Bio Quem

Nelson Pestana

“Procuro a tua voz

no olvido algemado da noite

sabia a sal/ gema a madrugada

e a fogueira não trazia mutopas

paradas nas bocas kabobas dos velhos

 

nascia a morte do canto do kakoxi

transfiguração precária do corpo

ulcerado de míngua luz

ferida vermelha a germinar

verde pasto repasto

anunciado.”

 

In “Ulcerado de míngua luz”

Nelson Pestana tem o pseudónimo de E.Bonavena, nasceu a 26 de Fevereiro de 1955, no bairro suburbano do Cazenga, em Luanda. Dos musseques diz que “abomina-os, não por desprezo às gentes que neles habitam, mas porque além de sinónimo de sub-desenvolvimento, são parte de uma “maka” que desde a infância o inquieta: sou filho do subúrbio”. Bonavena sonha em “conseguirmos fazer de Angola um país rico e dos angolanos pessoas ricas”.

Publicou entre outros títulos poéticos, “Ulcerado de Míngua Luz” (1985) e “Limites da luz”. É licenciado em direito pela Universidade “Agostinho Neto” e doutorado em ciências políticas pela Universidade de Montpellier, França.

Está a preparar, neste momento, o livro de ensaios sobre “O pensamento político do século XIX”. No âmbito dessas suas pesquisas prefaciou a última edição (2002) do livro “Delírios”, de Cordeiro da Mata, que foi publicada pela primeira vez em 1888, para além de ter escrito vários ensaios sobre nacionalismo e literatura. Publica regularmente diversos artigos e recensões sobre literatura angolana e sua história, tanto na revista “Angolê”, editada em Portugal, como em revistas francesas e italianas.

E. Bonavena entende que “a literatura tem que ser feita através de uma parábola, mas tem que ter um discurso pragmático estético para, através deste, a parábola passar”.

Actualmente trabalha em Portugal, num projecto do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Emprego (ISCTE), que tem como objectivo a publicação de um livro sobre os PALOP.

Digo

ave

inefável

e oiço

palavra

com esse

cheiro

seminal

da tua sombra dobrada sobre o texto

do teu corpo

ressonância acústica do discurso

no marulhar das águas

Na nota de apresentação do livro “Ulcerado de míngua luz”, o posfácio inserido na contra - capa, pode ler-se “Aqui está a primeira colectânea de poemas do jovem ensaísta E. Bonavena. Porque habituados ao seu labor de pesquisa e revalorização do facto literário angolano, ao estudo e reflexão sobre a nossa “história literária”, surpreenderá este talento poético?” e não espera pela resposta, para o apresentador da obra é uma “poesia avara de palavras, que se quer multisignificante, acima e abaixo do registo do quotidiano que a língua faz. Poesia em que o autor se arrisca numa (aparente) aridez para nos convidar à lenta fruição que solte ecos por dentro de nós - que despertem a poesia.”

A professora universitária brasileira Elisabeth Hazim, no seu estudo “Aspecto fragmentário da poesia de Bonavena” (texto inserido nas “Actas do encontro de professores e pesquisadores de literaturas africanas de língua portuguesa”, realizado em 1996, em Niterói, Brasil), sustenta que “não é um poeta que procura efeitos fáceis. Numa tentativa de apaziguar os seus próprios fantasmas interiores, mergulha no “rio manso da infância” - conforme vem anunciado desde a página de abertura - para trazer à tona “a frustrada nostalgia do passado ao apostar o presente gosto a fel na corda da zagaia”

A profª. Elisabeth Hazim sublinha que "Talvez se possa perseguir ao longo de todo o livro desse autor, como corrente subjacente, essa sua preocupação com o fragmentário (...) No entanto, acercando-se desses fragmentos dispersos, o leitor é capaz de surpreender o processo a que foram submetidos e de atingir, sob a aparência caótica do texto, uma organização consciente. A poesia que surge aqui estilhaçada - metáfora da própria realidade do poeta - é o caminho mais seguro por ele encontrado para comunicar coerente e ordenadamente a sua visão de mundo. Trata-se de palavras soltas, é verdade, mas são essas palavras os elementos que emergem formulados na obra".

A investigadora brasileira enfatiza que “Seus poemas são - como queria Mallarmé - feitos de palavras. De ponta a ponta, todavia, são percorridos por uma lógica interna que, somente aos poucos, vamos penetrando. Da assonância das pouquíssimas rimas à concisão dos versos, tudo é convite ao leitor que se transforma , aqui, em co-autor, pois é de sua leitura, da forma como ele dispõe as pedras do puzzle, que emerge a significação.”

Elizabeth Hazim frisa que “É a memória, portanto, que dialécticamente fragmenta o poeta a ata todos os fragmentos do livro, transformando-o em um todo harmonioso e bem estruturado. Um livro cuja poesia é feita de palavras soltas, postas em liberdade, demonstrando o aspecto criador da utilização da linguagem.

A estudiosa brasileira conclui ainda que “ a expressão verbal, o campo semiótico em que esse autor se move, constituem um idioma à parte, um verdadeiro idiolecto”, e para terminar diz que "Não é, sem motivo, pois, que este livro de Bonavena - transposição poética de suas reminiscências - pode ser apontado como um momento importante na Literatura Angolana de hoje.”

Informação Adicional

  • Nascido em: 1955-02-26
  • Naturalidade: Luanda
  • Gênero literário: Poesia

Contacto

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1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

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