“Passaram meses desde que morreu Sá Rosa. Como Sá Rosa tinha deixado o incargo na velha Masoxi de tomar conta dos filhos e da casa, a velha ficou a tomar conta. Numa manha, vela Masoxi sentada debaixo da gajajeira como de costume, cosia seus balaios, quando Dadão lhe apareceu e sentou perto dela. A velha sem parara de coser lhe pergunta: Já brincô? Sim, já brinquei! E ponha a cabeça dele no côlo da velha dizendo: Mi cata só mamã Masoxi. Hi! Marido bandido! – Brinca ela – Essa hora, é hora de namorá? Namorá não tem hora. Xê, bandido!, quenhé que ti insinou já essa cuesa? Dadão sorri e responde: Não é ninguém. Velha poisa o balaio e começa lhe catar piolhos. Marido não deixa mulhé fazé trabalho, marido ansim, não presta.
In A Dívida da Peixeira – Página 91 -
Jacinto de Lemos, nasceu em Icolo – e Bengo a 02 de janeiro de 1961. Fez os estudos primários em Luanda. É autor de Undengue (1989), O Pano Preto da Velha Mabunda e A Dívida da peixeira, trabalho que venceu o prémio Sonangol de Literatura 2002.
“não mi matam os filhos. Mi perduam ! só! – pedia Sá Rosa, ajoelhada em frenete as amigas – Eu não sabia! Juro, não sabia ... que essa divida era para si pagar com a vida dos filho. Mana Fatita, mana Marta, mana Maria Simão, favor... Famor minhas amigas, minhas companheiras do Uênji (Negócio), recebem o dinheiro... aceitam o dinheiro. Com o dinheiro embrulhado no avental entregava ora numa, ora n’outra, que só lhe olhavam em silêncio. Mana Maria Simão, quando ti bati a porta pra ti pidir impresto deste dinheiro, bati com curação, mana Maria. Bati com bom curação. Não sei porque mi fizeste esse pecado...
In ‘A Divida da Peixeira – Página Nº 9
Sobre Jacinto de Lemos diz Luís Kanjimbo: “ a sua narrativa caracteriza – se pelo modo como apresentada a paisagem social suburbana luandense e as personagens que tipificam o seu universo social, feito nomeadamente de humor e relações conflituosas, destacando – se entre os intervenientes crianças, mulheres e homens ociosos ou marginais. Do ponto de vista da Linguagem, os diálogos, a narração dos factos, e a descrição dos ambientes em que interagem aqueles personagens, são os aspectos mais visíveis.
Para conceição Cristovão: “entre os escritores da nova geração, temos um verdadeiro operário da palavra, um griot, um prosador de palavras simples, límpida, fluindo como a água da fonte. Jacinto de Lemos considera o belo, o ligeiro, cativante e recriado discurso em prosa, assente no linguajar popular, aliás, um discurso iniciado com o seu primeiro livro, ‘Undengue’ e continuando no segundo, ‘ O pano Preto da Velha Mabunda’.
