assim, um escritor africano não apenas por Ter nascido em África, mas sobretudo pelo tratamento que dou aos valores culturais da minha terra. Essa será sempre, no fundo, a minha postura.” Extractos de uma entrevista de Boaventura Cardoso a “Lavra & Oficina- Gazeta da UEA” IIª série, nº 2, março/Abril, 1998, p.4.

Foi funcionário dos Serviços de Fazenda e Contabilidade. Depois da independência ocupou diversos cargos de responsabilidade como director do Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD), Secretário de Estado da Cultura, Ministro da Informação, Embaixador de Angola na República Francesa. Foi Embaixador de Angola na Italia, República de Malta e Representante de Angola junto dos organismos das Nações Unidos sediados em Roma (FAO, PAM e FIDA), 2000/2002 é actualmente Ministro da Cultura.

Em 1967 começou a escrever publicando vários contos e poemas em jornais e revistas da cidade de Luanda. Foi membro da Comissão de Redacção da revista Angola da Liga Nacional Africana. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos.

A Professora Laura Padilha, da Universidade Federal Fluminense do Brasil afirma que: “Desde os seus primeiros contos, surgidos na década de 70, Boaventura Cardoso procura recuperar, no texto literário escrito, a forma de organização discursiva da oralidade, dele fazendo uma expressão griótica por excelência... O narrador de Boaventura quase sempre tenta vestir a pele dos contadores orais, ao mesmo tempo em que muitas vcezes procura resgatar a própria cena interactiva onde as estórias circulam... É, no entanto em «A morte do Velho Kipacaça uma pequena novel-laboratório dos romances posteriores que se dá o salto estético por assim dizer. Nela se recria o universo mágico angolano surgindo de forma pujante, uma forma de organização discursiva que encontra no chão dos romances o solo fertil para uma mais plean geminação.” In: Laura Cavalcante Padilha. “Em memória do rio (Um esboço de leitura de dois romances angolanos)”. I Congresso Internacional sobre Literatura Angolana, Luanda, 10-13 de Dez. 1997, p. 5.

Tem publicadas as seguintes obras: Dizanga Dia Muenhu (1977), O Fogo da Fala (1980), A Morte do Velho Kipacaça (1987), O Signo do Fogo (1992), Maio Mês de Maria (1997) e Mãe Materno Mar (2001), com o qual ganhou o Prémio Nacional de Cultura e Arte - 2001 na disciplina de Literatura.

“Família da noiva, com seus trajes casamenteiros descompostos, ah!ah!ah! tinha descido da carruagem para ver o ambiente. As crianças alheadas da gravidaqde da situação, se puseram a correr descontraídas para todos os lados, enquanto os cavalheiros e as seis damas de honor com as suas louçainhas, enfrentavam os olçhares curiosos dos passageiros das outras classes.Ih!....Na carruagem tinham ficado a noiva, a mãe dela, a madrinha e mais uma senhora que tinha conhecimentos de enfermagem e que lhe vigiava a todo o momento. Ela estava tão desgosta que não queria por nada abandonar a carruagem.” In: Boaventura Cardoso. Mãe Materno Mar. Luanda, Edições Chá de Caxinde, 2001, p.46-47.

Sobre Boaventura Cardoso e sua escrita, diz-nos a Professora de Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco no prefácio da obra “Mãe Materno Mar”: “ Um pensamento artístico polifónico está presente não só no romance Mãe Materno Mar, sexto título de Boaventura Cardoso, como em sua obra anterior. Buscando sentidos submersos da língua, novos ritmos e profundidades fónicas, sintácticas, semânticas, o auotr, com um «ferreiro tradicional», trabalha seus textos como “exercício de escrita”, modelando com o “fogo da fala” a forja da sua escritura, onde reinventa a cálida chama da oralidade, as centelhas de conhecimentos e saberes apreendidos à volta da fogueira.” In. Boaventura Cardoso. Mãe Materno Mar. Luanda, Edições Chá de Caxinde, 2001, p.11

“Igrejas tinham novamente mundo de gente, sobretudo de mulheres que, joelhando, fatimavam ardentemente Nossa Senhora de Fátiam. Os cânticos ecoavam então unissonamente e se fiapavam por entre portas e janelas das igrejas. Crentes se juntavam movidos por uma invisível e estranha força renovada. As águas revindas constantes. Vinham vindo de todos os cantos sem chamamento. Parece tinha força sobrenatural estav lhes puxar todos, carneiros, solidários. Na outra margem da correnteza que tinham ficado as diferenças sociais, rivalidades e inimizades.” In: Boaventura Cardoso. Maio, Mês de Maria. Porto, Campo das Letras, 1997, p.11.

Informação Adicional

  • Nascido em: 1944-07-26
  • Naturalidade: Luanda
  • Gênero literário: Prosa

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